Olá meus amores, contrariando as expectativas, hoje eu tô aqui para falar sobre algo que não é anime! Nesse texto, eu pretendo (palavra chave), fazer uma análise modesta sobre três obras, dois filmes e uma série, que abordam amizade feminina, sem competições e sem pedir nada em troca. Vamo comigo?

The Bold Type
Em 2017 estreou um seriado chamado The Bold Type, e logo pelo trailer inicial fiquei empolgada. Um seriado que se dedicava a contar a história de três mulheres jovens, completamente diferentes e complexas, porém extremamente amigas? Pfff, onde eu me subscrevo imediatamente? A título de contexto, a série conta a história da Kat, Jane e Sutton, que são amigas há mais ou menos 4 anos, e trabalham juntas numa revista, cada uma em um setor diferente.

Jane é sua típica Mary Sue, branca, heterosexual, especulando porque seu último relacionamento acabou, enquanto persegue o seu sonho de ser uma escritora de sucesso na revista que ela lia desde criança. Kat é negra, bissexual em processo de descobrimento, e cuida da parte de Social Media da revista, comandando o twitter. Ela possui um forte senso de justiça, o que não significa que ela não mete os pés pelas mãos às vezes. E por fim porém não menos importante, Sutton, uma secretária extremamente competente que sonha em trabalhar com moda, porém nunca perseguiu esta possibilidade, e está envolvida com um dos acionistas da companhia que trabalha.

The Bold Type se destacou para mim pela amizade e companheirismo extremo dessas mulheres. Não importa a situação, elas estão sempre juntas, agindo como um confiável sistemas de suporte, retratando uma amizade saudável, estável, com cobranças mínimas e acima de tudo sem competição feminina. Você pode pensar, mas ‘ai Bells, isso você pode achar em qualquer lugar’, mas o problema meu pequeno gafanhoto, é que: você não pode não. Quantos filmes e seriados você pode enumerar neste momento, neste exato molde? Vai lá, eu te dou 30 segundos para pensar. Pensou? Eai? Demorou para que eu fizesse esta constatação.
E porque uma amizade sem competição é tão importante?

Rivalidade feminina e comportamento tóxico dançando jingle bell rock
No momento possuo 50 séries atrasadas (Sem tempo irmão!) no site que utilizo para acompanhá-las. Meu palato vai das histórias adolescentes consideradas ruins como Teen Wolf e Pretty Little Liars, a sucessos aclamados como Black Mirror e The Handmaid’s Tale. Isso significa que por consumir conteúdo diverso, eu acabo por ter acesso a uma grande parte do conteúdo produzido se tratando de seriados. E mesmo para mim, mulher negra e feminista, que sempre procuro consumir conteúdo diverso e que contenha representatividade, um seriado focado na vida e dia a dia das mulheres, e mais do que isso, na construção de um sistema de suporte entre amigas, sem nenhum tipo de competição, foi uma inovação e não a norma.

Chernobyl em uma foto, também conhecidas como Serena e Blair
Confronto, conflito, dissenso é a norma. Seja por homens ou mulheres, por uma vaga de emprego, ou melhor posição no emprego, a competição feminina é estimulada em todas as formas de arte audiovisual. Por mais que tenha aquela dupla de amigas tipo a Meredith Grey e a Christina Yang, existe um tipo de competição no ambiente em que elas estão envolvidas. E olha que Grey e Yang é o maior Brotp das séries entre mulheres na minha opinião. ‘Mas sem dúvida The Bold Type não inventou a roda’, claro que não, de cara eu posso destacar a amizade da Rosa Diaz e da Amy Santiago em Brooklyn Nine Nine como um amizade saudável e sem competição, mas elas nem de longe são melhores amigas que dividem tudo.

Não me leve a mal, conflito é a base da vida. Não existe aprendizado sem dissenso, sem questionamento, do mesmo jeito que não existe felicidade sem tristeza. Mas só quem tem aquela amiga, que você pode ligar às três da manhã, e saber que ainda que ela não possa entrar num uber pra te encontrar, vai te ouvir desabafar e estar presente, sabe a importância de um bom sistema de suporte. Não que toda amizade precise funcionar assim, ou ser dessa ou daquela forma para ser perfeita aos meus olhos, porém eu acredito que na vida o que segura são os amigos de verdade.

