
Decepção será minha palavra de ordem neste texto. Vou tentar elaborar isso ao longo desse texto, onde tentarei fazer justiça a este filme. Que apesar de se considerar uma comédia, só me causou tristeza e desconforto. Uso essas palavras lamentando ter que escrevê-las, já que não sinto nenhum prazer em oferecer uma opinião negativa sobre qualquer coisa, especialmente sobre o cinema nacional pelo qual tenho um apreço enorme. E acho de extrema importância que enquanto consumidores de cinema, sejamos capazes de pensar criticamente acerca de como o cinema foi também espaço de colonização cultural por países que tiveram sua produção alavancada por décadas. Isso no entanto não me torna um espectador menos rigoroso, e farei os apontamentos que acho justos na medida em que transmito as sensações que tive ao assistir. Digo tudo isso, para que o leitor possa ler meus comentários sem que pense que eu nutro algum tipo de insatisfação pela produção nacional, e já adianto que deve ser um texto amargo. Mas pra fazê-lo da maneira que acho correta, vou começar apontando o que eu acho que foi feito certo.
Momento Palestrinha: Cor, Luz, Fotografia
O primeiro plano do filme é um plano superior, onde ouvimos uma locução acusmática (um termo bonito pra exemplificar sons que não identificamos a fonte na cena exibida, do Michel Chion) que sabemos se tratar de um dos protagonistas do filme. Eu lembro de poucas cenas no cinema brasileiro que usam esse tipo de plano e gosto bastante da decisão. Vemos uns efeitos de nuvens, e claro, tudo nessa cena se comunica com o fato de que o filme irá falar sobre a transição terrena, a morte, e sobre a perspectiva do/a personagem que fez essa travessia. Destaco essa cena porque acho realmente bonito poder ver quadras de uma cidade que é claramente brasileira, e de subúrbio, com seus telhadinhos de eternit e suas ruas cheias de história. Pra mim a representação desses núcleos é sempre prazeroso de ver. Então as cenas que focam no salão, e na região onde Isadora (Aramis Trindade) possui um salão. No final da primeira cena em que vemos Isadora, ela está em seu salão, vemos uma sombra de sua dinâmica que estabelecerá seu personagem como forte, espiritualizada, uma pessoa de bom coração, corajosa e com uma boa relação com o que parece ser uma amiga íntima Vera (Germana Guilhermme). Numa falta de luz, após uma conversa sobre espíritos, Vera demonstra seu medo, ao passo que Isadora faz pouco caso da cena e a diz pra ser corajosa. O filme desse ponto em diante vai ladeira abaixo, então vamos falar sobre os personagens em geral.
Profundidade de um pires pra todo mundo!

Sabe aquela coisa de que histórias de humor não precisam ser levadas a sério? Bom, eu acho que não existe apenas uma verdade ou opinião correta sobre determinado assunto, mas eu acho essa afirmação uma bobagem. É claro que não é razoável ficar se prendendo a análise do quão razoável um determinado acontecimento é. Explico. É contra produtivo ficar discutindo se faz sentido um carro atravessar de um prédio a outro num filme, e não sofrer nenhum dano grave (nem matar seus passageiros). Quando assistimos um filme é importante que nos deixemos levar para uma zona de despretensão, onde a realidade dos filme é a que interessa. O filme não deve se dobrar a nossa realidade, mas apenas a coerência de seus próprios cenários. Mas isso não é simplesmente entregue gratuitamente, o filme tem que fazer essa construção através da apresentação de seus personagens e cenários. E se os personagens falham a nos convencer, então tudo perde o efeito e vira apenas uma história vazia que vemos uma sucessão de acontecimentos, previsíveis diga-se de passagem. “Como os personagens falham a nos convencer?” você caro(a) leitor(a) pergunta de maneira perspicaz, e é muito simples. Sabe quando você escreve uma história com um final definido e vai enchendo a história de funções que precisam ser cumpridas, e essas funções viram personagens? É assim que essa história parece ter sido escrita. Pegue o estereótipo batido, vago e sem graça de todas as funções que você precisa: O mulherengo, a mulher independente que não tem mais esperança em um relacionamento, mulheres bonitas desesperadas, a amiga que fica empurrando a mulher independente pra que busque o mulherengo, o amigo do mulherengo (também mulherengo) parceiro das bebidas e menos bonito que se acha engraçado, travestis e amigas que só estão lá pra cumprir cenas de comédia sem graça sobre seus nomes e trejeitos. Nada na história parece ter relevância, peso, construção, elevação. Mas eu me adiantei, então retornemos e façamos uma sinopse breve.
Sinopse da decepção

