Raia 4 – Desabrochar na água

Raia 4 – Desabrochar na água

Uma das melhores coisas da adolescência é sair dela. De vez em quando, surge alguma obra que te faz lembrar como caramba, era uma fase bem complicada mesmo, essa que ficou para trás. Raia 4 é um desses filmes.

Pôster oficial de Raia 4. Foto tirada do fundo da piscina, onde se veem duas nadadoras na parte de cima, logo abaixo da superfície da água. Na parte de baixo está escrito "Raia 4"

Sinopse

Amanda (Brídia Moni) é uma pré-adolescente, tendo que lidar com os problemas da época: interesses amorosos, cobrança dos pais, cobrança nas atividades… Nesse contexto, onde ela mais sente cobrança é o que lhe dá a maior liberdade, a natação.

cena de Raia 4. Amanda está boiando na água
Mó paz

Amanda

Vamos começar falando da protagonista.

Amanda é uma garota reservada. Tímida, certamente, porém mais do que isso, ela não interage muito com os colegas por um certo distanciamento. Prefere sentar sozinha, não se interessa muito pelos meninos… E talvez aí esteja a chave da questão, uma vez que fica claro para quem observa (ou seja, nós) que seu verdadeiro interesse não é em nenhum menino. Por outro lado, Priscila (Kethelen Guadagnini) parece despertar um certo fascínio em Amanda, que ora faz com que ela tente se aproximar, ora faz com que elas rivalizem fortemente.

É uma personagem curiosa, a Amanda. Porque, muitas vezes, a gente não sabe muito bem o que ela quer. Mas se você parar pra pensar… Você sabia bem o que queria com 12 pra 13 anos? na verdade, as pessoas ao redor parecem saber o que querem dela, os colegas, o instrutor, os pais… 

Vamos falar dos pais.

Filha de dois médicos cirurgiões, Amanda tem uma vida material muito confortável. Os desconfortos que ela sente não vem daí. Mas sim, do fato que Marta (Fernanda Chicolet), sua mãe, parece estar o tempo inteiro tentando ser participativa, o que lhe incomoda; e Rogério (Rafael Sieg), seu pai, está sempre ausente por conta do trabalho, fazendo com que os momentos de carinho sejam raros, e sempre interrompidos.

É curioso pensar que, mesmo que ambos tenham a mesma profissão, ainda caiba à mãe acompanhar o desenvolvimento de Amanda mais de perto, mas isso fica para outro momento. Amanda e Marta vivem uma relação muito estranha. Há muito incômodo ali, muitas tentativas de aproximação da mãe que são rejeitadas pela filha, e a gente fica sem entender bem o motivo. Raia 4 não explica, e talvez não haja explicação.

Já com Fábio (José Henrique Ligabue), existe muito carinho e atenção, por parte de Amanda. Porque ele está sempre distraído, ou com o trabalho, ou com o filme, ou simplesmente não está. O motivo desse afeto é tão instigante quanto os sentimentos que ela demonstra pela mãe. Seria só uma expressão da construção da psique de uma menina a partir de Freud, ou teria algo mais aí?[1]

Cena de Raia 4. Amanda está ajeitando sua touca e óculos, sentada à beira da piscina, olhando para alguém que está em primeiro plano, fora de foco.
Faíscas no olhar

Natação

Se por um lado, não vemos Amanda na escola, por outro o Grêmio Náutico 8 de Março é o principal cenário de Raia 4, onde ela vai treinar sempre, uma vez que é uma nadadora competitiva. É um lugar de muitos conflitos e questões.

Por exemplo, as cobranças de Fábio (José Henrique Ligabue), o treinador, que parece sempre pegar mais no pé dela do que de outras pessoas. Será que é só impressão? ele é mesmo mais chato com ela? ou é porque ela é uma das melhores nadadoras do seu grupo, e ele quer manter o alto rendimento? Uma certa desatenção que ele demonstra com ela é desatenção de fato, ou é total confiança nela?

O “clube” também é onde ela lida diariamente com seus colegas, e meu deus, como crianças e adolescentes são opressores sem nem mesmo perceber. A rivalidade que pode surgir dos momentos de treino, os interesses românticos, as “zoações”. A lista de interesses, “e ai, quer ficar com quem?”. O jogo de Verdade ou Consequência… Olha, vou ser bem pessoal aqui, eu fugia do Verdade ou Consequência como o diabo foge da cruz. Perdi algumas experiências? Sim. Evitei alguns traumas? Também.