Acredito que o famoso Amor Ágape é aquilo que sustenta o ser humano. Não que amizades não possam ser passageiras tal como os amores sexuais, mas a afetividade humana que não pede nada em troca que não seja o companheirismo, guarda em sua pureza o segredo para o equilíbrio. Sabe aquela frase do Vinícius de Moraes que diz que perder os amores massa, mas que ele enlouqueceria sem os amigos? Eu sou assim, e acredito que muitos de nós sejamos.

Someone Great

Mês passado, uma amiga me indicou Someone Great, uma comédia romântica do Netflix, que estreou este ano, estrelada pela maravilhosa Gina Rodriguez (Jane Gloriana Villuaneva), pela sensacional DeWanda Wise de She’s gotta have it (Spike Lee e aqueles olhos são imbatíveis) e a afinadíssima Brittany Snow de Pitch Perfect. O filme conta como Jenny, personagem da Gina, vai superar o fim de um relacionamento de 9 anos. Spoiler Alert: com ajuda do sistema de suporte dela, as melhores amigas, é claro.

Apesar de me considerar o típico público dos filmes de mulherzinha, não assisto muitos filmes nos quais o fim de um relacionamento é retratado. Antes deste, o último que assisti foi Felicidade Por um Fio, outro bom filme sobre descoberta e harmonização consigo mesmo, também do Netflix (me patrocina!). Por esta razão, assistir uma comédia romântica (SPOILER ALERT) na qual a moça não fica com o rapaz no final (SPOILER ALERT) e que ainda sim consegue mostrar que o amor romântico é bonito, e tem seu valor ainda que termine, foi uma grata surpresa. Todavia, o que realmente se sobressaiu no filme para mim, foi a amizade entre a Jenny, a Blair e a Erin.

Três mulheres complexas e completamente diferentes, em estágios diferentes da vida, apesar de idades semelhantes, com etnias, sexualidades e interesses diversos que fluem de forma magistral juntas. A amizade entre elas é o que faz o filme ser uma experiência bonita para mim. Não que o Lakeith Stanfield não seja um Deus maravilhoso e que eu não esteja atenta aos seus trabalhos futuros, mas a história da Jenny com o Nate, apesar de bonita e cheia de altos e baixos, já foi contada por inúmeros casais heterosexuais anteriormente. Contudo uma ressalva precisa ser feita, parabenizo a Netflix por mais uma vez apresentar conteúdo com histórias, e mais importante, pessoas com que você possa se relacionar. Mais do que na hora de ver um cast diverso sem remorso de ser diverso nos filmes.

Após terminar Someone Great, ou Alguém Especial no Br, eu me peguei pensando no quão raro é ver mulheres com multitudes. Não só a protagonista bonita e doce, ou a mulher forte e independente, ou a menina que se esconde atrás dos óculos e escreve poesia. Não, nenhuma mulher é uma coisa só, nenhuma mulher é apenas algo. Somos todas modelos tridimensionais de extrema multiplicidade, pluralidades, e as mulheres em Someone Great e The Bold Type possuem isso. Dias depois conversando com uma amiga, contei para ela sobre a ideia de escrever este texto e ela me indicou Como Superar um Fora, e assim fechamos a trilogia.
Como Superar um Fora
Como o nome sugere, Como superar um fora é outra história na qual a mocinha não fica junto com seu boy no final do filme. Do ano de 2018, e também da Netflix, porém peruano (Esse sangue latinooooooooo), o filme conta a história de Maria Fé, que acaba de terminar um relacionamento de seis anos, e que não tem ideia do que fazer no pós término. É elementar minha cara Sherlock, que suas amigas Nathalia e Carol tem um papel inestimável na recuperação e reencontro da Maria Fé consigo mesma. Tentando de xadrez a pole dance, Maria Fé escorrega pelo caminho tortuoso que é ser uma adulta funcional enquanto você possui um coração com buraquinhos.

