Mulan – Mulher Ser

Mulan – Mulher Ser

Eu não sei o quão clichê é falar que conhecemos muitos filmes estadunidenses e brasileiros, e pouco de produção de outros países. É só olhar os filmes que já comentamos aqui no site, pra ter uma noção por alto. É compreensível mas é triste, ainda mais sabendo que outros países como Índia, Rússia, Argentina e China tem uma produção bem grande. Um filme tinha um potencial gigante de romper essa bolha, pelo apelo no coração dos ocidentais, mas na real, isso não aconteceu. Vamos falar sobre ela…
Hua Mulan (Portugal: Hua Mulan. EUA: Mulan: Rise of a Warrior. Em Chinês simplificado : 花木兰; Chinês tradicional: 花木蘭; Pinyin: Huā Mùlán)!

Em sua versão live action chinesa, de 2009.  E não, não é a da Disney. Essa teve problemas de calendário de novo.

Poster oficial de Mulan:  Acima, vemos Mulan, de costas, olhando para o lado, de frente para dezenas de soldados. Abaixo, Mulan está ajoelhada num campo cheio de mortos. Acima, na direita, vemos o emblema do filme: uma reta vertical, onde as duas pontas se abrem em 3 retas. Na esquerda e na direita, existem dois ideogramas chineses. Está escritos em caracteres romanos "Mulan"

Sinopse

Hua Mulan é a filha do orgulhoso Hua Hu. Seu país, Wei, está em conflito contra os Rourans, que pretendem invadir o território. Para evitar que seu pai idoso e doente vá para a guerra, ela rouba os equipamentos dele, e parte para se alistar no exército em seu lugar. 

Contexto Histórico

Registro mais antigo

Mulan é uma lenda chinesa, parte de seu folclore tradicional. O conto data do Século VI, mas a edição original de “Registros Musicais do Velho e do Novo” (tradução própria), onde a versão mais antiga da Balada se encontrava, infelizmente se perdeu. A cópia mais antiga do conto que relata a história, A Balada de Mulan, foi compilada pelo estudioso Guo Maoqian por volta do século XI. 

Ilustração histórica da Mulan. Ela segura os arreios do cavalo em que está montada na mão direita, e uma lança na mão direita. Tem um chapéu na cabeça, e uma capa amarrada nas suas costas.
Cavalo pensando “Por favor, me mata”

Semelhanças e diferenças entre versões

O conto/poema/balada/lenda tem várias versões, mas alguns elementos em comum entre elas: Hua Mulan é a filha de um senhor já idoso. O rei está convocando homens para a guerra, e Mulan decide se alistar para substituir seu velho pai. Ela passa de 10 a 12 anos longe, sem que seus companheiros saibam que ela é, na verdade, uma mulher. Após anos de luta, é reconhecida pelo imperador, mas rejeita todos os títulos e prêmios: só deseja um cavalo que a leve para casa, onde poderá ficar com sua família.

O conto teve muitas variações ao longo da história. Em alguns, ela conhece um oficial chamado Jin Yong, por quem se apaixona. Ele descobre sua verdadeira identidade, e sonham em ficar juntos. Em variações dessa variação, Jin Yong morre em combate, deixando Mulan só. Em algumas versões, em dado conflito Mulan decide ir para campo de batalha usando vestes femininas. Isso surpreende os companheiros, e intimida os inimigos, mas ela não perde o respeito dos colegas. Pelo contrário, eles ficam impressionados com o fato de um guerreiro tão bravo e astuto ser na verdade uma mulher, e não a abandonam.

Na balada original ela reencontra a família, mas em algumas versões, seu pai já teria morrido quando retornou. Isso, somado aos traumas de guerra, fizeram com que Mulan cometesse suicídio. Infelizmente, em apenas uma versão da lenda ela contava com a ajuda de um dragão maroto, um cavalo esperto, e um grilo atrapalhado.

Imagem da animação Mulan, onde ela está de frente para a câmera, em close, segurando uma espada pelo cabo. Mushu e o Grilo estão em seus ombros. Mas sobre os dois foi passado um "X" de cor cinza
Não foi dessa vez, carinhas

Mulan existiu?

