Contos dos Orixás

Contos dos Orixás

Em 2017, um projeto chamou a atenção de muita gente no mundo inteiro: Orixás sendo representados como heróis de quadrinhos! Assim, que falar de Contos dos Orixás?

Olorum, representado por um homem negro e forte, visto do abdome para cima, usando faixas nos bíceps e punhos além de uma coroa dourada, segura em cada mão a metade de uma cabaça. Atrás e ao redor dele, uma explosão de cores (azul, laranja, vermelho, veerde) cobrem o fundo preto e estrelado. vários planetas, estrelas, meteoritos e outros corpos celestes podem ser vistos
A criação, quando Olorum parte a cabaça da existência

Reverência Inicial

Algumas obras vem prontas. Você consome e toda informação que você precisa está ali. Outras você vai curtir, mas se você tiver algum conhecimento prévio é melhor. Existem ainda obras que o conhecimento prévio não é obrigatório, mas essas não são interessantes aqui.

Eu falo isso porque acho importante posicionar de onde parte minha leitura: eu não entendo nada de cultura Yorubá, e muito pouco do candomblé (ou de religiões de matrizes africanas no geral). Ainda assim, é possível fazer um diálogo bacana com esse quadrinho tão incrível, que é Contos dos Orixás.

Segunda página do quadrinho, mostrando os Orixás e sua participação na criação

O projeto

Contos dos Orixás foi idealizado e produzido por Hugo Canuto, artista soteropolitano (meu conterrâneo), com a ideia de popularizar, e ao mesmo tempo resgatar, narrativas de origem Yorubá, que “moldaram” (termo usado pelo próprio) a nossa terra, Bahia. Como descrito pelo mesmo:

Os Contos dos Orixás surgiram a partir de uma convergência de paixões. A primeira delas, pelo legado das civilizações africanas, como a Yorubá, que moldaram minha terra de origem, a Bahia, repletas de tradições ancestrais, representadas aqui pelas histórias dos Orixás, arquétipos milenares de força, coragem, sabedoria e beleza.[…] Também acrescento o encanto pela força narrativa das Histórias em Quadrinhos, linguagem global que reinterpreta os mitos nos dias atuais através da costura entre imagem e texto.

Hugo, em seu Website: https://hugocanuto.com/gallery/contos-dos-orixas-tales-of-the-orishas/

Em 2016, ele preparou uma arte baseada na capa de Avengers #4, utilizando orixás como se fossem os super-heróis, e essa imagem se alastrou como fogo!

Não apenas as posições lembravam o quadrinho da Marvel, como o traço e as cores lembravam bastante o estilo de Jack Kirby, lendário quadrinista da gigante estadunidense. Essa imagem faz uma coisa muito legal, que é misturar religiosidade com cultura pop. Vamos falar um pouco mais.

Religião pop

Bom, ponto pacífico, a cultura pop é cheia de referências religiosas. Diversos filmes, séries, novelas, vão trazer figuras de anjos, demônios, deus, Jesus etc. Aliás, uma das séries mais populares do momento é justamente Lúcifer. Tem jogos como Darksiders, novelas como A Viagem, músicas que vão desde de “Diante do Trono” ao “Rap das Armas” (que já começa com “Fé em Deus! DJ”). Por aí vai. 

Mas é tudo meio “Europa”, né? Tudo meio judaico cristão, pegando um pouco de nórdico, greco-romano, às vezes até um Oriente Médio (oi, Aladdin). Às vezes vem de tão longe que escapam dessa lógica e ganha destaques próprios, como os dragões chineses, referências budistas, mitologias japonesas (sai, Naruto).

Não sei vocês. PARA MIM, falta África nesse bolo.

Claro que aqui no Brasil, até que você vê um pouco mais. Às vezes uma referência em novela, um filme aqui e ali (avoa, Besouro). Música tem bastante, até, principalmente aqui na Bahia, com Margareth, Timbalada e Olodum. Mas ainda falta essa religiosidade estar mais presente na cultura pop. 

