Acacia e as minhas lembranças de um treinador peruano de Pokémon

Acacia e as minhas lembranças de um treinador peruano de Pokémon

No ano em que perdi um amigo muito especial — e o maior treinador Pokémon que já conheci —, ouvir a canção Acacia da banda Bump of Chicken, lançada no final daquele mesmo ano, foi como reviver alguns dos melhores momentos que compartilhamos no passado, caçando e treinando nossos monstrinhos de bolso. 

Neste mês de fevereiro, que seria o mês do seu aniversário, quero homenageá-lo através deste texto, no qual a canção Acacia, interpretada por uma das minhas bandas favoritas, será a minha companheira para lembrar da nossa jornada.

Acacia 

É o nome do single mais recente lançado pela banda japonesa de rock alternativo, Bump of Chicken, em novembro do ano passado. A canção que dá nome ao single, foi tema musical do videoclipe animado “GOTCHA!”, produzido pela Pokémon Company em parceria com o estúdio de animação Bones, para promover o lançamento dos pacotes de expansão de Sword & Shield, abrangendo toda linha temporal dos principais jogos da franquia Pokémon.  

As legendas do videoclipe estão disponíveis em 8 idiomas diferentes.

Escrita por Motoo Fujiwara, o vocalista, guitarrista, compositor e letrista do Bump of Chicken, Acacia é uma tocante canção sobre amizade, retratada por meio dos fortes laços construídos por duas pessoas ao longo de uma jornada vivida no passado. Mesmo quem não entende nada de japonês, assistindo ao clipe da música, com certeza, consegue captar a atmosfera nostálgica e festiva dela. 

Numa rápida visita à sessão de comentários do clipe da música no youtube, não é difícil encontrar, quem como eu, se desmanchou em lágrimas ao escutá-la, pelas mais variadas razões. 

Alex

Conheci Alex durante o período em que estive morando no Japão, entre 2018 e 2019, na escola de língua japonesa onde estudávamos juntos. Ele era peruano e dez anos mais novo do que eu. Falava bem o nosso português, tendo aprendido boa parte do seu vocabulário convivendo com brasileiros no trabalho. 

Não me recordo precisamente de como rolou a nossa primeira conversa, mas tenho certeza de que fui quem tomou a iniciativa. Alex era do tipo calado e dificilmente conversava durante as aulas. Admirava muito o foco dele nos estudos e em tudo pelo que se interessava, o que incluía Pokémon. 

Um treinador extremamente dedicado de monstrinhos de bolso, foi com Alex que tive a minha primeira oportunidade na vida de trocar pokémons e entender alguma coisa sobre o cenário competitivo dos jogos da série. Paciente e gentil, ele sempre estava 100% disponível para sanar qualquer uma das minhas dúvidas.

No quase um ano em que estivemos próximos um do outro, morando na mesma cidade, éramos uma dupla inseparável de excêntricos. Eu com meu 1m 98cm de altura e ele sempre vestido com suas roupas de cor preta, a sua marca registrada, que lhe garantiu o apelido de Vampiro Peruano (dado por mim). 

Vampiro tomando banho de sol? Pois é, Alex era único até nisso.

Mesmo depois dele ter retornado ao Peru ainda no começo de 2019, continuamos mantendo contato. Alex havia sido o meu primeiro amigo no Japão. O considerava um irmão menor e um rival admirável nos jogos. A notícia de que ele havia morrido, chegou até mim no mesmo dia do ocorrido (14 de fevereiro de 2020) e ainda hoje parece impossível acreditar que ele se foi…

Amizade

Com a partida de Alex, o antes simples ato de jogar Pokémon e capturar os monstrinhos com os quais tenho mais afinidade, deixou de ser algo banal. Agora, sinto que é algo maior, não como uma responsabilidade, mas um desejo de poder continuar vivenciando essas experiências como forma de recordá-lo. Na verdade, já não consigo dissociar Pokémon de Alex, pois foi através desse interesse em comum que nos tornamos grandes amigos. 

Por essa razão, quando ouvi Acacia pela primeira vez, foi impossível conter o rio de lágrimas. Além de ser uma canção interpretada por uma banda de que gosto muito e estar relacionada a Pokémon, ela retrata com tanto carinho a temática da amizade e os laços que somos capazes de formar através de batalhas e trocas no jogo. No clipe animado, o momento em que o Garchomp aparece foi o golpe final para eu chorar ainda mais, pois esse era o Pokémon favorito dele. 

Quando me enviou essa foto, Alex já estava de volta ao Peru e seguia treinando seu amado Garchomp.

Tal como é dito na canção, no dia em que nos encontramos, nossas risadas falaram mais do que nossas palavras. O nosso encontro pode ter sido ao acaso, mas sei que fizemos dele o melhor que podíamos. Cada jornada em que partimos, cada monstrinho que trocamos, estão guardados com carinho e é isso o que mais queria lhe dizer. 

Adeus

Eu não tive a chance de lhe dizer uma palavra tão simples (e curta), mas estou fazendo isso agora, meu amigo. Espero que a nossa jornada, de alguma forma, possa inspirar outras pessoas a formarem laços como fizemos, seja através de Pokémon ou de qualquer outro jogo. 

Obrigado por tudo, meu amigo.

Acacia será sempre a canção que me fará lembrar de você com todo carinho e espero que mais pessoas a escutem e se permitam ser tocados por ela.

Falando de algum lugar no universo - Pedro Corujeira

Salvo mundos fantásticos da iminente destruição desde os anos 90 e sigo nessa vida até hoje. Nos intervalos entre uma batalha e outra, escrevo para o Maratona de Sofá sobre joguinhos, filmes, desenhos, gibis e o que mais der na telha.

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