Alvo Negro – Analisando Moo Moo

Alvo Negro – Analisando Moo Moo

Num período de tanta instabilidade social iniciada por questões raciais, vamos comentar hoje sobre um dos episódios mais importantes de Brooklyn Nine-Nine. O episódio 16, da 4ª temporada, Moo Moo. Onde temos o negro como alvo – mais uma vez.

SINOPSE

Depois de ter o brinquedo de suas filhas perdidas por Jake e Amy, Terry vai procurar por ele no seu bairro, e é parado por um policial – mesmo sem demonstrar qualquer tipo de ameaça.

ALGUNS AVISOS

Desde que vi esse episódio, há alguns anos atrás, tenho vontade de escrever sobre ele. Cavucando aqui nos arquivos, encontrei um primeiro rascunho dele de junho de 2018 (coincidência). Mas… eu não consegui. Mal comecei.  Sabia que precisaria fazer uma análise muito forte, e dissecar o episódio de maneira tal que na época não me sentia capaz. 

O contexto mudou. Tanto nesses dois anos eu amadureci, como a discussão racial teve algumas reviravoltas. Não só a eleição de presidentes racistas em vários países do mundo (inclusive o nosso, olha só), mas como a morte de diversas pessoas negras, de gêneros e idades distintas, tornam a realidade cada vez menos tolerável. Nos Estados Unidos, os casos Amy Cooper e George Floyd acontecem no mesmo dia, gerando protestos há mais de 10 dias, mesmo com a pandemia do novo CoronaVírus ainda ativa. As consequências sanitárias serão catastróficas.

Imagem em preto e branco. Cartaz escrito "VIDAS NEGRAS E PERIFÉRICAS IMPORTAM"
E pronto.

Tudo isso pra dizer QUE: esse texto vai ser grande. Não só vai ser grande, como vai ter spoilers. “Ter spoiler” não define, vou tentar explorar o episódio o máximo que puder. Então, espero que você já tenha assistido. Se não viu, tá em tempo. Os episódios são curtos, e tem na Netflix.

INTRODUÇÃO

(Quase) Todo episódio de Brooklyn Nine-Nine começa com uma piada. Dessa vez não foi diferente. Mas tem duas coisas a serem destacadas nessa cena, em que o Boyle percebe que se vestiu igual ao Terry, e tenta levantar um “campeonato” de quem se veste melhor. A primeira, é como o Terry se mostra nem um pouco animado com a situação, o que acaba sendo uma ótima dica de como será o episódio a seguir. Segundo, que é uma piada até meio sem graça pro nível do programa, o que também fala sobre as piadas vindouras. 

Detro da delegacia, Terry está com a cara cansada / entediada, e Boyle parece muito animado ao seu lado. Ambos estão usando a mesma roupa: camisa listrada branca e rosa, gravata lilás com bolinhas brancas, e suspensórios azuis.
“Hoje não, Boyle…”

Isso sem falar da metáfora (Que eu to forçando, confesso): Pessoas no mesmo ambiente, se vestindo igual, não são iguais.

PRIMEIRO ARCO

Terry, protagonista do episódio, está tentando uma promoção, num cargo de oficial de comunicação. Para isso, precisa estudar por mais tempo, além de ter outras atribuições. Nesse contexto, Amy e Jake se oferecem para buscar as filhas gêmeas dele e levá-las para casa. Isso serve de treino, uma vez que eles estão pensando em ter filhos. No caminho, Jake deixa que as garotas (de 6 anos) brinquem com a janela do carro, deixando um cobertor de estimação (que também é um brinquedo de vaquinha) chamado Moo Moo caia na rua. Terry sabe que as meninas não dormem sem Moo Moo, então sai pra procurar pelo bairro. Acha ela caída na rua. Nossa história começa.

Dentro de um carro, Terry fala ao celular enquanto procura por Moo Moo no banco de trás. Na legenda se lê "É o cobertorzinho da Cagney. Tem uma vaquinha nele."
Quem nunca teve um cobertor / vaca de estimação?
Eu não, na verdade. Mas me identifiquei.


ABORDAGEM

Terry acha Moo Moo no chão (isso é de fato incrível), e quando está voltando para casa, vê um policial que o para. “O que há, amigo?”. Terry sorri, e tenta seguir. O policial mostra a arma, manda que Terry se afaste (ele não estava próximo), e diz para abaixar o tom de voz. 