Ilustração representando uma capa de quadrinhos de Yemanjá. No topo, lemos "Yemanjá". no topo esquerdo, uma cabeça coroada em azul, com legenda "Janaína comics group". Na direita, um retângulo escrito '02 fev".
Yemanjá está sob as águas, usando armadura com escamas semelhantes às de peixe. Suas vestes são azul e verdes. Na sua mão esquerda ela segura um Abebé. seu cabeço se espalha atrás de si, pelas águas, como tentáculos. Em sua mão direita, uma bolha tem forma de lua crescente. à esquerda da imagem, tem um balão escrito "Odoyá!! Senhora das águas, mãe dos orixás"
Olha como ficou incrível essa representação da Senhora das Águas?

“Mas Fernando, você não é ateu? Pra que que tu quer isso?”

Entendam uma coisa: quando se está numa sociedade cristã, criado cristão, com referências cristãs ao redor, com os três poderes deste país “laico” sendo pensados de forma cristã, aí você satura da religião mesmo. Mas se a gente tá falando de religiões marginalizadas, como as de matrizes africanas, que tem diversos conteúdos que podem ser “consumidos”, como a música, dança, narrativas, imagética e afins, com uma cultura marginalizada, como a dos negros em diáspora, eu não tenho porque reclamar disso. Pelo contrário, tem meu incentivo. Crenças populares são uma fonte riquíssima de narrativas, e é ótimo termos acesso. Mas tô divagando.

Entrevista do Canuto para a revista Trip

Super orixás 

O que Canuto trás não é algo novo. Podemos lembrar do Thor, da Marvel, que é um ser religioso tornado herói (tem o Hércules também), e podemos lembrar do Superman, que não tem um sistema de crenças pregresso, mas é descrito quase como um deus ou semi-deus. O novo, ousado, bacana, foda pra caralho, é ele trazer nesse quadrinho, Contos dos Orixás, narrativas de origem africanas (em contraste às europeias) moldadas num formato de uma história simples de herói. Tem luta, tem poderzinho, tem ação, mistério, mocinhos e vilões, reinos mágicos, inimigos perversos. Mas TUDO no contexto yorubá, e isso é muito foda. 

Quando eu falo tudo, é tudo mesmo. Dessa forma, desde o desenho dos personagens, sempre negros (em tom e em traços), às ambientações, cenários, vestimentas…

Um elemento que chama muito a atenção é a fala. Nomes conhecidos das narrativas do candomblé, por exemplo, são comuns, bem como expressões. E isso é muito legal, porque apesar de trazer um glossário no final, nada vai ser traduzido durante a leitura. Se você (como eu) não está acostumado, prepare-se, porque você vai ficar confuso. Isso é bom, na verdade, porque te instiga a pesquisar e procurar mais sobre esses elementos e termos usados que podem ser incomuns ao seu cotidiano. Pode ter o efeito rebote de a estranheza te incomodar tanto que te faça parar de ler. Mas saia da sua zona de conforto, oxi. Eu hein.

Capa de quadrinho fictíco de Oxum. no topo da imagem, lemos "Oxum". Na esquerda, um selo que possui uma cabeça coroada, com legenda "Iyalóòde comics group". Na direita, um retângulo escrito "08 dez."
Oxum está correndo sobre um caminho de água. uma tromba d'água passa por baixo dela e sobe ao seu redor, emoldurando-a. Ela veste peças douradas nos pés, quadris, torço e braços, além da coroa. Também usa tecidos roxos e azul claro. Tem um rosto sorridente. Possui em sua mão esquerda um abebé. Um balão na parte debaixo da imagem tem escrito "Ore yè yé o. Rainha dos rios e cachoeiras!"
Aff, é de ficar babando essa arte

Contar Histórias para tornar comum

Se você acompanha o site e leu o texto “Nunca nem vi”, ou Por que consumir histórias que não sou público alvo?, então vai lembrar que nele se comenta que narrativas são uma ótima forma de conhecer novos contextos, se acostumar a eles, e aprender com eles. É um pouco da ideia aqui, também. Quem lê Contos dos Orixás e já conhece as narrativas, tenho certeza que vai se emocionar. Achar no mínimo “massa”. Mas quem não conhece nada, vai se ver envolto numa série de informações completamente novas, e que (como é maravilhoso viver aqui), são acessíveis! Vivendo no Brasil, não é tão complicado achar alguém que conheça mais do candomblé, e da cultura Yorubá, e que possa lhe explicar. E, mais importante, pode afastar alguns preconceitos que já tentaram colocar na sua cabeça.

