Ice Cube e Dfideliz: Preto Rico, Preto Feliz

Ice Cube e Dfideliz: Preto Rico, Preto Feliz

Eu havia dito certa vez de não entender o porquê de quando pretos cantam suas felicidades, vitórias e ostentações não soava algo superficial. Que era sincero o sentimento de sucesso naquelas pessoas. Quando um jovem preto canta sobre carrões, fama e dinheiro, é um genuíno sentimento de alegria, orgulho e conquista que está sendo entoado ali. Sempre me questionava: tá, mas por que  sinto essa sinceridade? Então teve o dia em que minha administradora, Laise Xavier, me disse o óbvio: Resumindo, 400 anos de escravidão. E isso é apenas para início de conversa. Mas o que quero hoje é fazer uma reflexão sobre a felicidade do Jovem Preto a partir de dois artistas. Não será algo profundo na carreira deles, mas sim, nessa temática que ambos abordaram. Hoje, utilizando como estudo de caso Ice Cube e Dfideliz,  vou falar sobre a felicidade do Jovem Preto em nossa sociedade.

It Was a Good Day, 1992

arte do single It Was a Good Day, de Ice Cube
Arte do Single It Was a Good Day
Um dos hinos da minha vida

Uma de minhas músicas favoritas da vida é It Was a Good Day, do Ice Cube. Nessa faixa de The Predator, terceiro álbum da carreira de O’shea Jackson, o eu-lírico canta sobre a alegria de um bom dia. E pra isso não precisou falar de carrões e mansões. Começou falando que o dia amanheceu sem a barulheira dos cachorros, sem neblina e com um café-da-manhã saudável. Uma garota ligou chamando para sair. Logo após ele pega seu conversível e sai pra jogar basquete com os manos. E no meio do caminho, se pergunta: Será que vou sobreviver mais vinte e quatro horas?

arte do álbum The Predator, de Ice Cube
Arte de The Predator
Tem o selo do Amador de Recomendação

É a partir desse questionamento de Cube que eu reflito. Quando essa se torna a primeira preocupação do seu dia, tudo ao redor se torna especial. Quando o sentimento de que a qualquer momento a sua vida poderá ser ceifada, qualquer momento de mínima alegria deve ser aproveitado. E é isso que Cube nos apresenta nessa música: ver TV com os parceiros, ganhar uma rodada nos dados, ter aquela transa há muito desejada, ver que nenhum dos seus amigos foi morto, que você não foi vítima da violência urbana e que você foi para casa no final da noite VIVO! Isso é para ser comemorado e constatado: Hoje foi um bom dia.

A imagem mostra Ice Cube segurando um fuzil Ak-47, com o rapper B-Real no fundo
Ice Cube em destaque. Ao fundo, o rapper B-Real

E por mais que Ice Cube tenha sido um dos primeiros nomes a cantar o gangsta rap, sempre pagando de mau, tal canção vem para ser um respiro e  mostrar para o artista, e para nós mesmo, que o jovem negro não quer essa guerra que é viver sob a pele preta. Ele quer ter paz, quer andar na rua sem ter o medo de ser abordado pela polícia, quer tomar uma breja com os colegas, sair com a namorada. É simples: ter uma vida sem preocupações.

E mais alguém cantou sobre ter uma vida sem preocupações e apenas viver os dias com alegria e sucesso: Dfieliz.

Sou Rock ‘n Roll, 2019

Arte de Sou Rock n Roll, de Dfideliz
Arte de “Sou Rock ‘n Roll”
Felipe, já está na história

Vinte e sete anos depois, em 2019, é lançado “Sou Rock ‘n Roll”, segundo álbum da carreira de Dfideliz. Membro do mais destacado grupo de trap nacional, a Recayd Mob, Dfideliz é, entre os quatro membros (Jê Santiago, Derek e Igu), o mais parecido com o clássico rap de Ice Cube. Enquanto os outros seguem pelas vias estilísticas do gênero, Dfideliz aposta no tradicional para criar sua identidade sonora. Apesar dessa diferença, Dfideliz não perde sua autenticidade ao se aproximar do boombap, clássica batida utilizada por Ice Cube. Na realidade, sinto que ele é um respiro no meio dessa cena.

Sou Rock n’ Roll vem para nos mostrar a felicidade e a satisfação de Dfideliz em chegar onde está. Logo na primeira faixa “Transei com a Morte”, nós já entendemos a totalidade dessa obra. Ele já nos chega dizendo que “transou com a morte e foi tão gostoso”, e no fim dessa faixa  nos diz: “agora eu sei o porquê que à morte existe, não ia ter graça de amar tanto à vida”. Acho que já está bem claro. Alguém que esteve à beira da morte tantas vezes, deve saber reconhecer o suprassumo da vida.

Mas o sentimento de vitória do álbum não acaba aqui. Ele passa por “Axé”, faixa colaborativa com Djonga e Bk’; em “Saudade”, gravada com Kevin o Chris; mas o ápice do sentimento de satisfação de ser um jovem preto e rico acontece após o Interlúdio do álbum.

Após o interlúdio, Dfideliz canta em “Fideliz Cê é Preto Carai” um desabafo sobre todos seu amigos que perderam a vida e liberdade na mão do crime, e como queria que eles estivessem do lado de fora. Após esse turbilhão, ele se acalma e chega com Gaab cantando “Hoje eu Tô Bem”, e é aqui que eu vejo o sentimento de O’Shea. Talvez o mesmo Cube seja muito forte, mas o mesmo sentimento de felicidade e satisfação por estar vivo com certeza. É verdade que a canção se mescla com outra de amor e não é o mesmo sentimento bruto de felicidade que Ice Cube nos apresenta. Mas ainda assim o sentimento de felicidade em ser um preto, bem sucedido, paira por essa canção e por toda a obra desse álbum musical de Dfideliz. Que entrega a felicidade de ser um espelho e mais um negro no topo.

O que quero dizer aqui é…

Quando você entende a realidade desses jovens e como é duro tudo o que eles vivem, tudo o que vem depois disso é lucro. É simples, é rápido e muito fácil de se entender. Quero que toda vez que você ouvir a música de um artista de origens periféricas, e nela ele estiver falando de pagar suas contas, os 20k que faz ao mês e os carrões, não entenda como uma superficialidade.

Quando o jovem artista negro canta sobre isso, veja alguém que conseguiu superar aqueles 400 anos de escravidão e agora põe comida na mesa, e consegue comprar o carro do ano todo ano. E que, se compararmos com coisa de dois anos atrás em sua vida, estavam vendendo amendoins e como disse Dfideliz, outros tipos de corres, infelizmente pegando em um revólver.

Quando ele cantar sobre os plaques e as alegrias de um bom almoço de domingo,  perceba a satisfação que isso carrega. Porque Djonga cantou em “Deus Dará”, com a participação de Cristal:

Eles sempre vão saber o que é ter um carrão

Mas nunca vão saber o sabor da conquista

Acho que você entendeu do que eu estou falando.

Falando de algum lugar no universo - Euller Neves

Estudante de Letras e já orgulhoso futuro professor, amante de literatura e cultura pop em geral, e com um gosto musical que varia de MC Carol a Kraftwerk

Deixe um Comentário