Só isso já cabe um olhar. Talvez não fique claro pra quem assiste, a relação de poder ancestral nesses movimentos simples. Não só o policial mostra a arma (símbolo inconteste de força e morte), como pede para Terry falar baixo. Assista o episódio e veja: Terry NÃO ESTAVA falando alto. Porque não é sobre a materialidade da situação: o policial mandaria o Terry falar baixo de qualquer forma. Porque ele precisa por Terry num lugar de submissão. 

Terry é um homem alto, e muito musculoso. Sem o fator arma de fogo, e se fosse uma briga real, ele teria uma clara vantagem. Mas isso não é suficiente para explicar a situação. Porque o policial agiria dessa forma com qualquer pessoa negra que ele considerasse ameaçadora. A verdade é que Terry foi abordado dessa forma, porque é pondo o outro no lugar de submissão que as opressões podem acontecer. Não IMPORTA se o outro for muito maior e mais forte que você. Se ele estiver quebrado por dentro, se ele não tiver apoio, ele não é capaz de reagir.

De costas, Terry, usando uma jaqueta de frio, olha para o policial Maldack. O policial está uniformizado. Está com a mão direita segurando o punho da arma, que está na cintura. Sua mão esquerda está apontada para frente, rija, como quem pede distanciamento a alguém.
Arma na cintura, mão em riste, postura ereta

Como Jane Elliot descreve tão bem aos 24:51 do vídeo abaixo, tratamos pessoas de minorias de maneira infantilizada, para que se sintam inferiores, desde muito jovens. E o tratamento se mantém até a idade adulta. Note que Elliot fala sobre a realidade americana. Mas Brooklyn Nine-Nine também. Então, tudo em casa. 

Outro detalhe importante da cena: O policial manda que Terry largue Moo Moo no chão. Faz sentido, não faz? O policial não sabe o que aquela pessoa estranha tem em mãos. Pode ser perigoso. Melhor tirar isso dela. Mas vejam a cena.

Terry, de casaco, segura Moo Moo na mão direita. Ele está com os braços levemente dobrados para cima, mas ainda do lado do corpo. Na legenda, o diálogo:
- Eu só estava...
- Para trás!
Pedaço de pano, ou arma?

É claramente um pedaço de pano sem nada pesado dentro. Ou seja, uma pessoa treinada para fazer observações e análises rápidas, não conseguiu ver que uma pessoa parada só carregava um pedaço de pano, e mandou ele largar no chão. Enfim, a cena segue com o policial mandando Terry erguer as mãos.

O DIA SEGUINTE

Terry entra na sala comum da delegacia, muito chateado. Os colegas percebem e perguntam o motivo. Terry conta da abordagem, ao que os colegas entendem prontamente, e ficam horrorizados. Scully fala que não está entendendo, ao que Hitchcock logo deixa claro:

Sentado numa poltrona dentro da delegacia, Hitchcock está encostado no assento, e falando virando o rosto para a sua esquerda. Na legenda, lemos "Ele foi parado por ser negro. Acorda, Scully!"
Caraca, até o Hitchcock

Pode parecer uma bobagem. A dupla Scully / Hitchcock tem, no geral, falas caricatas e pouco importantes. Mas essa fala é FUNDAMENTAL para o episódio. Não para o seu andamento, mas para o público: NINGUÉM pode ter dúvida sobre o que Brooklyn Nine-Nine Temporada 04 Episódio 16, Título: Moo Moo, está querendo falar. É um episódio sobre racismo. Até um dumb dumb completo como o Scully TEM QUE ESTAR CIENTE. 

“Mas Ferna, não tem como não entender isso…” Ah é? Olha esse meme aqui: 

"print" de u post da página de Facebook Legião dos Heróis, onde se vê a imagem com legenda "10 filmes que falam sobre a luta contra o racismo" "Vidas negras importam! no mundo todo, as tensões raciais estã...", e acima, se lê "Só filmes incríveis e aclamados!!. 
No meio, uma imagem onde, na esquerda, temos o poster do filme MAlcon X (com o rosto do Denzel Washington marcado por um X vermelho), o poster de Corra (a face do Kaluuya estática, assustada, chorando), e o poster de Infiltrado na Klan (a pessoa negra usando o capuz da KKK). 
abaixo, o recorde de um outro "print", cujo comentário é "Corra n tem nada haver com racismo ou eu entendi o filme errado"
Ê lelê…

Sim, tem gente que não entende.

