Jovens, fiquem atentos a seus emails. Eu quase perdia essa pérola incrível! A cabine hoje foi O Banquete (2018).
SINOPSE
Nesse filme quase Shakespeariano, acompanhamos o desenrolar do banquete pensado por Nora (Drica Moraes), para comemorar os dez anos de casamento entre Mauro (Rodrigo Bolzan) e Bia (Mariana Lima), pouco depois de ele ter escrito uma carta aberta que pode levá-lo para a cadeia.
COMENTÁRIOS
A expectativa do público brasileiro a filmes nacionais sempre sofre altos e baixos. Ou melhor, baixos e profundamente baixos. Temos grandes filmes e sabemos disso, como O Auto da Compadecida, Tropa de Elite e Cidade de Deus, mas o selo “filme brasileiro” costuma causar narizes torcidos. Não sei vocês, mas eu imagino que estamos às vésperas de um grande amadurecimento do nosso cinema, com coisas grandes surgindo, em maior quantidade, e no circuito popular.
Como filmes com robôs gigantes guerreando não conseguem me deixar tão tenso quanto um filme como O Banquete, onde basicamente só existe um cenário e 9 personagens? Relendo a sinopse depois de ter visto o filme, vi que ele é descrito como filme de suspense. E é engraçado, porque a primeira reação é dizer “claro que não, tá maluco…?”. Mas depois… É EXATAMENTE o gẽnero desse filme. É muito interessante ver a hipocrisia latente dos personagens, hora completamente ocultos em suas mentiras sociais, hora completamente desnudos perante os outros. É quase palpável o ódio em cena, como se todos se movessem dentro de um grande mar de lama.

TENSÃO
Essa tensão vem de vários elementos.
Primeiro os atores, que são incríveis. Drica Moraes dá um show, ela é absurda. Caco Ciocler talvez precise beber mais, mas é o melhor homem em cena. O que são as atuações dentro da atuação de Mariana Lima? Até o novato Chay Suede¹ está incrível. A globo desperdiça muito potencial em suas produções televisivas.
O texto é primoroso. A roteirista é, também, a diretora do longa, Daniela Thomas, e é muito claro o cuidado que ela dá ao escrever os diálogos. É raro ver discussões tão vivas e consistentes com a realidade no cinema.
Aproveitando o gancho, a direção. Chuto ser inspirada em filmes europeus, com seus closes muito focados em rostos e em ações básicas, como gestos. Ao mesmo tempo dá uma sensação claustrofóbica de não ter referência do resto do ambiente, e te deixa completamente focado no que está em cena.
A trilha. Que quase não existe. Mas, o jazz que sobe a cada convidado que chega te faz querer gritar “é agora que alguém morre!” a todo momento!
E por fim, a confusão. Muitas coisas não são explicadas. Outras, só subentendidas. Alguns personagens prometem uma relevância maior do que entregam. Saindo da cabine, percebi muita gente reclamando disso. Mas uma frase que um amigo me disse certa feita (não sei se original dele) é “a diferença entre ficção e realidade é que a ficção precisa fazer sentido”. Deixar a trama confusa, para mim, nesse caso, é uma tentativa de aproximar a obra de uma narrativa o mais realista possível. Então, para mim foi um mérito, não um problema.

CONCLUSÃO
Não quero me estender muito falando do filme, porque quero que vocês vão assistir, e não quero estragar vossas experiências. Avisos de antemão: Filme lento. Pouquíssima ação. Que exige muita atenção aos diálogos. E acrescento uma pequena crítica: por ser a proposta da película tratar de personagens de alta sociedade, em vários momentos o vocabulário usado é pouco popular. Não duvido nada que possam ter dificuldades em entender o filme. Por favor, não se acanhe. Assista, e anote² o que não pegar. No mais, recomendadíssimo.

CURIOSIDADES
O Banquete (ou O Simpósio) é uma obra de Platão, onde os convidados são estimulados a dissertar… sobre o Amor! Como Nora faz muito na primeira metade do filme. Me pergunto o quanto disso é coincidência. Não sou grande leitor de filósofos, e descobri isso pesquisando para este texto. Ele está em domínio público (óbvio) e parte dele pode ser encontrada aqui.
O Banquete seria exibido no festival de Gramado, mas foi retirado da apresentação após a morte do jornalista que inspira um dos motes do filme: Otávio Frias Filho (1957 – 2018) enviou, no começo da década de 1990, uma carta aberta dirigida a Fernando Collor, nosso presidente na época. Em respeito aos familiares, a diretora preferiu removê-lo do festival / competição.
Falando em Daniela Thomas, outro filme seu já gerou polêmica no passado: Vazante foi acusado pela audiência de não representar bem os negros em uma narrativa sobre escravidão. Muito foi debatido a respeito na época. Vale a pena fazer essa lição de casa, e procurar esse filme para ver depois.
Por fim, a última curiosidade é que Daniela é filha do quadrinista Ziraldo
¹ Novato pra mim, que não vejo novelas.
² Mas não use o celular durante o filme.
