Meu pai era um homem muito mais velho que eu, ou que minha mãe. Por consequência, sempre tivemos muitos conflitos geracionais, mais do que o normal de uma relação pai e filho “padrão”. Isso me deu algumas certezas na vida, e uma delas é que eu não quero envelhecer: por medo das consequências da idade avançada no corpo de uma pessoa. Foi muito interessante assistir Meu Pai (The Father, 2020), e repensar não só esses medos, mas essas relações possíveis entre pais e filhos.

Sinopse
Anthony (Anthony Hopkins) é um senhor que tenta viver sua vida numa boa, mas o mundo ao seu redor sempre parece muito caótico: pessoas que aparecem e somem, gente que se diz parente mas que ele nunca viu na vida, mudanças no seu querido apartamento que ele nunca viu acontecer… Sua filha Anne (Olivia Colman), por outro lado, tem que lidar com o pai que, definitivamente, não pode mais ficar sozinho.
Antes de começar
Só dizer que é bom estar de volta escrevendo sobre Cabines de Imprensa. Mesmo que, nesse período, seja BEM DIFERENTE do que eram as cabines até 2019.
Além disso: o trailer pode te deixar com uma visão muito enviesada de alguns personagens. Recomendo não assistir.

Como lidar com isso tudo…?
É bem difícil saber como começar ao falar de um filme sobre esses. Mas acho que um bom começo, é dizer a sensação que sentimos ao vê-lo. E essa seria algo entre a melancolia e a admiração. Admiração, no caso, por ver que Florian Zeller, diretor de Meu Pai, conseguiu com tanta maestria transpor, para as telas, como seria a confusão de uma pessoa que passa por um processo de demência.
Não me leve a mal, não estou falando de maneira pejorativa. Me refiro ao processo de degeneração mental, mesmo. Mas acho que estou falando na ordem reversa, vamos voltar.

A origem
Meu Pai é um filme dirigido por Florian Zeller, estrelado pelo sempre genial Anthony Hopkins, e pela incrível Olivia Colman. É baseado na peça de teatro francesa Le Père, igualmente escrita e dirigida pelo próprio Florian. Essa peça estreou em 2012 e, em 2014, ganhou o Prêmio Molière de Melhor Peça. É considerada uma das maiores peças da década, e “Um tesouro nacional vivo” [1], pela crítica.
É importante que se frise esse fato, de que esse filme é uma adaptação. Porque, por mais que se utilize de recursos cinematográficos, como efeitos especiais, mudanças de câmera, trilha sonora e afins, Meu Pai é, por excelência, uma peça de teatro. Isso fica bem claro em vários pontos: o elenco pequeno; poucos cenários (que muitas vezes se sobrepõem); grande foco na interpretação dramática; e peso muito grande nas falas.

O Pai
Meu Pai é um filme de entretenimento, como a maior parte das peças artísticas, é claro. Mas mais do que isso, é um filme reflexivo, um exercício de se pôr no lugar do outro. Como seria ver todo o mundo ao seu redor simplesmente parar de fazer sentido? Porque, como já disse antes, Meu Pai trata essa relação familiar entre pai e filha, Anthony e Anne. Ele, um senhor já idoso, que tem uma vida boa, e é orgulhoso das suas conquistas, e não entende as preocupações da filha; ela, uma filha que tem a própria vida, mas se vê constantemente precisando arranjar tempo para cuidar de seu pai, cada vez mais acometido pela demência (o filme não deixa claro qual doença em específico ele tem).
Essa disparidade de “pontos de vista” gera uma série de conflitos muito sofridos, onde não só os personagens mas também nós, espectadores, ficamos muito perdidos.

Confusão
Voltando ao tema “confusão”, a grande maestria de Meu Pai está justamente no fato de te deixar tão confuso quanto o próprio Anthony. Quem são essas pessoas? Quem é esse cara? Porque agora é outro cara? Será que é sobre viagem no tempo? É uma conspiração? Quem tá fazendo isso?
Essa sensação de desconforto, de não se ter mais certeza sobre nada ao seu redor é, eu posso imaginar, uma metáfora precisa do desenrolar de um processo de agravamento do quadro de demência. É assustador, é revoltante, é preocupante e, mais do que isso, é muito triste. O filme tem momentos cômicos (o próprio produtor David Parfitt o define como “uma comédia de humor negro”), mas na real, ele é um daqueles que vai te deixar pensando “caralho, brother” no final. Você nem vai precisar ter passado por situação semelhante para se identificar com o filme.
Digo mais: para quem (como eu) ainda não precisou lidar com este tipo de situação. Meu Pai é uma ótima forma para começar a se interessar pelo tema, e empatizar com as pessoas que sofrem desse problema. Acho que essa é a parte mais difícil, na verdade, tentar entender o que a pessoa está passando. Fica bem resumido na fala do Paul (Rufus Sewell), “Eu às vezes me pergunto se o que você está fazendo é de propósito”.

Concluindo
O Oscar está sendo uma fonte de ótimos filmes (é o que se espera dos indicados para a categoria de Melhor Filme, não é? Não. Eu me lembro de você, Green Book). Meu Pai era um dos que eu não esperava muito. Imaginei que seria um dos famigerados “filmes de Oscar”, que se valem de uma estética específica de drama para concorrer a prêmios. Por sorte, não é o caso. Meu Pai é um filme essencial, para ser visto por qualquer pessoa. Doenças mentais sofrem muitos tabus até hoje e, quanto mais conseguirmos entender o que se passa com essas pessoas, menos sofrimento acontecerá. Obrigado à todos por terem lido até aqui, e até o próximo texto!
Mas antes!
Ah, espera um minuto! Nós, aqui do Maratona, estamos fazendo um Minicast para cada um dos filmes indicados ao prêmio de melhor filme. Não deixem de ouvir!

Momento P.S. (Pode Spoiler):
As cenas do Paul dando tapas na cara do Anthony causam uma revolta inacreditável, puta merda. toda a forma como ele lida com o Anthony, na verdade, é terrível.
Referências
[1] https://www.dailymotion.com/video/xu9vp7
Wikipedia – Le Père (Português e Francês)
Demência: sintomas, tratamentos e causas
Demência (Major Neurocognitive Disorder)