Não existe comprovação histórica da existência de Mulan. Se existiu, viveu entre os séculos IV e V. Exércitos eram ambientes totalmente masculinos, fazendo com que uma mulher combatente fosse improvável – o que, ao meu ver, não nega a veracidade da lenda, na verdade só reforça. Mais que isso, fico com a citação de Renato Neto:

Assim sendo, a melhor oportunidade para uma mulher chinesa no século IV ou V se juntar ao exército seria disfarçada de homem, pois de outra forma seria impedida. A história antiga, seja no ocidente ou no oriente, pouca referência faz às mulheres comuns. Confinadas no silêncio dos trabalhos doméstico (sic), seus registros foram quase completamente apagados. Se existiu de fato uma guerreira chamada Hua Mulan, que viveu em algum momento entre os anos de 386-557 d.C e lutou no campo de batalha vestida como soldado, isso não podemos dizer. Mas que outras mulheres tenham se insurgido contra as imposições misóginas de gênero e se alistado no exército chinês, disfarçando de todos os modos possíveis as características do seu sexo para defender aquilo que acreditavam, é uma coisa bastante possível de acreditar. Longe de ser o conto de uma só pessoa, penso que “A Balada de Mulan” é um louvor a essas mulheres guerreiras, cujos nomes se perderam com o tempo e que hoje estão imortalizadas na figura de uma simplória camponesa, que partiu para a guerra no lugar de seu pai e acabou salvando todo um povo.

NETO, Renato Drummond Tapioca
Ilustração representando Mulan. à esquerda, escritos em ideogramas (não sei traduzir). à direita, Mulan sentada sobre um cavalo branco. Ela usa roupas tradicionais, portando lança e usando chapéu
Não parece muito com o Vento Negro

A Balada de Mulan

Eu achei algumas versões da Balada de Mulan pesquisando pra esse texto. Vocês podem ver uma versão logo abaixo. No fim do texto vou colocar outras referências, onde existem outras formas do poema:

“Suspiro após suspiro,
Mulan tece diante de sua porta.
Ninguém pode ouvir o som do tear,
apenas os suspiros da pobre menina.
Pergunte-a quem está em seu coração,
ou quem está em sua mente.
Ninguém está em seu coração,
e ninguém está em sua mente.

Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,
Khan está convocando muitos soldados.
Uma dúzia de listas rascunhadas,
cada uma com o nome de seu pai.
O pai não tem um filho crescido,
Mulan não tem irmão mais velho.

Ela decide adquirir um cavalo e sela,
e alistar-se em lugar de seu pai.
No mercado leste, ela compra um cavalo,
no mercado oeste, uma sela.
No mercado norte, ela compra um freio,
e, no mercado sul, um longo chicote.

À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe,
ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas as águas do rio fluindo.
À alvorada, ela deixa o Rio Amarelo,
ao anoitecer, ela chega à Montanha Negra.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas os cavalos selvagens na vizinhança do Monte Yan.
Viajando dez mil milhas ao encontro da batalha,
passando montanhas e serras como se voando.

Ventos amargos carregam os sons do sino do vigia,
uma luz pálida brilha em sua armadura de ferro.
Generais morreram em uma centena de batalhas,
os soldados mais fortes retornaram após dez anos.
Eles retornaram para encontrar o imperador,
o Filho do Céu sentado no palácio imperial.

Ele recordou seus méritos em doze pergaminhos,
e concedeu centenas de milhares de recompensas.
O Khan pergunta a Mulan o que ela deseja,
um título de grande ministro não tem utilidade para Mulan.
Ela pede uma montaria rápida para levá-la a milhares de milhas,
e trazer a filha de volta para casa.

Quando pai e mãe ouvem sobre sua chegada,
eles se apoiam até o portão da cidade.
Quando a irmã mais velha ouve sobre sua chegada,
ela se adorna e a espera em sua porta.
Quando seu irmão mais novo houve sobre sua chegada,
ele afia a faca e prepara o porco e a ovelha.

‘Abram a porta de meu quarto ao leste, eu sento no sofá de meu quarto ao oeste.
Removo meu uniforme de guerra, e visto minhas roupas dos velhos tempos.’

De frente para a janela, ela prende seus cabelos macios como nuvem,
no espelho, ela põe flores amarelas.
No portão, ela encontra seus camaradas,
eles ficaram todos surpresos.
Lutando juntos por doze anos,
eles jamais suspeitaram que Mulan fosse mulher.Lebres macho gostam de chutar e pisar,
lebres fêmeas têm olhos enevoados e acetinados.
Mas se as lebres correm lado a lado,
quem pode dizer qual é ele ou ela?”