Imagem de quadrinho fictício de Oxóssi. No topo lemos "Oxóssi, o caçador". O orixá está descalço, com trajes cobrindo o quadril e o torço, além de adereços nos braços e pernas, de cor predominantemente verde. Oxóssi está com um arco pronto para o disparo, apontando para cima.
No topo esquerdo da imagem existe um selo com a imagem de um arco e flecha, e está escrito "Ofá - Eruquerê comics group". Na direita, um retângulo com o escrito '20 jan." Na base da imagem está escrito "Okê Arô!!"
Oxóssi, o caçador. É tudo incrível, dá nem graça falar

Defeitos

Claro que tem, tudo tem. Mas são coisas menores, que não vão te atrapalhar na leitura (nem vão contra a qualidade tanto de Contos dos Orixás, quanto de seu autor). Primeiro sobre as cores, que em dados momentos um trabalho mais aprimorado de luz e sombra fariam grande diferença (por exemplo, na chegada da cidade mãe, na visão panorâmica da mesma, p. 51-52 q. 1). Em outros momentos, a movimentação/ação é estranha, como se o movimento indicado pelas linhas guias fosse diferente do que se espera da posição dos personagens (ex.: p. 14 q. 5). Mas isso não acontece em toda a revista, e, de novo, não vai estragar a sua experiência.

Hugo Canuto, segurando microfone em mãos, num fundo preto (provavelmente dando palestra num teatro)
Apresento-lhes o autor!

Reforçando a recomendação

Contos dos Orixás é uma obra excelente, que pode servir tanto como entretenimento simples, como uma porta de entrada para você conhecer novas culturas. Culturas essas bem próximas, se você for brasileiro – mais ainda se for baiano. É um quadrinho que vem sendo usado bastante por professores para divulgar a cultura Yorubá, o que é importantíssimo pois, como o próprio Canuto comenta em seu site, temos a lei 10.639/03, que inclui o tema “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” no currículo escolar.

O quadrinho é, sem dúvida, uma ótima forma de fazer com que os mais jovens se interessem pelo assunto, assim como certamente Rei Arthur, Thor e Musashi já fizeram no passado. Não deixem de ler e, já fazendo um jabá não patrocinado, o próprio Canuto vende o Conto dos Orixás, alguns de seus artbooks, e diversas artes em sua loja na web. Recomendo muito que vocês comprem também os artbooks vol. 1, e de 2019, porque ele é um ilustrador de mãos cheias.

Eu não queria terminar esse texto num clichê, ou com frase feita, mas não tem como: leia e apaixone-se!

Xangô, em trajes vermelhos, sentado em seu trono, próximo à sua arma, o machado de duas lâminas, como visto em Contos dos Orixás
Kábiyèsi, Xangô

Ajudem o Maratona!

Valorizem o trabalho do Hugo, e comprem Contos dos Orixás na própria loja dele. Mas se quiser ajudar o Maratona, paguem um cafezinho pra gente no nosso Ko-Fi, e deem uma olhada nos links abaixo!

[1] A saber, eu uso a palavra Mitologia com o máximo respeito, como uma reunião de mitos. Não estou usando uma conotação pejorativa. 

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

1 Comentário
  1. Responder Pedro Henrique Corujeira Pereira 10 de novembro de 2020

    Me organizando aqui para nesse natal me dar alguma das HQ's dos Contos dos Orixás de presente! Valeu pelo texto e pela recomendação, Ferna.

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