O filme irá contar a história de Isadora que morre num acidente e seu coração é doado a Sandro (André Bankoff). Isadora irá então influenciar Sandro enquanto espírito, a realizar comportamentos e trejeitos que seriam comuns a si enquanto travesti. Em uma das primeiras cenas em que os dois se encaram no espelho, Isadora diz que Sandro deverá ser merecedor de seu coração, esse muito maltratado. Com isso o que esperamos? Um arco de redenção em que o Sandro irá aprender sobre o erro de seus comportamentos machistas e um filme sobre a apreciação da cultura travesti. O que acontece? Um personagem que começa a apresentar comportamentos travestis de maneira injustificada, em que os outros personagens são levados a crer que é um comportamento meio bizarro, e que são tratados como cenas de humor. Numa cena por exemplo, o personagem, que diga-se de passagem parece ser uma espécie de diretor de agência de comunicação, experimenta um batom com grande prazer enquanto é discutida uma campanha (ou mais precisamente o que parece ser uma propaganda) recheada de conteúdo machista batido. E todos olham ele com estranheza, e ele se recobra e diz que a campanha é fraca, e que eles seriam incapazes de compreender os itens de maquiagem que estão vendendo. Pergunta o que é um delineador, nenhum dos personagens que estava apresentando sabe responder, e a mulher (QUE SABIA) é calada (POR ELE) na sequência em que responderia. Será que deu pra ilustrar? Desse ponto em diante não existe arco de redenção, simplesmente por mágica o personagem muda da água pro vinho depois de um chilique perto do final e tudo se resolve, com todos os personagens cumprindo os papéis esperados deles.
Já acabou Jéssica? Não. Tem mais.

Nos últimos dois tópicos, eu elaborei sobre o que mais me causou desprazer no filme inteiro: a má construção de personagens e a maneira como não constróem uma história interessante, além de falhas na abordagem dos temas que deveriam ser caros como a masculinidade tóxica, e cultura travesti/homossexual/etc. Mas o filme tem outro problema que é não saber o que quer ser. “Depois de tudo isso, você ainda me diz que o filme não sabe o que quer ser? Só pode ser brincadeira” o(a) inteligente leitor(a) indigna-se em bom tom, ao que eu explico. Sabe quando o filme diz que é uma comédia? Pois é, depois de assistir o filme eu achei que ele tentou muito mais ser um drama, com toques de humor. Várias revelações são feitas ao longo da história, na intenção de provocar um tom mais reflexivo. Tanto sobre a morte, como sobre doação de órgãos. Sobre construção familiar, segredos, etc. Parece que o filme pesou e tratou esses temas com muito mais importância do que sequer sobre graça e humor. O humor ficou reservado pra o ridículo que são os trejeitos homosexuais e travestis, ao que eu vi pouca graça. O curioso é que a produtora Estação Luz, parece ter justamente mais experiência com trabalhos de drama (Xico Xavier, Bezerra de Menezes, entre outros), e me parece que isso acabou influenciando o resultado final do que eles queriam que fosse um filme de comédia, mas acaba sendo pouco engraçado e também não se torna um bom drama já que não eleva o tom da história em momento algum, e é incapaz de fazer comover entre cenas que querem fazer rir.
Coração gelado
Enfim, encerro as considerações sobre o filme decepcionado e observando que acredito que é possível que pessoas achem o filme engraçado, mas espero que tenha justificado bem o motivo pelo qual eu, particularmente, não achei graça. Não acho graça em nomes de travestis. Não acho graça num homem passando batom numa reunião. Saí do cinema com meu coração mais pesado, já que esperava honestamente encontrar motivos pra motivar o leitor(a) a prestigiar o cinema nacional. Talvez eu precise de um transplante de coração.