Estátua de Mulan em Xinxiang. Na esquerda, um senhor idoso apoiado num cajado, está olhando nos olhos de Mulan, apontando o indicador direito na direção do peito dela. Na direita, Mulan, com chapéu, saco nas costas, e espada na cintura, olha nos olhos do senhor.
Estátua de Mulan em Xinxiang

Mais de 10 anos e tu só foi ver agora?

Como já dito, conhecemos poucas produções chinesas do lado de cá do globo. Esse filme, curiosamente, eu soube da existência anos atrás. Tinha chegado inclusive a procurá-lo, mas acabava não assistindo. A notícia recente da mudança de data de lançamento do live action da Disney devido à pandemia motivou a conversa com um amigo, que reacendeu minha vontade de ver o filme. O que foi um excelente decisão, levando àquela pergunta que qualquer pessoa com mais de 20 anos já pensou: “Porque não fiz isso antes?”.

Produção

Aspectos gerais e Tecnicidades

A primeira coisa que chama a atenção em Mulan (e não estou me referindo à participação do VITAS) é a produção. Tanto os figurinos quanto as locações são muito bonitos. É difícil para mim dizer o quão precisos historicamente eles são, mas é de botar muita produção ocidental no chinelo.

O cantor VITAS, usando as roupas que caracterizam seu personagem, Wude. Ele está em pé num campo militar no deserto. Ao fundo, à média distância, vemos vários soldados em pé. No meio do caminho vemos parcialmente uma barraca montada como panos e madeira
Não sei lidar com o VITAS. Nem usando roupa de alienígena, nem usando roupa tradicional chinesa

A sonoplastia é boa, mas não impressiona tanto quanto as decisões de fotografia, tanto em enquadramento quanto na escolha de paleta de cores. É através dela que somos lembrados de como o território chinês é vasto, pois vemos regiões desérticas, montanhosas, e ribeirinhas em diversos momentos. 

Representatividade e consistência

Um fator importante é o respeito que essa obra tem com a cultura chinesa – e o fato de ser produzida por pessoas que vivem essa cultura é evidente. É sabido que a animação recebe muitas críticas no país pelo desrespeito que demonstra com diversas figuras, como o dragão ou os próprios hunos. Existe uma representação ainda caricata dos Rourans, mas numa proporção muito menos agressiva do que na animação.

Mais do que isso, as cenas de Mulan são muito críveis, também. Você acredita naqueles conflitos, com suas paredes de escudos e carnificina desenfreada, típica dos conflitos em campo aberto. A representação do sangue pode não ser lá tão real, beleza. Mas tem muito sangue. E todo o resto que envolve conflitos e batalhas são muito interessantes. Inclusive as cenas em que vemos a própria Mulan lutando. 

Mulan, com armadura completa, portando lança no braço direito, seguida por mais 3 cavaleiros (só vemos 2 deles), está montada em seu cavalo.
É ASSIM QUE MEU FUSCA ANDA!!

Mulan em ação

Ela é versada nas artes de guerra tanto em combate singular, armado, quanto sobre um cavalo. Nossos parabéns à Zhao Wei pela incrível competência!

As atuações, apesar de serem um pouco teatrais, são muito poderosas, com um texto rico e bem trabalhado. Mulan é capaz de fazer diversos discursos extremamente inspiradores, que vão fazer VOCÊ querer pegar uma espada e sair para defender o país de Wei. Fica muito clara, inclusive, toda a inteligência e sagacidade da personagem. Ela é claramente mais competente do que todos ao seu redor, e isso não faz com que a soberba e o orgulho a afoguem. Pelo contrário, Mulan está sempre preocupada com o bem dos seus camaradas.

Num terreno desértico, Mulan está sobre seu cavalo, vento negro. Diversos homens a seguem, muitos com espada em punho. Ao fundo, pode-se ver uma fileira de arqueiros
A quantidade de poeira, brother… Minha rinite atacou DAQUI!

Quem é (essa) Mulan na fila do pão

Já vimos que Mulan tem diversas versões, históricas e no entretenimento. Aqui, Mulan treina artes marciais desde muito nova, mas é sempre repreendida a retornar ao seu lugar de gênero. Na iminência da guerra, foge escondida com os equipamentos de seu pai, e se apresenta no exército. Lá, ela encontra e faz novos amigos, vindo a ter um envolvimento maior com Wentai (Kun Chen), personagem que se mostra como um simples soldado comum, mas durante todo o filme vemos que ele esconde vários segredos. Mulan e Wentai se aproximam (muito), e juntos levam os exércitos de Wei à inúmeras vitórias, lhes dando diversas condecorações. Suas conquistas levam os líderes inimigos ao temor, causando intensas batalhas políticas, cada vez mais terríveis.