ABORDAGEM PT. 2

Vemos a abordagem mais uma vez. Onde vemos que o policial perguntava o que Terry faz naquele lugar, e Terry dá a singela resposta de:

Terry, ainda com os braços em riste, olha incrédulo. Na legenda, se lê:
- O que faz aqui, amigo?
- Eu moro aqui. Ouça...
Então, tipo assim…

“Eu moro aqui”.

Terry

Não sei se vocês se lembram quando começaram as notícias sobre “rolezinho”? Onde vários jovens começavam a ser abordados de formas violentas em shoppings centers, que é… Um lugar onde jovens vão. Achavam que eles queriam fazer “arrastão”. Acontecia com todo jovem? Não. Aconteceu com muitos jovens? Sim. Qual a diferença dentre aqueles que sofriam as abordagens, e com quem não sofria? 

Os que sofreram eram negros, eram periféricos, e tiveram uma pequena ascensão social, que lhes permitia acessar aquele espaço de “superioridade” social com maior facilidade. 

Qual a relação entre as duas cenas?

Sendo criados num imaginário capitalista, é muito fácil para qualquer um de nós pensar que o acesso a alguns lugares só é regulado pelo dinheiro que você tem: se você é pobre, fica na periferia, se você tem dinheiro, pode ir para shoppings no centro. Pode morar num bairro “bom”. O que os rolezinhos em 2013/2014, e Moo Moo, nos ilustram, é que essa premissa é FALSA. Não é só a sua carteira que determina os lugares onde você “pode” transitar. Existem outros sinais que podem te dar ou não essa permissão, e sua cor é uma delas. Outros exemplos possíveis: vestimenta, forma de falar, gênero, e o seu gestual.

Só reforçando: TANTO FAZ se o Terry diz pro policial que mora ali. Mesmo que ele tivesse com um comprovante de residência no bolso, só conseguiria mostrá-lo depois de minutos de constrangimento.

CONTRASTE: NEGRO X BRANCO

A cena segue com a abordagem violenta do policial para com Terry. Violenta de maneira moderada, diga-se de passagem. Jake fala que já fez coisas piores sem enfrentar tantos problemas. Corta para uma cena em que ele está invadindo a casa do Boyle pela janela, usando uma máscara de hockey. Um policial pergunta (do outro lado da rua) o que está acontecendo. Jake fala que é só uma brincadeira (prank). O policial ri, e segue o rumo dele. Essa cena do Jake é um exagero? É uma caricatura? Claro que é. Mas vocês lembram da cena recente, em que uma manifestante pró governo carregava um taco de baseball na mão, e é conduzida pacificamente por um policial? Caricaturas são um desenho distorcido da realidade. QUE SE BASEIAM NA REALIDADE.

Jake, usando um casaco (hoodie) e uma máscara de hóquei branca, está entrando pela janela de um prédio, e ainda sentado na janela, está olhando para fora. Na legenda, se lê "Estou só pregando uma peça no seu amigo".
O JASON invadindo uma casa? Quem nunca?

Terry decide seguir por um caminho amistoso. O caminho do diálogo. Sentar, e conversar. Jantar com o policial que o abordou e tentar entendê-lo. O Terry, mesmo sendo policial, é pacífico afinal. Quem acompanha a série lembra que na primeira temporada, ele fazia o máximo para fugir de missões de campo. Fora que pessoas negras que são calmas, que ouvem o outro lado, que são pacíficas, que não se exaltam, não se revoltam, são valorizadas. Não é tão estranho. Ele foi treinado assim. 

AMY E JAKE

Nesse meio tempo, Jake e Amy tentam ajudar mais uma vez, e vão tomar conta das gêmeas. E veem que, dessa vez, não vai ser tão fácil quando deixá-las brincar com as janelas, ou bolo com filme. As meninas estão curiosas, e querem saber o que acontece. Crianças não são bobas. 

No sofá, uma das gêmeas está de pijama, e segurando cartas de jogo nas mãos, está olhando para Amy (fora do quadro). Na legenda se lê:
"É porque ele é negro?"
Eita…

“Porque o papai teve problemas com o policial? É porque ele é negro?”

E Jake e Amy entram em parafuso. 