Apesar de diferir um pouco das duas primeira obras, pois em Como Superar um Fora a Carol é adicionada ao grupo de amigas um pouco depois, ainda sim existe um tempo de construção dessa amizade. Dos momentos pitorescos que elas dividem, da troca de segredos, de críticas construtivas e palavras carinhosas de suporte, mas também do choque de realidade quando ele se faz necessário. Tudo isso feito de forma saudável e sem competição entre elas. Não que não exista um conflito interno ou competição feminina de forma alguma na obra, até porque isso não seria uma descrição crível de nenhuma sociedade capitalista contemporânea. Entretanto, entre elas, no grupo de amigas isso non ecziste.

Apesar de possuir um destaque um pouco menor para a vida pessoal das outras personagens, Como superar um fora cumpre bem seu papel, é uma comédia engraçada e harmoniosa sobre uma mulher que precisa seguir em frente quando o seu tapete é puxado. E que neste momento recorre ao seu sistema de suporte mais fiel, a amizade. Amigas diferentes, em etapas diferentes de suas vidas, com questões pessoais que também precisam ser trabalhadas, qualidades e defeitos, mas que sabem guardar sua alegria ou tristeza no momento de necessidade de uma amiga.

Destaque para a cena maravilhosa da Natalia devolvendo a “carteirinha de feminista” por ter rivalidade com outra mulher, e da participação do Christopher Von Uckermann, que você pode conhecer também como Diego Bustamante de Rebelde, fazendo o único homem hetero legal do filme.
Similitudes, dissimilitudes e ponto final.
Apesar de serem de anos diferentes, todas as três obras possuem incontáveis similaridades que eu não posso deixar de destacar aqui, e que me incentivaram a escrever este texto em primeiro lugar. Vou traçar um paralelo rápido para explicitar isso:

Tanto a Jenny, Jane, e Maria Fé são escritoras, ainda que a primeira escreva para o setor musical, a segunda para moda, e a terceira para um blog. Elas são competentes, talentosas e em sua medida sonhadoras. Tanto a Kat, quanto a Erin e a Carol são personagens LGBTQ’s, e as duas primeiras são negras, sendo duas delas bisexuais e a outra lésbica. Além das sexualidades, todas as três personagens são as mais livres, energéticas e inquietas. Já a Sutton, a Blair e a Nathalia seriam as águas calmas nestes arquipélagos. Os pilares estáveis, responsáveis, e aparentemente mais conformadas com o padrão que a sociedade espera de uma profissional. Ainda que elas possuam em suas histórias individuais seu próprio tempero.

No entanto, existem também diferenças entre as obras. Enquanto The Bold Type e Someone Great mostram histórias que se passam nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova York, Como Superar um Fora é peruano, e foi prazeroso ver pela primeira vez pedaços de Lima durante o filme. Existe uma visão “cosmopolita” sobre Nova York, que é passada nas duas primeiras obras citadas, no entanto enquanto The Bold Type é tímido em mostrar que existe uma heterogeneidade na cidade, Someone Great mostra isso muito bem, não só por meio do cast diverso, mas também pela Jenny ser absolutamente Latina com L maiúsculo. Por se passar no Peru, Como Superar um Fora pode nos passar um maior pertencimento, todavia eu senti falta de uma representatividade maior no filme.

Enfim, são três obras que merecem ser assistidas com carinho, por retratarem relacionamentos saudáveis e estáveis, os quais nossa sociedade que adoece mais a cada dia carece, ou pela representatividade refrescante presente em cada uma delas. Merece ser assistida pela manutenção da produção de conteúdo de qualidade criadas, produzidas e dirigidas por mulheres em sua maioria. Desejamos que os mercados abram alas para que nossas histórias sejam contadas mais e mais, para isto é necessário que este tipo de conteúdo seja indicado e exposto.
Como sempre, se você der uma chance e assistir, me manda um comentário aqui embaixo me contando o que achou. Um cheiro e até a próxima!