Chacrinha – crônicas da televisão passada

Chacrinha – crônicas da televisão passada

É engraçada a relação que a gente tem com os meios de comunicação. Principalmente a televisão. Hoje em dia, quase não ligo a minha, só para conectar notebook e HD externo. Na infância, era o objeto mais importante da casa. A cabine dessa vez foi sobre uma das figuras mais importantes da tv aberta no período anterior a meu nascimento: Chacrinha – o velho guerreiro (2018).

SINOPSE

Nessa cine-biografia, vemos o jovem Abelardo Barbosa (Eduardo Sterblitch) aportar no Rio, com o sonho de trabalhar na rádio. Mal sabia ele que viria a ser liberado tornar Chacrinha (Stepan Nercessian), um dos maiores comunicadores do nosso país.

Chacrinha (Stepan Nercessian) em close, com sua tradicional pose de por o dedo na ponta do nariz
Stepan Nercessian

COMENTÁRIOS

Como já falei algumas vezes esse ano que o Brasil está com uma ótima safra de filmes, vou começar pelos elogios.

Pra começar, pela atuação dos dois atores protagonistas, Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian, que estão destruidores, os dois. Todos os parabéns. Stephan é conhecido ator da (geladeira) da globo, já fez diversas novelas. Eduardo, por outro lado, é conhecido pelo papel humorístico em programas como Pânico na TV, filmes de comédia, e até mesmo seus próprios espetáculos nos palcos. Aqui ele surpreende, mostrando ser não só um bom humorista, mas sim um bom ator, capaz de ativar os mais diversos sentimentos.

Abelardo Barbosa (Eduardo Sterblitch) no palco da rádio, numa das primeiras fantasias do palhaço Chacrinha
TERESIIIINHAAAAAA

EMOÇÕES

Diversos sentimentos porque, assim como na piada do palhaço depressivo, Chacrinha enfrentava problemas dentro e fora dos palcos. Dentro, com a falta de recursos, mandos e desmandos de produtores das emissoras ou das rádios, e possíveis erros de produção.

Fora, era um pai ausente, um marido insuficiente, com um terrível vício em cigarro (que lhe cobra o preço), e demasiadamente dedicado ao trabalho.

Luan Santana como calouro, cantando no palco, com Chacrinha (Stepan) pronto para toda a buzina, em pé ao seu lado
Ah é, o Luan Santana faz uma participação no filme

HONESTIDADE

Talvez, inclusive, esse seja um dos grandes méritos do filme: ele não é “chapa-branca”. Por mais que mostra coisas positivas e divertidas da história de Chacrinha e sua equipe, também conta as partes dramáticas. Mostra como ele era uma pessoa altruísta com alguns, mas totalmente relapso com outros. Mostra como fez amigos, e a mesma facilidade com que faz inimigos.

Crioulo (?) como calouro, no palco, enquanto o Chacrinha (Stepan) está ao seu lado, pronto para soar a buzina. Ao fundo, a plateia no palco, e acima deles, as chacretes
Cara, é o Crioulo, né?

EQUILÍBRIO E DETALHES

Também, é um filme muito equilibrado. Um problema inerente a esses filmes baseados em fatos reais que desejam revelar a vida de alguém, é ser incapaz, pelo próprio formato, de ser profundo e abrangente. Em Chacrinha – o Velho Guerreiro, sentimos o desejo da produção de conseguir abranger a maior parte de tópicos possíveis. E incrivelmente, são bem sucedidos. Não vemos todos os artistas que passaram pelos seus palcos, mas boa parte é representada. Nem toda chacrete tem papel importante, mas a Rita é muito citada. Fora que, se os momentos históricos não são definidos verbalmente, eles aparecem nos detalhes das cenas. Momentos em que militares surgem, que censores aparecem. Mudanças nas roupas, na moda, no equipamentos usados. A história que envolve a estória é passada com sutileza.

Elke Maravilha (Gianne Albertoni) mostrando a buzina dourada para a câmera
Elke!

CONCLUINDO

Me repetindo, este ano está sendo ótimo para o cinema nacional, e este filme é mais um exemplar. Não só isso. Se lembrarmos (como já dito) que até bem pouco tempo atrás, a televisão era um item fundamental numa residência; saber quem ditava tendências na época é uma boa forma de entender o passado. Esse filme nos dá uma oportunidade além, de conhecer o homem por trás da figura. Mais do que isso, nos mostra como o homem construiu um mito para si. Vale muito a pena. E, fica o conselho: se alguma pessoa querida assistia o programa na época e gostava, eu recomendo que você vá assistir com essa pessoa. Vai ser uma boa diversão.

Foto de bastidores. Stepan e Sterblich juntos no palco
Digam “Teresinha!”

MINI-CAST

Hoje tem mini-cast? Tem sim senhor! E dessa vez, com uma convidada super-especial: Minha mãe! Ela assistia o programa na época, e me ajuda a comentar o filme pós sessão. Você pode escutar clicando aqui.

P.S.:

E dessa vez não é o momento Pode Spoiler. É mais um aviso mesmo.

Só pra dizer o óbvio: sim, muita coisa que passava na tv, no próprio programa, a forma como ele representava as mulheres, a cultura negra (como o caso da mãe de santo que é tão abordado no filme) etc não cabem mais hoje em dia. Porém, essas coisas ACONTECERAM. Negar esses fatos seria pior do que decidir não mostrá-los nesse filme. E se tem uma coisa que esse período nos ensina, é que a gente tem que estar sempre muito atento à nossa história. Principalmente a do século passado.

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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