É muito interessante como pessoas brancas não sabem lidar com o racismo. Elas sabem o que é, sabe o que acontece. Sabe que são beneficiadas. Mas mesmo assim, quando são confrontadas com esse fato, não sabem como lidar. Voltando à Elliot novamente, agora aos 25 minutos,

“Vocês acabam de admitir que adultos brancos, sofisticados, educados, em posições de algum poder, […] não são capazes de suportar […] aquilo que crianças negras têm que aceitar desde o momento que nascem”.

E completa

“Vocês acabam de dizer que os negros são mais fortes que os brancos. Criamos uma situação neste país com a qual incutimos muita força nos negros, mas não incutimos essa mesma força de caráter nas pessoas brancas, especialmente nos homens brancos”.

Cagney e Lacey tem que lidar com o racismo aos 6 anos de idade, e em que pese, vivendo num bairro de classe média, sendo filhas de policial. Jake e Amy tem por volta de 30 anos, não sabem lidar com a situação. Das pessoas que eles ligam para pedir conselhos, o mais sensato vem da forma justamente mais engraçada: Gina dispara “Só explique o racismo profundamente enraizado que permanece neste país até hoje”. Nem que seja como música. Acho que é uma boa.

Gina, sentada num ambiente fechada, está falando ao telefone, com ar de certa irritação, com quem tá falando com alguém que não percebe algo muito simples. Na legenda se lê:
"Só explique o racismo profundamente enraizado"
Simples assim.

O ENCONTRO

Chegamos à cena nuclear do episódio. Vocês ainda estão comigo? Por favor, não desistam agora! Temos ainda bastante coisa pela frente. Vamos lá. O policial Maldack chega ao restaurante, e já começa bem, pedindo desculpas pelo comportamento dele. Terry se surpreende, ao que Maldack completa:

Em close, sentados numa mesa, o Terry está de costas para a câmera, e o Maldack está visível. Maldack está falando. Na legenda se lê

"Se soubesse que era policial, eu o trataria diferente."
Ah pronto ¬¬

“Foi um erro honesto. Se soubesse que você é policial, teria te tratado diferente”

Maldack

Deu pra sacar? Se não sacou, Brooklyn Nine-Nine é bem didático, e o próprio Terry faz a pergunta:

“Então você sente muito por não saber que eu era policial? Só por isso?”

Com a concordância de Maldack, ele completa “Você não deveria ter me tratado daquele jeito, eu sendo policial ou não”. 

Lembra a fala do Hitchcock? Mesma coisa: NINGUÉM pode ter dúvida sobre o que é esse episódio. Mas segue o diálogo:Eu só tava andando na rua não tem nada suspeito ou ilegal nisso.

– Ok, mas ambos sabemos que você não parece que percente àquele bairro.
– Eu moro lá.
– Olha, 9 em 10 vezes que sou chamado naquele bairro é sobre alguém parecido com você.

(Note que ele não fala em que o Terry é “parecido”)

– Tava respondendo um chamado?
– Não. Você tá perdendo o meu ponto.
– Não, você é que está. Só quero que admita que só me parou por ser negro. E se desculpe, e diga que não vai fazer de novo.
– Nem estaríamos conversando se estivesse com seu distintivo. Não esqueça mais.
– Então é minha culpa?

Em close, sentados numa mesa, o Terry está de costas para a câmera, e o Maldack está visível. Maldack está falando. Na legenda se lê:

"Nem estaríamos conversando se estivesse com seu distintivo."
Ó praí que arrombado!

Pausa nessa reversal. Porque sim, rolou uma culpabilização da vítima. Não é culpa de Maldack por ter extrapolado suas funções e abordado uma pessoa que estava apenas andando na rua, pelo motivo de: negra. A culpa é, essa sim, do Terry, por ser negro, e estar andando sem seu distintivo.

– Eu não vou me desculpar por fazer o meu trabalho.
– Esse não é o seu trabalho, cara.

Em close, sentados numa mesa, o Terry está de costas para a câmera, e o Maldack está visível. Maldack está falando. Na legenda se lê:

"Não me desculparei por fazer meu trabalho".
Cala a boca, desgraça!

Isso me lembra uma conversa recente que tive com um motorista de Uber. Ele falou que entendia quando policiais matam pessoas inocentes. Eu achei que valia a pena conversar, ele parecia uma pessoa legal. Então perguntei pra ele qual ele achava que era a função da polícia. Ao que ele me respondeu “pegar bandido”. Eu contrapus “não, o papel da polícia é manter a sociedade segura. Toda ela”. O final do diálogo ilustra essa confusão, que permeia toda nossa sociedade. De certa forma, a gente nem sabe muito bem para o que a polícia serve. Nem alguns policiais sabem.

