O Paciente – Errar tentando acertar

O Paciente – Errar tentando acertar

Quando se lê uma peça histórica, é fácil conseguir se descolar emocionalmente e pessoalmente do acontecido. Quando é algo recente, que ainda reverbera em sua/nossa vida cotidiana, isso é mais problemático. Ainda mais quando envolve ideologias. Prejulgar, e querer tomar um lado, na nossa história política recente é quase automático. Isso atrapalha na hora da leitura (no caso de filmes, na hora de assistir). Preconceitos podem te impedir de acompanhar uma narrativa. Ou de escrever essa narrativa. O filme hoje é O Paciente – O Caso Tancredo Neves.

SINOPSE

Nesse filme acompanhamos a luta final do ex-presidente Tancredo Neves, que morre sem conseguir tomar posse.

 

IDEOLOGIAS

O Brasil, como qualquer outro país, é vivo, e tem uma história a ser respeitada. E sempre revisitada. Como estudante mediano que sempre fui, adorava história, da antiga até a revolução industrial. A partir daí já achava meio chata. Do Brasil então, pior ainda. Não tem como achar chato uma coisa dessas, faz parte da nossa vida. Mas o Eu jovem sempre mereceu um tapa na cara, esse é só mais um motivo.

Perceber que o Aécio Neves era um personagem do filme foi foda. Que Sarney era o vice também. Que Tancredo era popular e esperança nacional, mas por outro lado só estava sendo aceito porque os militares o toleravam, também.

Mas a gente tem que entender que, mesmo sendo sempre pessoas políticas, somos antes de tudo pessoas. E mais do que mostrar a morte iminente do indiretamente eleito presidente nacional, O Paciente mostra também a saga de uma família perdendo seu patriarca.

Tancredo (Othon Bastos) ainda saudável, ensaiando seu discurso presidencial. Está de terno e gravata, papel com o texto em mãos, óculos, e dedo dianteiro em riste
Antes do crepúsculo

ERRAMOS, POIS HUMANOS¹

Além de falar sobre a perda, o filme é sobre erros. Mas não deliberados. Erros com profunda vontade de fazer o melhor, de acertar. O que não faz com que eles deixem de ter acontecido.

Diversos equívocos são feitos, ao longo de toda a narrativa. Pela família, pelos médicos, até pelo próprio paciente. Situações que para nós, hoje em dia, são fáceis de apontar como equívocos. Mas esse é um olhar anacrônico sobre a história. Naquele momento, para aquelas situações, Tancredo evitou de ir ao médico, a família hesita em interná-lo, o procedimento cirúrgico escolhido é equivocado, mas sempre pensando no melhor tanto para o presidente, como para o país.

Inclusive, o filme acerta muito em mostrar como que em alguns casos, a saúde pessoal é, também, de domínio público. Nas mãos daquele homem estava o futuro do nosso país, e aquelas mãos nunca puderam comandá-lo. Uma poesia triste.

Antonio Britto (Emilio Dantas), sentado na poltrona de um avião, lendo jornal. Ao seu lado (fundo da imagem), Tancredo Augusto (Mario Hermeto) observa o periódico, de longe
Pra que se preocupar antecipadamente…?

TECNICIDADES

O filme tem um enquadramento menos focado, fazendo contraste com O Banquete, cabine da semana passada. A paleta de cores é sempre puxada para o sépia, nos remetendo à fotografias antigas, o que rima muito com o que a narrativa tenta nos remeter. Não só isso, como em diversos momentos, nos são mostrados vídeos de reportagens da época, trazendo credibilidade ao narrado. Como se o diretor Sérgio Rezende nos dissesse “vejam, não estou inventando!”.

O roteiro e as atuações conversam muito bem, sendo muito bem amarrados e bem claros em sua narrativa. Talvez por se basear em fatos. Porém, e isso é puramente pessoal, alguns momentos de emoção mais profundas não me causavam empatia. Acho que meu jeito cínico de ver a vida e a política não me fizeram empatizar com o aparente sofrimento da população. Espero que funcione para vocês.

Aécio (Lucas Drummond - à esquerda) e Risoleta Neves (Esther Góes - à direita) apoiam Tancredo (Othon Bastos, no centro) para que este consiga andar.
Talvez… dê ruim…

POLÍTICA ATUAL

O filme é completamente partidário para o período político que mostra: direção (por Sérgio Rezende) e roteiro (por Gustavo Lipsztein) deixam muito claro que são contra militares e contra Sarney. Porém, são muito sábios em descolar aquele momento do nosso atual. Aécio Neves surge na película, mas isso é óbvio, uma vez que é neto de Tancredo. Suas inspirações políticas não são abordadas em momento algum, chegando a, em vários momentos, parecer mais um garoto bobo com a perda do avô², do que o líder político que viria a se tornar. O ex presidente Lula, ou a ex presidenta Dilma, não são citados ou mencionados. Afora alguns senadores que tiveram papel relevante na situação, e seu vice José Sarney, outras figuras políticas também ficam de fora. O filme mescla, como já disse, drama familiar e sua implicação para o rumo da nação, e se esforça ao máximo de não trazer polarizações políticas anacrônicas para a baila. Do meu ponto de vista, acertam muito.

A equipe médica circunda o casal presidencial em foto simbólica. À esquerda os Dr. Renault (Otavio Müller) e Dr. Pinheiro Rocha (Leonardo Medeiros). À direita, Dr. Gilberto Assis (Leonardo Franco), Pinotti (Paulo Betti) e ?? (nçao achamos nome do personagem nem do ator. Perdão). Ao centro, Tancredo e Risoleta Neves (Othon Bastos e Esther Goes)
“Vamo fazer pose, vai que cola”

CONCLUINDO

O Paciente – O Caso Tancredo Neves é uma romantização de um período histórico recente em nossa política (apesar de ter ocorrido menos de 5 anos antes de eu nascer). Como todo filme, não serve como documento. Porém, é uma ótima ilustração, tanto para os que estavam lá, como para quem só chegou no planeta há pouco. Posso imaginar esse filme sendo passado em escolas, por exemplo. Recomendo muito que vejam, e tomara que ele estimule uma pesquisa maior sobre a nossa história.

 

Abraço a todos, até logo!

 

¹Eu acho que eu criei essa frase. Achei ela uma bosta, estou envergonhado. Perdão.

²Piada suprimida

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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