Mulan consegue superar todos os obstáculos que fariam qualquer um desistir em desespero, e bola o plano capaz de pacificar os dois países. Depois dessas vitórias, 12 anos depois, ela recusa qualquer prêmio – até porque, o que ela de fato poderia querer já lhe foi negado – e volta para a casa de sua família, onde ainda encontra seu velho pai. Mulan vê o seu amor uma última vez, e o deixa partir pelo bem do reino.

Numa fonte termal com águas esbranquiçadas, Mulan passa o braço esquerdo pelo pescoço de Wentai. É um misto de afeto com chave de pescoço.
Banho dos brothers – Quem nunca?

Comparações com a Mulan animada da Disney

O diretor Jingle Ma fez questão de frisar que essa versão é muito diferente da animação da Disney de 1998. Só posso concordar. Mulan [1] não é só um live action, ou uma expansão da animação. Ele traz uma série de nuances e inserções à narrativa que fazem com que, na verdade, tenhamos uma experiência muito mais rica e histórica. É inevitável comparar, mas é muito injusto também.

A animação de 1998 tem o objetivo de atrair a atenção de “toda a família”, logo, ser palatável para crianças (ou melhor, para o que os pais acham que são suas crianças). Então, não temos grandes cantorias em Mulan. Não é um filme engraçado, pelo contrário. Poucas vezes você vai rir enquanto assiste.

Mulan é muito menos colorido que a animação, e – para a tristeza dos fãs – a única música cantada no filme é um lamento aos mortos, em dois funerais distintos.

Mulan tem um animal importante, o cavalo Vento Negro, mas ele está longe de ser a mistura de segurança particular com cachorro que vimos em 98 (já perceberam que todo bicho da disney na verdade é um cachorro?). Sua devoção aos ancestrais pode ser deduzida por contextualização histórica, mas no filme só vemos sua reverência ser prestada ao seu pai e sua falecida mãe. Portanto, nada de Mushu. E de quebra, nada de grilo também.

Na animação, Mulan estava sendo forçada pelos pais a fazer cursos de matrimônio, o que não acontece aqui. Também, no desenho ela não sabia nada sobre lutas ou combate, o que é totalmente diferente do filme de 2009, onde fica muito explícito que ela aprendeu a lutar desde muito nova. Dá pra citar uma série de semelhanças e diferenças, eu vou deixar que vocês vejam o filme para fazer essas relações.

Imagem comparando a Mulan do desenho animado, para a versão com atores. Na esquerda vemos Mulan usando sua armadura, com manoplas, espada na cinta, omobreiras e um lenço no pescoço. Na direita, Zhao Wei usando a armadura de couro e roupa de algodão grosso por baixo. Ambas usam coque no cabelo
Jogo das 7 mil diferenças

Mulan e a representação das mulheres guerreiras

Categorias que cabem a Mulan

Durante a pesquisa para esse texto, acabei encontrando esse artigo da Wikipédia, onde se discute a representação da mulher no papel de mulher guerreira. É interessante notar como, dos estereótipos citados pela lista, Mulan atende a alguns. O primeiro, o mais evidente, é o da mulher Masculina. Aquela que, para ser validada como guerreira, precisa usar símbolos masculinos: ou ter o corpo masculinizado, ou ser andrógina, ou usar indumentária masculina. Mulan, nessa categoria, está lado a lado com Joana D’arc, no uso de armaduras e aparatos militares, e também se aproxima de Arya Stark e Éowyn, no disfarçar seu gênero para ser aceita em áreas “masculinas”, como o exército ou o campo de combate.

Também, Mulan é uma personagem “anômala” entre as mulheres no seu contexto. Na animação, ela não se encaixava com o trabalho doméstico nem com o treino para o casamento. Na edição chinesa, sabe brigar e se posicionar com firmeza, ao contrário do que é esperado de uma mulher.

Por fim, não só ela tem uma figura de autoridade masculina que lhe motiva a lutar (seu pai e Wentai), como tem a domesticação como destino final, ao ver como o melhor prêmio voltar para casa e para a família. 

Mulheres Guerreiras são bons modelos ou não?

