The Half of It e os vários tipos de amor.

The Half of It e os vários tipos de amor.

Paixonite escolar? Sentimentos não correspondidos? A dicotomia entre a garota bonita, e a garota nerd e diferentona? The Half of It vem para nos provar que ainda tem como fazer o  clichê funcionar, sendo divertido, fofo, profundo e real.

Sinopse

The Half of It ou Você nem Imagina, em português, é uma comédia romântica da Netflix que conta a história de Ellie Chu, uma garota que mora em uma pequena cidadezinha chamada Squahamish. Logo no início do filme, Ellie é estabelecida como uma garota inteligente que tornou seu intelecto um negócio, fazendo o dever de casa de seus colegas. A premissa de comédia romântica clichê é estabelecida quando Paul Munsky, colega de colégio e atleta de futebol americano, a procura para que Ellie escreva cartas românticas para a garota que ele gosta, Aster Flores. A reviravolta é: Ellie também possui sentimentos por Aster.

O Paul correu tanto atrás da Ellie que virou um atleta melhor

Se você possui a impressão de já ouviu algo parecido antes, você não está enganado! The Half of It é vagamente inspirado na peça Cyrano de Bergerac de 1897. A peça conta a história do personagem homônimo, um talentoso poeta que é considerado feio por possuir um nariz avantajado. Cyrano é procurado por um homem mais bonito e rico, para escrever poemas românticos para uma beldade francesa, que ambos possuem sentimentos por. Em 1990 um filme foi lançado, rendendo a Gerard Depardieu o Prêmio de Melhor Ator no festival de Cannes. 

Comédia romântica adolescente? Sim!

Nos últimos 3 anos, a Netflix vem se destacando ao tentar produzir comédias românticas, para suprir a adolescente romântica que vive em todos nós, com uma pitada de tempero a mais. Em 2018, ao nos apresentar a história de Lara Jean, em Para todos os garotos que já amei, a Netflix nos apresenta a história de uma garota lidando com a revelação de seus sentimentos quando sua irmã mais nova envia as cartas que ela escreveu para suas paixonites em momentos diferentes de sua vida. Adaptação de um livro, o filme só ocorreu pois a Netflix concordou em fazer o que nenhum outro estúdio quis, manter a protagonista asiática, fez tanto sucesso que recebeu uma sequência, e um terceiro filme já foi confirmado.

Stalkear a pretendente: Não façam em casa!

No mesmo ano, o canal de streaming lançou Sierra Burgess is a Loser, filme que também é inspirado pela peça de Cyrano de Bergerac, onde sua ex nêmesis, Verônica dá o número de Sierra para um Jamey como se fosse o dela. Sierra, por sua vez começa a se corresponder com ele, se passando por Verônica. O filme que traz Shannon Purser no papel principal inova não só na reversão de gênero, mas também por trazer uma protagonista plus size, body positive, que não aceita ser envergonhada por seu peso, e por dar um passo na reconciliação entre as mulheres, retirando-as da posição de conflito. Apesar dos acertos, o filme deixa a desejar por resolver os conflitos num passe de mágica e de forma pouco provável.

Acertando, errando, o importante é que a Netflix continua tentando produzir conteúdo que dê representatividade para públicos que não possuem, buscando novas fórmulas, reinventando antigas e reforçando que representatividade deve ser feita pela normalidade. Contudo, não quero dizer com isso que o canal não tenha cometido erros catastróficos ou ignorar que a representatividade no capitalismo é feita para vender se apropriando de pautas identitárias. Meu ponto é: Numa sociedade consumista, é melhor consumir o que nos representa e normaliza, do que o que nos invisibiliza e ojeriza. 

The Half of It podia ser Poliamor. 

Ellie é um chuchu <3

Seguindo o fluxo de comédias românticas com representatividade, The Half of It reinventa a história de Cyrano não só ao trocar Cyrano por Ellie, mas quando nos presenteia com uma protagonista chinesa. Filha de pai viúvo, Ellie toma para si não só a responsabilidade de cuidar de um pai abalado, como também de cuidar do negócio da família, uma pequena estação de trem. Ellie é profunda e inteligente de um jeito refrescante, habilidosa e sarcástica, a baixinha fofa e raivosa que não leva desaforo para casa. Adorada pela professora, pelo padre, ainda que ateia, e também por outros jovens, quando a oportunidade lhe é apresentada. Ellie é apaixonante.