Bom, temos uma reviravolta porque  Terry decide apresentar uma queixa formal contra o Maldack, e o Holt rejeita.

Holt está no seu escritório, em pé (câmera em close), lendo um papel em suas mãos. Seu ar é de negação. Na legenda se lê
"Não vou apresentar isso"
AAAHHHH PRONTO…!

HOLT

Holt não só tem a patente mais alta na Nove Nove, como é negro. E gay. Mas mesmo assim, ele rejeita a denúncia de pronto. Terry fica indignado, e pergunta o motivo. A resposta também merece analise de perto:

“Porque poderia se voltar contra você. Policiais que denunciam outros policiais sempre tem problemas.”

Holt

E continua

“Você tem que pesar. Há políticas para ser um policial”. E com a clara confusão de Terry, completa:

“Não estou dizendo para fazer nada, mas a ação mais poderosa que você pode tomar é ser promovido. Assim, fará mudanças em grande escala. Eu tive que escolher minhas batalhas. E nem sempre foi fácil. As agora tenho minha própria delegacia, onde policiais nunca fariam o que Maldack fez”

Holt
Holt está sentado numa poltrona, usando um pullover azul e camisa xadrez. Está olhando para Terry (que está de costas para a câmera). Na legenda se lê
"Tem que pesá-los. Há políticas para ser um policial"
Dói porque é verdade.

Holt acabou de descrever o sonho. É isso, meritocracia. Faça o melhor. Se dê o dobro. Ature tudo sem reclamar. Faça mais do que já faz (ignorando que já tem esposa e filhas). Não dá pra negar que o argumento é bom: de fato, uma forma de mudar o sistema é se apossando dos lugares de poder. Mas… lembra o que falamos sobre rolezinhos? SERÁ que só ser promovido basta para acessar alguns lugares? Fora que… Qual o custo? Deixar Maldacks soltos por aí, abordando outros Terrys, que na verdade não serão Terrys, porque não serão tão fortes, tão altos, nem tão policiais. Qual o custo pras pessoas negras que tem que lidar com esse tipo de policial, todos os dias, AGORA? Que inclusive é a pergunta que Terry faz para Holt, algumas cenas depois, quando o primeiro vai na casa do segundo para conversar. 

“Quanto tempo vai demorar para uma mudança assim acontecer? Maldack está nas ruas agora.”

Terry
Sentado de frente para Holt (que está de costas para a câmera), Terry fala, com ar sério e decidido. Na legenda, se lê:
"Maldack está nas ruas agora"
“Maldack” é um nome meio Senhor dos Anéis, né? Tipo Melkor, Morgoth

Terry completa com um relato de cortar o coração. Ao mencionar seu passado, onde um policial (negro) o ajudou. Ele viu o policial como super-herói, e quis ser um. Terry comenta:

“Eu queria ajudar as pessoas como aquele policial me ajudou. Mas não me sinto um super-herói. Sinto o contrário. Quando fui abordado naquele dia, eu não era um policial. Eu era só um cara, morador da vizinhança, procurando o brinquedo da filha. Eu era um homem negro, um negro perigoso. É tudo o que ele via, uma ameaça.
Eu não conseguia parar de pensar nas minhas filhas, e no futuro delas. E em como daqui a alguns anos elas podem estar andando nas ruas, procurando os brinquedos das filhas, e serem paradas por um policial ruim. E elas provavelmente não vão ter um distintivo para se livrar deles”.

JEFFORDS, Terry
Sentado de frente para Holt (que está de costas para a câmera), Terry fala, com ar sério e decidido. Na legenda, se lê:
"Eu queria ajudar as pessoas, como aquele policial me ajudou."
“You’re not a hero”

Eu tentei ser bem didático nesse texto, mas acho que não consigo fazer melhor do que essa fala.

HOLT PT. 2

Viu que quase ignorei Jake, Amy, e os outros nine-niners? É porque, no contraste, eles ficam irrelevantes mesmo. Amy e Jake estão descobrindo que ser pai/mãe pode ser legal, mas dá muito trabalho; Boyle fica querendo que os dois tenham filhos de vez; Rosa, Gina, Hitchcock e Scully quase não aparecem mais.