Muito se discute se mulheres guerreiras são um símbolo feminista ou não. Por um tempo, nos jogos e no cinema, estava na moda o estereótipo da “Mulher Forte”, como símbolo máximo da representatividade feminina, faltando a maturidade dos espectadores de perceber que mulheres são muito mais complexas, para que só uma faceta lhes caiba bem. Personagens guerreiras fortes são legais, mas não são elas as “Mulheres de Verdade”. Mulheres de verdade são… Mulheres. 

A gente precisa sempre lembrar que a Lara Croft que, em 2013, se mostrou uma jovem com coragem e disposição para sobreviver a um ambiente hostil e totalmente masculinizado, é a “mesma” que décadas atrás era considerada a sex symbol maior do mundo dos games.

Lara Croft de 2013 vs. Lara Croft de 2008

A Samus (da série Metroid), uma das maiores caçadoras de recompensa da galáxia, que lidou com a ameaça dos Piratas Espaciais dezenas de vezes, é a mesma que é sexualizada ao ponto de que o grande prêmio de zerar o jogo da qual ela é protagonista é… Vê-la com pouca roupa.

Imagens pixeladas de Samus Aran, heroina da série de jogos Metroid. Vemos 3 sprites, na esquerda, samus com sua armadura laranja e amarela, e seu arm cannon; no meio, samus usando uma espécie de maio rosa, com cabelo verde (?) solto, e pernas à mostra; por fim, Samus só de bota e bikini rosas, com o braço esquerdo estendido para o lado
Samus em Metroid (1986): 1) De armadura, ao longo de todo o jogo 2) sem armadura, após o jogo concluído (Oh meu deus, uma mulher!) 3) “Premio” por concluir o jogo com 100% e no limite de tempo, ver Samus de bikini

Mulher Maravilha é tanto a maior das amazonas, e portadora da Justiça, como também é alvo de closes sob a saia e em seu decote.

Ser uma Mulher Guerreira não necessariamente implica num bom exemplo feminino, ou num exemplo feminista. Se a Mulan é um desses bons exemplos, eu deixo para as leitoras dizerem. 

“Mulans” da vida real

Mulheres guerreiras contemporâneas

Como dito na citação lá no começo do texto, diversas mulheres se atiraram na guerra, independente do fato de guerra ser uma expressão muito masculina. Tivemos exemplos históricos muito interessantes, como Joana D’arc e a rainha Boudicca. Atualmente, mulheres são mais bem aceitas no serviço militar (mesmo sabendo que ainda é um ambiente potencialmente hostil para mulheres e pessoas LGBTQIA). Um exemplo recente muito curioso são os batalhões compostos por mulheres para enfrentar o DAESH, se baseando na crença do movimento extremista de que, ao serem mortos por mulheres, lhes seria proibido o acesso ao paraíso.

Na história brasileira também temos esses exemplos. Ambas são muito interessantes, mas uma delas me é mais cara. Então vamos começar por Anita Garibaldi.

Anita Garibaldi

Anita Garibaldi representada pelo pintor genovês Gaetano Gallino, em 1845 na cidade de Montevidéu. É o único retrato existente tomado realmente de Anita.
Anita Garibaldi representada pelo pintor genovês Gaetano Gallino, em 1845 

Seu local de nascença disputado entre as cidades de Lages e Laguna (Santa Catarina). Se casou aos 14 anos, mas o marido lhe abandonou 3 anos depois para servir ao exército imperial. Aos 18, conheceu Giuseppe Garibaldi, que fazia parte das forças farroupilhas que tinham como objetivo tomar Laguna. Eles se apaixonam, e ambos seguem junto às batalhas da guerra no sul do país. Não como uma mera acompanhante, mas sim como companheira de fronte de combate. Ambos batalham não só no Brasil, mas chegaram a viver no Uruguai, e ao morarem na Itália, combateram no contexto da invasão franco-austríaca.

Anita morre na Itália, sendo sepultada num monumento erigido em sua homenagem. Também, recebeu homenagens em diversas partes do brasil, como cidades nomeadas em sua honra, nomes de bairros, ruas e afins. Para quem é de salvador e não sabia, é em homenagem a ela que vem o nome da avenida Anita Garibaldi. E já que estamos na Bahia…

“Mulan” baiana

Primeiros passos

Assistir Mulan me fez pensar em Maria Quitéria em diversos momentos. Se você é da Bahia, certamente ouviu falar dela, mas imagino que no resto do país ela não seja tão conhecida. Mas, com sorte, você viu esse vídeo incrível do Ivan Mesquita, onde ele resume a história da guerreira de maneira bem atual.

https://www.instagram.com/p/CCJliLJJpl1/

Existem diversas semelhanças em ambas histórias. 

