Amigos, quando sua amiga te emprestar um videojogo novo, não fique jogando pela madrugada. Isso vai atrapalhar quando você tiver compromissos na manhã seguinte. A cabine de hoje foi Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018)
SINOPSE
Kobayashi (Kunichi Nomura), o atual prefeito de Megasaki, é um dos maiores odiadores de cães da cidade. Usando como desculpa a gripe canina, decreta que todos os cachorros sejam “deportados” para uma ilha que era um lixão. E, para salvar seu cachorro Spots, o jovem Atari (Koyu Rankin) arrisca sua vida indo para a (atual) Ilha dos Cachorros.
COMENTÁRIOS [Sem spoiler]
Apesar da estética stopmotion sempre me deixar muito preocupado com o resultado de um filme, a verdade é que, em longas, os resultados costumam ser muito positivos: Mary e Max, Coraline, A Fuga das Galinhas, A Noiva Cadáver. Esse não é diferente, e é um ótimo filme usando esse tipo de produção.
O diretor e roteirista Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste, O Fantástico Sr. Raposo, Os Excêntricos Tenenbaums, Moonrise Kingdom ) volta à técnica usada n’O Fantástico Sr. Raposo para conduzir essa história. Que, como todo filme que eu gosto, fala muito mais do que o plot apresenta. E está de parabéns pela execução. Eu gosto muito de observar a resolução de pequenos problemas, como movimentação de olhos, ou o andar de um vira-lata, até mesmo emular fumaça e fluidos. Está tudo de parabéns.

Seguindo a avaliação técnica, o que mais chama a atenção após os aspectos visuais, é a parte de sonoplastia, e trilha sonora. A primeira costuma ser boa quando você não percebe que houve um trabalho em cima. E estão de parabéns, tudo é bastante natural, mais até do que as manipulações dos objetos. Já a segunda, é a coisa que eu mais adoro no filme. A trilha traz tão bem os elementos japoneses, e não só aqueles sininhos que a Globo põe no início de toda reportagem sobre o Japão. Estamos falando de música com inspiração na tradição japonesa REAL, aqui. Tanto que, uma das primeiras sequências do filme é justamente uma apresentação de taiko.
Se você olhar a lista de elenco, vai ver que o filme é uma constelação. Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Scarlett Johansson, Yoko Ono, Tilda Swinton, Liev Schreiber… e estão todos de parabéns, a dublagem é impecável. Não só nas atuações, mas a animação de fala dos bonecos é incrível.

A narrativa é o que costuma me atrair mais num filme. E a de Ilha dos Cachorros é bastante simples, na verdade. Mesmo contando com flashbacks, dificilmente você ficará confuso. Mas ela tem tantos simbolismos, que vamos precisar de uma nova sessão:
COMENTÁRIOS [com spoilers moderados]
Num primeiro momento, o filme parece ser sobre a dedicação a um grande amor perdido (amor, no caso, entre amigos. Entre mestre e cão). E sobre o que fazer para reavê-lo.
Mas, na verdade, o filme é sobre mudanças. Sobre transferência de sentimentos. O que fazer quando você encontra outro cão que preenche o lugar vago no seu coração? O que fazer quando voltar para casa deixa de ser prioridade, em prol de novos companheiros? E quando a motivação que se tem por uma causa não é mais a causa em sí, mas sim uma pessoa-símbolo que existe nela?

Estamos tão acostumados com padrões e pré-definições, que não sabemos lidar com o novo. Não sabemos o que fazer quando o presente já não é mais tão confortável quanto o passado. Preferimos manter casamentos falidos, empregos desestimulantes e laços tediosos, do que nos permitir perceber que aquilo não faz mais sentido. As coisas precisam mudar. E mudar, muitas vezes, é evoluir.
E, por isso, o filme é tão bom, e merece ser assistido.
Tenho críticas também, claro. Primeiro na distribuição: o filme é muito apelativo para crianças então, por favor, sessões dubladas. Resoluções muito simples, que sempre reclamo. E tem um símbolo para a vilania, nesse filme, que pra mim não é bem explicado. Falo dele já já.

