David Lynch #04 – Veludo Azul

David Lynch #04 – Veludo Azul

Continuando nossa série chegamos ao quarto filme de David Lynch. Veludo Azul, lançado em 1986, é uma viagem onírica repleta de mistério, erotismo e perversão. Um mergulho freudiano na psique de alguns dos personagens mais interessantes criados pelo artista.

Sinopse oficial

Detalhe poster oficial

Rapaz volta à cidade natal após longo tempo e descobre uma orelha humana decepada em um jardim. Insatisfeito com a investigação policial, ele e a filha do detetive encarregado começam a averiguar por conta própria, e descobrem coisas estranhas.

Um coming of age noir

Primordialmente Veludo Azul é, um filme sobre tornar-se adulto, amadurecimento. Temos aqui um jovem, Jeffrey (Kyle MacLachlan), que retorna a sua cidade natal após problemas de saúde do pai. Todavia Jeffrey se envolve em uma trama de mistério, violência e sexo. Aparentemente ele não está tão preparado para as situações em que acaba envolvido. Mas ele segue em frente, entrando cada vez mais na sujeira das circunstâncias e deixando para trás o que lhe restava de inocência.  

Mas para além de ser um filme sobre jovens tornando-se adultos, esse é um típico filme noir. Todos os elementos arquetípicos estão aqui, uma trama envolvente, um mistério a ser desvendado, um investigador voraz, uma mulher sedutora e perigosa. Contudo, além dos elementos narrativos, elementos visuais também se fazem presentes. A noite é muito soturna, obscura, as sombras aqui são quase personagens.

Um olhar no submundo

É recorrente em obras de Lynch esse interesse em explorar camadas mais sombrias da sociedade. Ou lançar um olhar sobre o que está oculto por trás das aparências. Nesse sentido, em Veludo Azul, Lynch se debruça sobre a perversão que se esconde no submundo de uma pequena, bela e, aparentemente, perfeita cidadezinha. Lumberton nos é apresentada como tão perfeita, solar, colorida, que chega a ser surreal. Mas ainda nos primeiros momentos do filme o diretor corta da cidade perfeita, para um adentrar nas sombras que nos mostra um monte de besouros, uns sobre os outros, se devorando.  Lynch é um artista altamente simbólico e adora usar essas alegorias e metáforas. Com essa cena ele nos diz de cara que por trás da aparente perfeição, o que vamos acompanhar nessa história é um submundo sombrio, sujo e violento. 

O antagonismo simbolico de Sandy e Dorothy

Sandy e Dorothy operam como representações alegoricas dos dois mundos paralelos que coexistem em Lumberton

Sandy (Laura Dern) e Dorothy (Isabella Rosselini) são personagens operantes dentro da narrativa, mas além disso são personificações diametralmente opostas dos dois mundos que nos são apresentados nessa história. Enquato Sandy é a garota virgem, solar, princesa, a moça socialmente bem quista e aceita. Dorothy é a mulher da noite, sensual e depravada. Toda a trama em torno dela envolve sexo e violência. Seu apartamento é ambientado quase como uma dimensão paralela, carregado de erotismo e perversão. Se quisermos lançar um olhar psicanalítico sobre a relação de ambas com Jeffrey, podemos pensar que Sandy está dada ao Superego do protagonista, enquanto Dorothy está ao Id.

Jeffrey e Frank

Dennis Hopper rouba a cena como um dos vilões mais iconicos da história do cinema

Frank  (Dennis Hopper) é, possivelmente, o melhor vilão já criado por David Lynch. Ele é inescrupuloso, nojento e ameaçador. É bizarramente (e encantadoramente) pervertido. A atuação de Hopper é caricata e exagerada, quase teatral, cheia de maneirismos. Contudo é extremamente convincente, carismática e operante.
Jeffrey é o protagonista da história,  primeiramente como um garoto curioso, meio bobo e com o decorrer da história se descobre e se transforma. Certamente é uma das melhores evoluções de personagem em filmes desse diretor.

Protótipo de Twin Peaks 

Entendo Twin Peaks como a grande obra da carreira de David Lynch. Também é meu trabalho favorito do diretor. E enquanto assistia Veludo Azul  me era recorrente a percepção de que muita coisa ali parecia Twin Peaks. Principalmente a ambientação. Uma cidade pequena, onde todos se conhecem, e parece estar tudo bem nas aparências, mas que na verdade, tem um monte de sujeira obscura acontecendo por trás de tudo. Um mistério a ser desvendado. Bem como até mesmo alguns elementos visuais, como a floresta, caminhão carregando tronco de árvores, a lanchonete  onde os personagens comem, um pássaro. Tudo me lembrou muito Twin Peaks. Além do que já foi citado a trilha sonora de ambas as obras é de autoria de Angelo Badalamenti.

Por fim

Veludo Azul é um ótimo filme. Certamente uma das obras mais significativas e distintas na carreira de David Lynch. É um filme sobre a autodescoberta do tornar-se adulto. Sobre a perversão que se esconde por trás das aparências. É um mistério cheio de simbologia e erotismo, envolto por uma suave camada estética de onirismo. 

Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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