Quitéria nasceu nas proximidades de onde hoje é a cidade de Feira de Santana. Sua família não era exatamente rica, mas tinha posses. Pós proclamação da república, tropas portuguesas e aliadas do país europeu se agrupavam em salvador, enquanto que uma resistência pró brasil independente se reuniam em cachoeira. D. Pedro enviou emissários para coletar recrutas e recursos nas fazendas, e numa delas, a Serra de Agulha, vivia nossa protagonista. Ela dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo, e tinha como diversão juvenil se embrenhar no mato. Ao ouvir as palavras do emissário, Maria se sente impelida a servir ao exército. Dada a recusa do pai, foge de casa.

Quitéria no exército

Vai até a casa da irmã e, de lá, se apresenta com roupas masculinas no Batalhão dos Caçadores. A história diverge um pouco da Mulan pois o pai de Maria, Gonçalo Alves de Almeida, vai ao quartel disposto a levá-la para casa. Coisa que o major José Antônio da Silva Castro recusa, pois Maria já tinha ganhado destaque e reconhecimento entre seus pares, sendo reconhecida por ser disciplinada e por ter bom manejo das armas. Ela recebe, então, um uniforme próprio, com saias e adereços. Outras mulheres, inspiradas por Quitéria, resolvem integrar o exército, o que criou um novo batalhão comandado por ela. 

Após a derrota portuguesa em (salve salve) Dois de Julho de 1823, ela ganha a condecoração de 1º Cadete pelo general Labatut, e em 20 de agosto, recebe das mãos do próprio imperador o título de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. Ela não pede um cavalo para retornar ao lar, mas várias fontes apontam que ela pede que D. Pedro I escreva uma carta ao pai pedindo que ele aceite a filha novamente. 

O fim de uma lenda

Não sabemos o final de Mulan, mas o de Quitéria é, no mínimo, triste, para alguém de sua importância. Ela se casou com um lavrador, com quem teve uma filha. Ao se tornar viúva, retorna para Feira de Santana para tentar obter a herança do pai. A justiça é tão lenta (já é hoje, imagina sem computadores) que ela desiste e retorna para salvador. Está praticamente cega ao fim da vida, e morre sepultada em lápide anônima na igreja matriz da freguesia de Santana do Sacramento.

Maria Quitéria dá nome à uma medalha e uma comenda da Câmara Municipal de Salvador. Também é o nome de uma comanda dada pela Câmara Municipal de Feira de Santana à personalidades distintas. Ela é reconhecida como Patronesse (!) do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.

Estátua de Maria Quitéria, que se encontra no bairro da Lapinha, em Salvador. Quitéria está com o braço direito em riste, erguendo uma espada
Estátua de Maria Quitéria, que se encontra no bairro da Lapinha, em Salvador

[edit] Mulher Ser

Já após a publicação desse texto, um dos colegas do site me mostrou um ponto que eu não abordo no texto: Como Mulan pode ser uma representação do que é Ser Mulher?

A resposta, bate pronto, é muito simples: Eu não sei. Essa resposta não cabe a mim dar.

Mas dá para destrinchar um pouco. Primeiramente, uma coisa tem que ficar marcada na mente de todo mundo: “Exemplos individuais não nos interessam”[2]. Não é porque Mulan, Garibaldi, Quitéria, ou tantas outras no mundo, se tornaram mulheres que vão para campo de batalha, que isso indica que “Mulheres no passado iam para a guerra”, ou “as mulheres tem que ir para a guerra”. Num dos sites que peguei como referência para esse texto, que enumera algumas mulheres guerreiras na história, alguns comentários (em geral, de homens, que em geral eram brancos) diziam “mulheres naquele tempo iam para a guerra! Hoje querem chamar atenção rebolando!”.

Isso é uma grande besteira. Em poucas sociedades existia uma prevalência de guerreiros para além dos cidadãos civis. Então, por definição, a premissa que foi dada por esse cara é uma grande idiotice. Segundo que é um preconceito rasteiro dizer que mulheres no passado eram guerreiras, e que mulheres atuais rebolam. Isso mostra um desconhecimento tanto de história, quanto de contemporaneidade. Sem contar que não há nada de errado com pessoas que rebolam, também. Convenhamos.