No dia seguinte Holt chama Terry para conversar. E faz uma fala também arrebatadora:

“Quando eu era um policial jovem, e coisas assim aconteciam comigo, me sentia muito sozinho. Queria confrontar cada policial mau-caráter, e tinha muitos, mas como preto e gay, nunca tive um chefe que ficasse do meu lado. O conselho que te dei serve para outros tempos. Foquei toda minha energia para chegar numa patente que fizesse diferença. E percebi que, se não te ajudar agora, estarei traindo a única coisa que lutei tanto para conseguir”.

No terraço (em close), Holt (de frente pra câmera) fala pra Terry (de costas). Na legenda, se lê
"nunca tive um chefe que ficasse do meu lado"
Quem nunca…

Uma coisa que pode acontecer aos “vencedores” da meritocracia, é se esquecerem de tudo o que foi sacrificado para chegar lá. Seus pares, seus amigos, às vezes até alguns familiares. Sua saúde mental e física. O discurso anterior do Holt (olhe, o discurso, não o personagem) foi muito alinhado com esse pensamento: “eu cheguei até aqui, o melhor pra você é chegar também. Eu não vou te dar a ajuda que eu poderia, você precisa passar por isso”. 

É muito cruel, não? Além de que, o fato de uma pessoa ter “vencido” NÃO IMPLICA dizer que todo mundo pode! Ou você acha mesmo que em Nova York só tem um policial negro e gay, ao ponto de Holt ter sido o primeiro a conseguir o cargo que tem? O que aconteceu aos outros, não se esforçaram o bastante? Não foram fortes o bastante? 

Fora que, e talvez seja o cerne da situação: Dizer “vença no sistema” é ACEITAR o sistema! Ao dizer para uma pessoa que ela tem que se esforçar nesse ciclo de opressões, você está normalizando as opressões e sofrimentos. Além de que, “seja promovido para fazer mudanças efetivas”, mas o quanto? Se as hierarquias continuam, se seus novos colegas não serão parecidos com você, se na verdade você só terá que lidar com mais e mais problemas, com mais visibilidade…? Dizer “é assim mesmo, vença e seja melhor”, é não atacar a verdadeira fonte de problemas, que é o sistema como um todo! 

Mas certamente  caio numa contradição aqui. Se estou dizendo que ser promovido não é solução. Mas também, é difícil imaginar uma sociedade sem polícia. Eu não quero que pessoas sejam promovidas? 

Para mim, a nova fala de Holt tem parte da resposta: se una aos seus pares. Proteja os seus. Se apoie nos seus. Seja apoio para eles. Aproveite as oportunidades, mas nunca os abandone.

ENCERRAMENTO

No final do episódio, Holt chama Terry para a sala. Abre um whisky. E comenta que saiu o resultado da promoção que Terry queria: foi rejeitado. Eles não tem certeza, mas apostam que a denúncia feita por Terry e holt teve peso. Terry fala “é uma bebida pela derrota, então”. Ao que Holt responde:

Terry e Holt, um de cada lado da mesa do escritório de Holt, estão brindando por cima da mesa. Na legenda, se lê "Estamos comemorando por termos feito a coisa certa".
Já viram “Do the Right Thing”?

E é muito difícil pensar que não foi uma referência à icônica obra de Spike Lee, de 1989. O sistema claramente fez o golpe reverso que  Holt previu. Sistemas são estruturados para se manterem. Mas, como fica bem frisado, Maldack estará fora das ruas. Outros policiais como ele ficarão atentos para não fazerem o mesmo. Pessoalmente pode ter sido uma merda, mas se pensarmos no coletivo…

Eu agradeço a todos vocês que aguentaram ler esse texto até aqui (inclusive ao meu revisor). Esse texto, para mim, é um exemplo de como eu, Fernando, gosto de consumir entretenimento: refletindo sobre cada elemento, sobre as cenas, e sobre as falas. Tentando encaixar as metáforas no mundo real. Recomendo que façam o mesmo. Cansa um pouco mais, mas dá pra extrair muita coisa de séries que só querem te fazer rir. 

Falando sobre riso, fica meu comentário: num episódio tão forte quanto esse, boa parte das piadas ficam deslocadas e sem propósito (menos a do orgasmo). Acho muito irônico que, numa série de comédia, um dos mais relevantes é justamente um que pouco faz rir. Mas a vida é maluca, mesmo.

Abraços!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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