Alguns filmes são tão simples que você termina o texto numa fila. Outros tem tanto a ser dito que precisa de dias de digestão mental. Vamos falar da cine biografia de Simonal (2019).
SINOPSE
Mais uma cinebiografia de músico sendo lançada esse ano, dessa vez nacional: vemos a carreira estrondosa de Wilson Simonal. Do seu início simples mas com contatos importantes, até o sucesso estrondoso, e a queda vertiginosa.

Quem acompanha o site sabe que eu sempre tento debater o que um filme pode nos mostrar. E nesse tem tanto, tantos debates atuais… Vamos começar pelo fácil então.
Importante: Biografias são baseadas em histórias do mundo real. Então coisas que podem ser consideradas spoilers são, na verdade, de conhecimento comum.

DIREÇÃO
Simonal começa com um plano sequência de tirar o chapéu, logo após os créditos iniciais. Quando se vê algo assim nas telas, você só consegue esperar coisas boas na sequência. Dito e feito, Simonal promete, e CUMPRE. Pablo Baião assina a direção de fotografia, Yurika Yamasaki a direção de arte, e Vicente Kubrusly a direção de edição. Além, claro, de Leonardo Domingues na direção. E fazem uma produção invejável.
A reprodução do Rio de Janeiro setentista, com seus figurinos, carros, objetos simples como telefones, microfones… se existem falhas, você vai ter dificuldade de achar.

MÚSICA
Simonal era cantor, e dos bons! E, é claro, o filme está cheio de músicas dele, de composição própria ou não. Vale a pena ouvir Simonal (Trilha Sonora Do Filme). Só coisa fina!
Não só, o filme mostra muitos cantores e compositores que faziam sucesso na época, ou que viriam a estourar nos anos seguintes. Se você é muito novo e não reconhecer as figuras em tela, vale a pena pesquisar.
E foi produzido um novo videoclipe para Tributo a Martin Luther King. Assistam logo abaixo!
ATUAÇÃO
Nem sempre dou destaque aos atores nos meus textos, porque nem sempre convém. Mas não fazê-lo nesse caso seria um crime. Começando pelo próprio Wilson Simonal, encarnado pelo incrível Fabrício Boliveira. Ele está tão bem no papel, que fiquei em dúvida se as músicas eram executadas por ele. Infelizmente não, mas o trabalho que ele fez, de aprender canto para poder interpretar corretamente, ficou maravilhoso. Assistindo, você realmente fica em dúvida se é o ator emprestando a voz. O rei da pilantragem está de volta, em tela!
Mais dois destaques vão para Isis Valverde, e Leandro Hassum (Não faça essa cara). Isis faz Tereza, ex-companheira de Imperial, que se torna esposa e mãe dos filhos de Simonal. Ela tem a árdua tarefa de ser a mocinha que rouba o coração do mocinho, passando para a esposa amorosa, a esposa decepcionada, a mãe dos filhos, a mulher traída que tem que manter a relação em pé, o alicerce emocional… muitas funções (como nossa sociedade exige, há milênios, das mulheres). Valverde entrega todas elas com maestria. Merece toda nossa reverência e aplausos.
Por fim, uma participação especial, Leandro Hassum. Lembra quando falamos do potencial dele para drama? Pois, quem ainda tinha dúvidas disso, perderá nesse filme. Hassum encarna Carlos Imperial, produtor musical lendário da cena popular carioca (e, por consequência, nacional). Leandro tem a missão de retratar um produtor impulsivo, agressivo nos negócios, orgulhoso. Está tudo na tela.
Tem muito mais gente que vale a pena ver, como Silvio Guindane, Caco Ciocler, Mariana Lima, Fabricio Santiago… Mas cada um a seu tempo.