Eu acho que, o que Mulan e histórias correlatas tem para nos mostrar, é como os papéis de gênero são criações sociais. E, como tal, podem ser repensados, modificados, ou até mesmo subvertidos. Mulan não era uma guerreira formidável por ser guerreira E mulher. Mas, se fossem seguidas à risca as normas sociais, já imaginou que guerreira formidável o país de Wei teria perdido? Quantas Mulan, Ada Lovelace, Marie Curie seriam perdidas, somente porque são “meninas” [3]? Como diz as duas últimas linhas da Balada de Mulan, “Mas se as lebres correm lado a lado, quem pode dizer qual é ele ou ela?”.

E claro que Mulan é uma história incrivelmente inspiradora. As coisas que uma pessoa pode fazer quando há a motivação correta são incríveis. Por amor aos seus pais e sua família, ela foi capaz de salvar um país inteiro! Olha que coisa fascinante? E é isso que esse tipo de narrativa pode ser (e talvez eu caia na armadilha de “ser coach por um dia”), formas de inspiração. Mulan foi capaz de manter sua identidade oculta, entrar num ambiente que não era seu, se destacar, e honrar suas crenças. Você não precisa SER uma Mulan. Mas você pode ser qualquer coisa. Que a Luz do Luar lhe Traga Inspiração.

Concluindo

Não sei se deu pra perceber que a ideia desse texto era ser uma resenha de um filme antigo, e acabou virando um monte de coisas. Isso é fascinante na cultura pop, uma obra pode ser entretenimento puro e simples, mas pode trazer uma série de debates e reflexões, que fica difícil saber a hora de parar. Espero que vocês não tenham ficado entediados. Se chegaram até aqui, muito obrigado!

Se gostam das nossas produções, considerem participar do nosso processo seletivo para novos redatores. Abraço, e até daqui a duas semanas!

Ready for action!

[1] Aqui no brasil, o nome do filme é só Mulan, mesmo. Quando for me referir ao filme da Disney, vou falar Animação.

[2] Essa reflexão foi feita no incrível documentário A Última Abolição, por uma pesquisadora que peço desculpas por não lembrar o nome. É uma fala endereçada para a negritude, mas serve para todo grupamento social.

[3] Diminutivo proposital

Referências:

[Legião dos Heróis] A LENDA DE MULAN: A VERDADEIRA HISTÓRIA!
[Wikipedia] Hua Mulan (em português)
[Wikipédia] Hua Mulan (em inglês)
[Wikipedia] Guo Maoqian
[Mega Curioso] CONHEÇA A REAL HISTÓRIA DE MULAN, UMA DAS MAIORES LENDAS DA CHINA
[Aventuras na História] MULAN: A LENDA POR TRÁS DA MAIOR GUERREIRA DA CHINA
[Rainhas Trágicas] A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China, por Renato Drummond Tapioca Neto
[Ancient Origins] The Dramatic True Story Behind Disney’s Mulan
[The Ancient Standard] The Real Story of Mulan
[Epoch Times] Hua Mulan, a lendária e corajosa guerreira
[HQzona] Mulan | Há mudanças que vem para o bem
[Artigo] MULAN: DA CANÇÃO CHINESA À PRODUÇÃO DA DISNEY – POSSÍVEIS DISCURSOS SOBRE GÊNERO E IDENTIDADE (Carla Silva Machado)
[Wikipedia] Anita Garibaldi
[Mega Curioso] CONHEÇA A HISTÓRIA DAS 10 MULHERES GUERREIRAS QUE MUDARAM A HISTÓRIA
[Wikipédia] Mulheres guerreiras na cultura
[Outras Palavras] Os segredos da guerrilha curda contra o ISIS
[BBC] As ex-escravas sexuais que viraram soldadas e estão na linha de frente na luta contra o Estado Islâmico
[Livro] Anita Garibaldi: uma heroína brasileira (Paulo Markun)
[Página do Gaúcho] Aninha assistiu a invasão de Laguna
[Brasil Escola, eBiografia, Mundo Educação, Wikipédia] Maria Quitéria
[Dissertação] O Povo e a Guerra – Participação das Camadas Populares nas Lutas pela Independência do Brasil na Bahia (Sérgio Armando Diniz Guerra Filho)
[Exército Brasileiro] Patronos

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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