Falando em apaixonante, The Half of It foi um daqueles filmes que me deixaram pedindo poliamor, por favor! Os três personagens principais são incrivelmente doces. Paul Munsky é o típico gigante adorável. O que lhe falta em inteligência e tato, sobra em um coração puro e doce. Diferindo do estereótipo de atleta, ele não é cruel ou maldoso, pelo contrário, ele defende, compreende e ajuda Ellie a se sentir mais confortável na sua própria pele. Altruísta o suficiente para esconder seu sonho da família para não machucá-los, generoso suficiente para entreter o solitário pai da amiga, maduro o suficiente para amar sem amarras.

Aster Flores, a bicha é bonita viu?

Por último, mas não menos importante, Aster Flores, o belíssimo interesse amoroso de ambos os protagonistas, rompe com o estereótipo de que a menina mais bonita da escola possui a pior personalidade, ela é doce desde a primeira interação. Em Aster, The Half of It brilha novamente, por não se contentar em fazê-la apenas uma garota bonita. Sua existência é complexa, Aster possui sonhos, inseguranças, problemas familiares e econômicos, desejos, dores, e um charme artístico que a separa firmemente do estereótipo. 

 Por que assistir The Half of It? 

Além de inovar na utilização dos clichês de comédia romântica, de romper estereótipos e trazer representatividade como atrativo, The Half of It consegue estabelecer as premissas e fechá-las de forma crível. Durante o filme, todos os elementos postos são resolvidos de forma satisfatória, nenhuma solução é mágica, operada pelo poder do amor. The Half of It é real e despretensioso, por não querer ser nada mais do que é, um filme adolescente sobre amor.

Tudo que eu queria dessa cena era um beijão de novela!

Amor, que não é só romântico, não é só platônico, mas também é amizade, é amor familiar. The Half of It se dedica a mostrar que outros tipos de amor existem, e são tão importantes quanto o amor romântico. As conexões formadas entre os personagens principais acabam permeando e modificando suas vidas, a cada atitude generosa e corajosa que um desses adolescentes toma, eles motivam os outros de uma forma ou de outra. Durante o filme é possível ver o amadurecimento de Ellie ao deixar a sua concha, Paul, ao se abrir para sua família, e Aster ao seguir seus desejos.

Além do foco nas conexões e amadurecimento pessoal, The Half of It é o tipo de filme que quando termina você fica com o coração quentinho. É reconfortante ver um bom enredo executado de forma doce e real. Nada deixa a desejar; A trilha sonora da série não deixa a desejar, misturando músicas novas e sucessos antigos; As locações utilizadas são bonitas e pitorescas, passando o clima de cidade pequena que ambienta bem a trama, e torna a fotografia algo singelo e delicado.

Taco Sausage vai pegar!

The Half of It estreou na Netflix, no dia 1 de Maio. É um filme dirigido e roteirizado por Alice Wu, uma diretora já conhecida nas comédias românticas por Saving Face, filme de 2004, que também possui temática LGBT e também trata de uma protagonista chinesa. O elenco conta com Leah Lewis como Ellie, Daniel Diemer interpretando Paul e Alexxis Demire como Aster, além dos já conhecidos: Catherine Curtin, Enrique Murciano e Becky Ann Baker em papéis de suporte. 

Por causa do formato já conhecido e utilizado, comédias românticas acabam por repelir os mais aficcionados por cinema, e por atrair uma outra parte de consumidores de entretenimento. Leveza, doçura, profundidade são as apostas de The Half of It, para conquistar o telespectador. Funcionou bastante comigo. E você já assistiu? Comenta aqui pra eu saber o que você achou. Como sempre, espero que vocês estejam seguros, e tenham gostado. Um beijo enorme e até mais!

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

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