RESUMO
Ilha dos Cachorros é o típico filme que, se você assistir despretensiosamente, talvez nem goste. Ache bobo e simples.
Mas se você (como eu sempre falo) estiver atento, vai se dar conta de quantas coisas podem ser ditas em tão pouco tempo.
Espero que gostem do filme tanto, ou mais, do que eu, e até a próxima! Deixem suas opiniões nos comentários, vai nos fazer muito felizes.
P.S.1 – Momento Pode Spoiler
O filme tenta o tempo inteiro passar a imagem de que gatos são vilões. A cada investida contra a “canicidade”, gatos são associados. E, fora ser um símbolo… por que eles são maus? Ainda mais contra cães (curiosamente, os dois bichos não entram em conflito no filme). Não faz sentido, além do estereótipo.
A resolução é simples demais.

P.S.2 – Mas tem mais uma coisa…
Galera, aqui vem um incômodo puramente pessoal, meu, com o filme. E envolvem questões sociais então, se o tema não te agrada, pode pular essa seção. O texto já acabou. Abraços!
Se você continua aqui, vamos lá. Primeiro um pouco de contexto.
Quem me acompanha, principalmente aqui no blog, sabe como eu me importo, e me incomodo, com questões sociais em filmes. “Ah, mas é só entretenimento”. É uma informação sendo passada e apreendida. É um discurso, ali. Ele precisa ser feito com cuidado.
Algo muito debatido no que tange cultura pop e questões sociais é a representatividade. Eu, que me reconheço como negro, sou cada vez mais impactado por isso. E com a percepção de que representatividade para negros já é um debate avançado (não concluído, calma), minha atenção começa a se voltar para como outras etnias estão sendo representadas.

Japão…?
Uma das primeiras legendas do filme foi (aspas simples, porque não vou lembrar com exatidão) ‘todas as pessoas desse filme falam japonês. Se aparecer alguma tradução vai ser feita ou por tradutores, ou por tradução eletrônica. Todos os latidos serão dublados em inglês’. Isso me fez rir, parece muito uma piada. Mas não é. Realmente, todo humano japonês não é dublado nem legendado. Mas SEMPRE há intérpretes na ocasião! E todo cachorro realmente é dublado em inglês. Mas eles são protagonistas do filme. Então, na prática, o filme É em inglês! Pra que todo o trabalho de adaptá-lo ao japonês? Porque não fazer inteiro anglófono? Apesar de que, o que realmente me agradaria seria que todo esse panteão de atores dublasse tudo em japonês, e o filme fosse todo legendado.
(adendo: enquanto escrevo esse texto, já é a 3ª vez que um dos meus cachorros vem me pedir atenção)
Isso me levou a pensar o porque, então, fazer Ilha dos Cachorros todo ambientado no Japão. Sem buscar referências externas, como entrevistas ou releases, o filme me leva a pensar que é graças à inspiração no Pequeno Samurai, que decapitou o comandante ancestral do primeiro expurgo canino. Então minha sugestão seria: fazer a lenda do Pequeno Cavaleiro, e fazer a Ilha dos Cachorros se passar numa ilhota ao redor do Reino Unido. Não precisaria de todo o esforço para ter duas línguas na película nem nada. O filme se passar no Japão é bem pouco importante para a trama.

Comentando desses problemas com uma companheira de blog (beijo, Diovana), ela me lembrou de outro incômodo: Tracy Walker (Greta Gerwig). Temos, de novo, um americano salvador num problema que, em tese, não compete a eles. “Mas ela não tem o d…” tem, tem sim. Todo mundo tem o direito de se incomodar com a situação narrada no filme. Mas voltar prum estereótipo tão nocivo não só do cinema, como da cultura americana (quiçá ocidental) foi bem decepcionante.
Enfim
Basicamente foi isso. Foi difícil escrever sobre Ilha dos Cachorros. Porque esta última parte do texto estava entalada desde enquanto eu assistia. Deixar de lado para debater as outras características do filme foi complicado. Mas foi importante, para que eu voltasse a lembrar os motivos de gostar do filme. Porque sim, eu gostei bastante. E recomendo a todos que vão assistir.
Abraços, até o próximo texto!
(E dessa vez eu prometo que não vem mais nenhum parágrafo extra)
Mentira, tem mais um sim. Leiam o texto da Dio.
E agora não tem mais nada.
Sério.
Juro.