Por fim, existe uma particularidade na natação que Raia 4 é muito sensível ao mostrar, que é o fato de os corpos seu e dos colegas estarem sempre expostos, e existir uma exigência de que estejam sempre em bom estado. E como lidar com isso, quando seus hormônios estão começando a ferver? É a isso que me refiro ao citar a sensibilidade, tanto do diretor Emiliano Cunha, quanto do diretor de fotografia Edu Rabin, de não sexualizar os atores mirins, mas ainda assim de deixar claro a atração que os personagens causam uns aos outros em cena. Parabéns. 

Fotografias e tals

Só pra fechar, um ponto interessante é as decisões de filmagem e enquadramentos. Raia 4 é lento e contemplativo, e faz sentido que assim seja. Afinal, com os planos abertos, as cenas longas, os grandes momentos de silêncio estão lá para que nós, espectadores, acostumem-se com os silêncios e momentos reflexivos de Amanda. Momentos esses que ficam ainda mais claros nas cenas em que ela está sozinha na piscina, tanto os metafóricos (como na competição, onde ela se vê sozinha no meio de uma multidão) quanto factuais (quando ela fica até mais tarde no “clube” para poder nadar só). Então, é muito possível que achem Raia 4 chato, mas fica aqui minha defesa de sempre aos filmes lentos: os momentos sem grandes acontecimentos também tem sua razão de existir. Que nem na vida real.

Cena de Raia 4. Num quarto de hotel, vários adolescentes (colegas de Amanda) estão sentados em roda, alguns no chão, outros sobre camas, rindo e conversando.
Ah, a juventude…

Concluindo

Raia 4 aborda de maneira sublime o momento de transição de uma garota cheia de questões pessoais. Nenhuma grande tese é feita, porque nenhuma grande tese precisa ser feita sobre a vida de ninguém. Estamos aqui para observar e contemplar a história de um indivíduo: Amanda. Você pode se identificar com ela ou não, mas ainda assim, vale a pena a experiência.

Momento P.S. (Pode Spoiler)

O final

Ok, você já assistiu Raia 4, viu aquela última cena, e não entendeu nada. E veio aqui para saber se eu entendi e posso te ajudar. A resposta é que não, eu também não tenho certeza. Mas a gente pode teorizar, aqui.

Amanda mata Priscila ou não? Olha, pelo o que foi visto em tela, pura e simplesmente, eu diria que sim. Mas eu prefiro acreditar que não. Porque:

A piscina, além de ser um local de cobrança e de angústia, também é um lugar de reflexão e de solidão confortável para Amanda. É onde ela gosta de estar, apesar dos pesares. A gente também tem que se lembrar que é na piscina que as maiores metáforas visuais de Raia 4 se passam. Logo no começo do filme, é nela que Amanda está submersa, encolhida, até que “desabrocha em flor” para que a narrativa continue; também é lá que ela se imagina nadando só, enquanto na verdade tinha uma multidão ao seu redor, para que a gente entenda como ela se sente menstruando pela primeira vez num momento tão importante da sua carreira juvenil.

Ou seja: nem toda cena dentro da piscina é real.

Então eu, Fernando, prefiro acreditar que a cena final, do assassinato de priscila por Amanda, nada mais é do que, mais uma vez, nós espectadores conseguindo ter acesso metafórico à psique juvenil da pequena atleta. ela deseja tanto priscila, mas ao mesmo tempo tem tanta certeza que o sentimento não é correspondido, que prefere afogá-la em seu proprio coração do que continuar lidando com essas dores.

Claro que vocês perceberam isso também. Vocês são muito inteligentes.

Mas eu faço questão de reforçar essa metáfora aqui, porque Amanda não demonstra, em momento algum, ter esse lado frio. Ou a gente teria que forçar MUITO a barra, pegando momentos como o que ela reabre uma ferida superficial, ou então quando ela espeta a cabeça da amiga sem querer ao fazer um penteado. Ora, abrir feridas físicas é uma coisa que qualquer criança/adolescente faz (as sentimentais, a gente vai reabrindo a vida toda, risos). machucar outra pessoa sem intenção ao fazer um penteado é uma coisa que qualquer cabeleireiro inexperiente faz. Não são desculpas suficientes, simples assim.

[1] Me refiro ao complexo de Édipo, e afins. Eu sou leigo no assunto, então recomendo essa leitura: A Relação mãe-filha e seus efeitos de devastação (unr.edu.ar)

Cena de Raia 4. Priscila, vista no vão de uma porta, olhando para trás, na direção de alguém.
Foi ou não foi?

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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