Algumas vezes confundimos os sentimentos, porque usamos as mesmas palavras para descrever coisas diferentes. O cuidado pode ser conservar algo. Pode ser potencializar algo. E pode ser também, restringir tanto o acesso a algo, que este algo definha. A cabine de hoje foi do filme As Herdeiras (Las Herederas, 2018).
SINOPSE
Chiquita (Margarita Irun) e Chella (Ana Brun) são duas senhoras, vivendo juntas e passando por problemas financeiros. Infortúnios as obrigam a passar três meses afastadas, e a aprender a lidar com isso.

PREÂMBULO
Eu sempre tenho que fazer comentários desse tipo quando lido com esse tipo de filme: pessoas que não estão acostumadas vão achar o filme lento e chato. Não vão entender alguns enquadramentos. Não vão entender algumas falas, nem alguns olhares. Essas pessoas precisam prestar mais atenção. Filmes incríveis e histórias excelentes, se escondem em narrativas “lentas”.
Falando de formato, As Herdeiras é quase todo um filme no molde do Dogma 95. Não é de todo porque em poucos momentos, a trilha não é parte da cena gravada, e não tem como negar o gênero desse filme, ele é um drama. Última coisa: os enquadramentos de câmera são estranhos num primeiro momento. Mas eles representam o olhar. Fique atento a isso.
Por que toda essa introdução: porque, muitas vezes, histórias interessantíssimas, inspiradas na vida real, são perdidas. Algumas dessas vezes, inclusive, histórias REAIS. Só porque você ficou entediado. Nem tudo é feito pra te agradar. Você tem que se dispor a aceitar uma narrativa, também.
Isso posto,

COMENTÁRIOS
Filmes de festival são rejeitados pelo público não cativo a festivais. Faz sentido, porque a linguagem usada pelos diretores e roteiristas não costumam ser a linguagem popular. Esse debate, pelo lado dos produtores é válido, e cabe noutro momento. Mas vamos nós, grande público, nos permitir.
Esse filme, lento, escuro, com closes demais, que quase não tem música, fala sobre o desabrochar de uma pessoa na 3ª idade. Pior, alguém que consegue se aproximar de uma vida vivida plenamente, quando a pessoa que mais lhe cede amor e cuidado é proibida de fazê-lo.
É estranho porque, toda vez que pensamos no “cuidar”, pensamos em alguém protegendo a pessoa. Mas e quando toda essa proteção, na verdade, mina as possibilidades de alguém seguir o próprio fluxo? E quando esse cuidar faz com que a pessoa cuidada “murche”?
Chella é uma pessoa com um quadro provável de depressão. Muito latente, inclusive. Não deseja sair, seu entretenimento é a rotina, toma remédios diários. Chiquita é a responsável por cuidar dela. E manter as finanças da casa. E lidar com a sombra da herança que as duas outrora tiveram. Quando Chiquita é obrigada a se afastar, oxalá!, Chella começa, aos poucos, a descobrir o mundo! A achar suas possibilidades. A reencontrar a sua própria voz. Seus desejos.
Claro que isso não quer dizer que, uma pessoa com depressão patológica seria capaz de tanto em tão pouco tempo. Mas o filme não afirma que Chella possua tal doença. Nem que as duas são um casal, inclusive (isso no máximo é insinuado). O filme nos mostra o que precisamos saber, mas em dados momentos é muito subjetivo. O que também é poético.

FINALIZANDO
As Herdeiras é um filme que mostra o cotidiano, para falar sobre liberdade com relação ao outro. É sensível para públicos sensíveis. Eu SEI que não vai agradar muita gente, mas recomendo que assistam.
Abraços a todos, até o próximo texto!
