Olha, um filme falando sobre o que é importante “de verdade”, nesse período que eu tô, foi punk. A Mula (The Mule, 2018)

SINOPSE
Earl Stone (Clint Eastwood) é um bon vivant, curtindo as alegrias de ser um premiado criador de lírios e… péssimo pai de família. Ou melhor, era. Hoje em dia, praticamente falido, surge uma oportunidade de comprar o tempo de volta: virando mula (transportador) para o narcotráfico. O que o põe na mira do agente Colin Bates (Bradley Cooper)

DIREÇÃO
Clint Eastwood se tornou, depois de um grande ator de filmes de ação, um dos grandes diretores do cinema mundial, tendo Menina de Ouro, Gran Torino, Sniper Americano em seu currículo. Com isto em mente, não pude deixar de sair do cinema com a sensação de “este é, talvez, um filme fraco dele”. Porque, e me leiam bem, não estou dizendo que A Mula é ruim. Mas é uma peça que fala de um dos temas mais abordados no cinema¹, “o que realmente importa na vida” misturado com “a família é a coisa mais importante”. Não quer dizer que é ruim, já disse isso, apenas que não é surpreendente.
Talvez as surpresas venham nos diálogos, que são primorosos, mesmo os gratuitos. Por exemplo, eu (que nunca vejo trailers) não esperava gargalhar nesse filme. Como aconteceu mais de uma vez. A forma como o choque de cultura entre gerações, da pessoa idosa aprendendo a lidar com eletrônicos modernos, também, é fantástica.
Por fim, e para irritação do nosso antigo companheiro do site, o Vini: a fotografia também merece elogios. A Mula usa sempre tons de bege e amarelo, como se estivesse sempre num entardecer. Talvez uma metáfora ao protagonista e sua ex esposa, que já estão no crepúsculo de suas vidas.
Ou talvez não.

FAMILIA
Só lembrando um pouco, o plot de A Mula é um velhinho que se torna um transportador de cargas (uma mula) para o cartel. Esse é um plot inovador, mas que tenta esconder um tema muito simples e batido: a relação com a família.
Earl é o tipo de cara que você adoraria ser amigo. Sempre simpático com todos, disposto a ajudar, focado em seu trabalho com suas flores.
Porém, é também alguém que você detestaria que fosse seu parente próximo. A filha o odeia, pela constante ausência. A antiga esposa se divorciou. O genro nem lhe olha na face. Só quem segura as pontas para ainda ligá-lo à família é a neta.
O filme é bem claro, mas ainda faz questão de dizer: a coisa mais importante é a família. Não ache que é trabalho!

AÇÃO
Clint já é um senhor de seus mais de 80 anos, e claramente, não é mais capaz de protagonizar cenas de ação como outrora. E mesmo abordando um assunto que trás consigo muita violência, é na verdade um filme bem tranquilo e gostoso de assistir. As poucas cenas de ação não são protagonizadas pelo Earl e, quando está envolvido, nunca é um agente ativo. O tempo passou. E a única coisa que não dá pra comprar é tempo.

CONCLUINDO
A Mula pode não ser um de seus melhores filmes, mas Eastwood ainda se mostra um ótimo diretor e ator, entregando um filme divertido, fácil de absorver, e ainda assim que te faz pensar, e te acarinha. Fica a indicação, vale a pena conferir!

MOMENTO P.S. (PODE SPOILER):
Vocês sabiam que A Mula é baseado numa história real? Também não sabia. A inspiração vem da história de Leo Sharp, que protagoniza o artigo do The New York Times, There’s a True Story Behind ‘The Mule’: The Sinaloa Cartel’s 90-Year-Old Drug Mule. Isso é bacana, mas não é sobre o que eu vim falar.
Duas cenas em particular, que são na verdade bem curtas, me chamaram atenção. Durante as corridas que o Earl faz no filme, ele encontra algumas pessoas, se desvia da rota para ajudar alguém, ou comer alguma coisa etc. Em um momento, ele encontra uma família de pessoas negras (pai, mãe, filho) com dificuldades de trocar o pneu do carro. Prestativo, ele vai ajudar, e fala “adoro ajudar vocês negros [niggers]”. O casal se olha, e fala “nós preferimos ser chamados de ‘pretos’. Ou de ‘gente’. Sabe, somos pretos, você é branco”. O Earl se surpreende, mas não se abala. Sorri, e continua ajudando. Noutra, parando num posto, ele vê pessoas com uma motocicleta quebrada. Ele comenta “ei rapaz, isso é problema na injeção”. Os rapazes, na verdade mulheres (fora dos padrões estéticos) se levantam e falam “que rapazes, vovô? Nós somos sapatas. Sapatas sobre rodas” (dykes on bikes no original)”. Mais uma vez ele ri, e é simpático, ajudando mais que questionando.

Ao meu ver, essa é uma forma do próprio Clint responder a críticas das quais vem sendo alvo há anos: de que mesmo sendo um grande ator e diretor, na vida pessoal ele é um velho conservador e retrógrado (vou por referências no final do texto). É possível interpretar como uma ironiza às discussões modernas? Certamente. Mas, ao meu ver, é uma forma de ele, Eastwood, dizer para o mundo: “eu sou um velho, que não está acostumado à essas coisas. Mas tudo bem, eu posso aprender a conviver. Não tem problema”. E complemento: “é mais difícil aprender a mexer em celulares, e na internet”.
Não estou querendo passar pano para ele. Pelo contrário. Até porque, como diz um amigo, “eu não sou babá de adulto”. Mas não consegui deixar de notar nessas cenas pequenas, na verdade uma forma de se expressar sobre todas as polêmicas que se envolveu por ser descuidado com as palavras. E de os debates estarem cada vez mais maduros. Posso estar completamente errado, mas me pareceu que ele estava piscando para a tela e dizendo “estou aprendendo”.
Quero acreditar.

Referências:
Reaccionário, racista ou génio idiota?
A infeliz piada de Clint Eastwood sobre Caitlyn Jenner
Clint Eastwood critica a cultura do politicamente incorreto: -Perdemos nosso senso de humor
¹(fonte: minha cabeça)