Vamos falar de mitologia não padrão? Mas que tá tão inserido na cultura pop que ninguém conhece a origem? Eba, vamos sim! Vamos falar de A Lenda de Golem (The Golem, 2018 (Reino Unido), 2019 (Brasil))

SINOPSE
Lituânia, século 17. Um vila judaica (ou seria judia?), isolada, se vê invadida por cristãos violentos, que estão frustrados pelo fato de eles estarem sendo atingidos pela Peste, e os judeus não. Com medo, Hanna (Hani Furstenberg) busca ajuda nos conhecimentos antigos (e proibidos) da Torá e Cabala, para conjurar o mítico Golem.

GOLEM
Quando eu era adolescente, eu perdia boa parte do meu tempo pesquisando sobre mitologias na internet. Nunca foram pesquisas aprofundadas, mas deu pra descobrir muita coisa legal. O Golem é uma figura já bastante conhecida de quem acompanha histórias de fantasia capa/espada, em qualquer mídia (filmes, quadrinhos, RPGs de mesa, jogos…). Qual o lance: o Golem é um ser da mitologia judaica. É uma figura de barro animada por algum estudioso/mago/religioso. Porém, existe um problema: apenas a Deus cabe dar a vida. Um Golem seria, então, uma tentativa da soberba humana de tentar se tornar um Criador. E isso dificilmente era visto com bons olhos (dependendo de onde vc olha, nem Yahweh acha isso muito maneiro). Além de, é claro, por melhor que seja o golem, jamais será a altura d’A Criação.

HANNA, E REPRESENTATIVIDADE
A Lenda de Golem parte dessa premissa. E a personagem que encara a criação de um Golem torna tudo mais interessante. Hanna é uma mulher que claramente é fora dos padrões. Se interessa mais em estudar os Mistérios, do que em fazer as tarefas que lhe “cabem”, como cuidar da casa ou preparar refeições. Também, parece incapaz de dar herdeiros ao seu marido (Benjamin, Ishai Golan), o que gera frustrações e falatórios em toda a vila. Por fim: Ela tem voz. Hanna dificilmente se cala perante os problemas que encontra.
Por outro lado, também se percebe nela uma faceta vaidosa, e outra amedrontada: quando o perigo surge, ela não tarda em se colocar contra, e em estudar como conjurar o Monstro. Por outro lado, tem seus segredos e suas inseguranças, que são fundamentais para a personagem.
Nós, daqui do Brasil, temos uma visão muito retrógrada do oriente médio, israel, e suas conjunturas sociais. Eu fui pesquisar sobre mulheres em israel e… primeiro, o Google fez questão de me mostrar como tem moças muito bonitas no exército israelense. Enfim.

MULHERES EM ISRAEL
É interessante ver essa representação feminina, pois o povo e a política israelense “sofrem” bastante com os ultraortodoxos, que tentam impor suas regras (muitas vezes sem fundamento) a torto e direito. Uma das lutas feministas da região é o direito de mulheres… rezar em voz alta. Como brasileiro (e ateu), é muito difícil achar isso uma causa relevante. Mas a verdade é que, para elas, é uma reivindicação de suma importância. Pois fé também é parte da construção de um povo, que elas fazem parte. Mulheres, também, são proibidas de prestar diversos serviços civis, como dirigir ônibus, por exemplo. Inclusive, mesmo o valorizado fetiche das mulheres no exército esconde o fato de que elas só são destacadas no exército e na agricultura, e que na verdade, mulheres árabes em geral não tem o mesmo destaque.
Para que tudo isso? Para mostrar que é muito interessante que uma personagem como Hanna venha justamente de uma produção Israelense. Israel se vê ocidental (assim como nós, brasileiros, nos vemos). Um oásis de democracia num deserto de barbárie. Mas a pauta feminista ainda tem muito a avançar. Hanna ainda é uma personagem cheia de problemas. As demonstrações de ciúmes, por exemplo, ou se sentir realizada quando “adota” uma criança (ou seja, quando “se torna” mãe). Mas ainda é progressista em DIVERSOS pontos, e isso deve ser valorizado.

PRODUÇÃO
Não consegui encontrar muita coisa (Que eu consiga ler, risos) sobre os diretores Doron Paz e Yoav Paz (os Paz Brothers), mas nota-se que tão tendo uma produção interessante em terras israelenses. A Lenda de Golem é uma produção do ano passado, e se você olhar no twitter de Doron (bastante desatualizado), ele parece particularmente animado com o lançamento de Jeruzalem. Ou seja, é uma galera focada na produção de filmes de horror. Visualmente, a produção d A Lenda de Golem é barata, e algumas decisões de captura parecem até amadoras. Mas mostram um potencial e criatividade muito grande da equipe de produção, que entregam em tela um material muito bom. Pode-se dizer que é um ótimo “Filme B”, e eu concordo. Inclusive usando o termo como elogio, não como demérito.

ROTEIRO
O roteiro, por outro lado, por mais que nos traga um novo ponto de vista, em pouco tempo volta para os clichês que já estamos acostumados. Como sempre digo, clichê não é necessariamente ruim. Mas é comum que as surpresas que o filme tenta passar, na verdade não te surpreendam tanto. Talvez, na verdade, a maior surpresa seja o fato de o Golem (Konstantin Anikienko) ser um menino tão bonitinho. Se você curte filmes de terror, vai gostar desse. Senão, não vai se impressionar. Talvez, só com as cenas explícitas / gore, que são caprichadas.

CONCLUSÃO
A Lenda de Golem é um horror mediano, de forma positiva, que não surpreende necessariamente pelo enredo, mas sim pela sua origem e suas fontes de referência. Longa vida ao cinema internacional (e torcendo para os diretores e produtores não serem sionistas).
Abraços, até a próxima!