HISTÓRIA
O filme começa com a frase (lembrar de cabeça depois de alguns dias vai ser fogo, me perdoem) “uma história de música no período da ditadura”. E… não tem como. A história de Simonal é a história da cultura pop no período militar, e é também uma história sobre racismo. Vai ser difícil não falar sobre isso nas próximas linhas e, na verdade, eu não quero deixar de falar. Por isso, inclusive, o Momento P.S. desse texto vai ser bem grande (Se eu não dormir escrevendo).
O que é importante saber, é que Simonal conta um fragmento desse período que foi um dos mais nocivos e lamentáveis da nossa história. Um pedacinho cheio de significado. Se você não conhece a história dele, o filme vai te apresentar bem. Inclusive, e isso é importante, cine biografias costumam ter um problema SÉRIO com tempo. Muita coisa precisa ser compactada, muito fica de fora, e diversas vezes, situações recorrentes tem que ser representadas simbolicamente como uma coisa só. Simonal acerta, muito, quando se depara com esses desafios.
Se você quer ver o filme como uma forma de aprender sobre a Ditadura, ele não é suficiente. Porque a história é grande demais. Mas da pra ter noção de como os agentes do estado agiam para manter “a ordem e os bons costumes”.

CONCLUINDO
Eu vou encerrando a parte sem spoilers por aqui. Daqui pra frente, vou fazer um debate que é importante que você já tenha visto o filme, ou conheça a história de Simonal. Então, evidente, o filme está recomendadíssimo, não deixem de conferir mais esse grande acerto da sétima arte brasileira. E por favor, vão nos cinemas assistir! Incentivar um trabalho como esse pagando a entrada é muito importante.
MINICAST
O minicast subiu no dia da cabine, mas se você ainda não ouviu, dá uma conferida abaixo. E assine nosso feed!
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MOMENTO P.S.: O NEGRO COMO FIGURA POPULAR
Simonal era preto. Negro retinto. Você não pode tirar isso da mente quando se lembra dele. Por que?
Primeiro, pela voz. O timbre negro, misturada com a “pilantragem” negra, o tornaram um músico único. Mas… existiram diversos artistas negros na história. Você já parou pra pensar porque ele teve destaque?
O talento é claro e inconfundível. Não podemos esquecer que ele era, sim, um intérprete muito bom. Mas se tem algo que pode tornar um preto bem aceito, é NÃO INCOMODAR. Um preto que, mesmo que não baixe a cabeça, isso não importa, mas que não questione as estruturas, não enfrente autoridades, em suma, que não sejam um ponto de incômodo, terão passe livre para a aceitação. Simonal, no geral, reproduzia o discurso liberal de “pra ter fon fon, trabalhei trabalhei” (o que não é mentira), e que sua música trazia “alegria, alegria” (o que também é fato).
Isso não significa que o indivíduo negro estará livre do racismo. Pelo contrário, esta é uma posição de aceitação, o que atende muito bem ao status quo. Mas racismo ignora condição social. Não a toa, ele é questionado o tempo todo (simbolizado pela entrevista a’O Pasquim) do por que a necessidade de demonstrar sua riqueza e sucesso. Ao que ele responde “Negão não pode ter carrão?”. Ele representava, nos palcos, “o homem simples” (palavras dele). Preto, favelado, que canta para se alegrar, e alegrar aos seus. Mas NÃO SE ESPERA, desse indivíduo, que ele saia do lugar de sofrimento. O sambista favelado é lindo, desde que se mantenha na favela. Pra que comprar um apartamento na zona sul, e comprar carrões? Que realidade é essa que você quer transmitir? Não importa se “trabalhei, trabalhei”. Homens simples sempre serão simples.

Mas de fato, isso não pode ser ignorado, a imagem que Simonal passava ao público não era a do homem médio que ele dizia representar. Nem em classe, nem em etnia. O discurso de “trabalhei, trabalhei” é ótimo para disfarçar coisas muito básicas: nem todos tem a capacidade de cantar como ele; nem todo trabalho é valorizado como o do artista popular, que deu a sorte de cair nas graças da comunidade artística dominante; poucos poderiam se dedicar à música como ele pode; nem todos conheciam um dos maiores produtores artísticos do período. Representar o povo de maneira correta lhe foi cobrado diversas vezes. Uma, já abordamos, pelo status quo racista. Outra, simbolizada pelo diálogo com Marcos Moran (Silvio Guindane), é feita pelos seus pares. “Você não é um dos nossos? Não parece”, podemos imaginar. Simonal, por escolha, deixava os problemas de lado. Isso lhe deu o lugar de destaque, mas silenciou (no mínimo, não deu voz) a diversos gritos.
Quando finalmente resolve fazê-lo, em seu Tributo A Martin Luther King, se torna um alvo. O governo, e seu braço assustador, o DOPS, representado por Caco Ciocler na figura de Santana*, põe Simonal na mira. E a partir daí, só foi necessário um deslize. A cena da entrega de cartão é muito simbólica: no verbo, ele diz “você acaba de ganhar um amigo”. No gesto, o cartão “cai” no chão, e Wilson tem que pegá-lo, aos pés do agente. Em pelo menos 3 vezes do filme, ele se orgulha de ser muito esperto. Triste perceber como ele foi bobo nesse momento, e não viu o que aconteceu. Eles NÃO ERAM amigos. Ele estava aos pés dos militares. E deu no que deu: num momento de desespero, acreditou ser uma boa ideia se usar dessa influência, e ela se volta contra ele. Uma traição do seu novo “amigo” o joga na cadeia.
Mas ele paga suas dívidas com a justiça, e a partir daí, dá tudo certo. Certo?

Não, claro que não. Sua reputação foi manchada, para sempre. Delator, amigo dos militares, traidor. Por aí vai. Isso é admirável no filme, os erros não são escondidos. Foi um marido problemático, que jamais defenderia nos dias de hoje. Era orgulhoso. Era gastão. Chamou o DOPS contra seu contador só por raiva. Essa honestidade é importante para que a gente veja o que não quiseram ver por décadas: ele não foi o traidor que a mídia lhe pintou por tantos anos, fazendo com que fosse exilado em seu próprio país, lhe sendo negada sua verdadeira vontade e ganha pão, que era cantar. No Minicast eu comento com minha mãe, é curioso como muitos sucessos dele eu ouvi na vida, pela voz de outros. E isso nos leva a refletir: tantos artistas foram muito mais longe que Simonal em suas críticas. Cometeram erros muito mais terríveis. Foram piores maridos, e piores pais. Inclusive foram menos sucedidos com as finanças. Pondo em perspectiva, é difícil entender o que o diferenciava dos outros. Elis Regina, no filme, dialoga justamente isso. Quando você põe a cor da pele no jogo, fica mais fácil: ele não estava no lugar natural dele. O que um preto quer com esse sucesso todo? Certeza que não dá pra confiar.
Ele que não devia ter confiado.
“Mas Ferna, por a cor disso tudo só na pele dele não é meio… exagerado?”. Não. pode ser incompleto, mas não é exagerado. Digo mais: não por a cor dele na análise é ser reducionista.
E tudo isso me trás ao ponto que eu quero: Vocês perceberam quanta cobrança foi posta nas costas do “Simona” só por ele ser quem é? Essa é, no final, a verdadeira maldição do povo negro: você sempre estará num lugar que não deveria. Tudo o que você fizer será questionado. você sempre estará errado. Porque o erro não é você. O erro é sua aparência, seus fenótipos. Numa sociedade racista, nascer preto é nascer errado. Digo mais, o que já disse noutro momento: não adianta a um membro de uma minoria ascender a um lugar de poder. Se as estruturas não forem modificadas, nada ira mudar (e muito provavelmente esse indivíduo será removido de lá). Adaptando Beauvoir, “Não se nasce preto, torna-se preto”.

Uma última reflexão sobre ele.
Se vivesse hoje, eu também teria problemas com Simonal. Em pleno governo militar, e ele cantando Meu Limão, Meu Limoeiro?? Vai a merda, a gente tem uma ditadura na nossa cabeça! Não é hora de limão, é hora de fazer a hora, não esperar acontecer! Porém…
A ideia que algumas pessoas (em geral, de elite) tem de que a ditadura foi um período áureo ignora muitas realidades. O milagre econômico não veio de graça, a educação piorou, a repressão policial aumentou. Nesse contexto, ter alguém que cante Mamãe Passou Açúcar Em Mim é, na verdade, muito importante. Ter esse lugar de alívio, de tranquilidade, de te permitir pensar que a vida não é tão miserável é muito bom. Essa não é uma reflexão minha, mas é preciso trazê-la aqui mesmo que sem referência: Quando sua vida é condenada ao dissabor, não tem resistência maior do que a “Alegria, Alegria”.
O texto ficou enorme, mas não vou me desculpar por isso. Obrigado por ler até aqui. Abraços!
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