O Homem Elefante é uma fábula perversa sobre o bem e mal que habita em cada um de nós.
Seguimos nossa série David Lynch com o segundo filme do diretor.
Sinopse
John Merrick (John Hurt) nasceu desfigurado e parecia estar condenado a uma triste existência como atração de um show de aberrações. Porém, um cirurgião londrino (Anthony Hopkins) o introduziu à sociedade. Apesar de suas dolorosas experiências, Merrick é gentil e inteligente e se torna convidado frequente nos salões vitorianos, mas precisa cobrir totalmente as feições deformadas.
Uma história real

Lançado em 1980, esse é um drama histórico/biográfico que conta, de forma romantizada, os últimos anos na vida de Joseph Merrick, um homem que viveu na Inglaterra do século XIX. Joseph foi postumamente diagnosticado com síndrome de proteus, uma doença que lhe afetou do desenvolvimento do corpo, gerando uma série e tumores em sua pele. Em sua contemporaneidade acreditava-se que Joseph tivesse elefantíase, doença que já era conhecida na época. Daí a infame alcunha de Homem Elefante.
O roteiro aqui é uma colaboração entre David Lynch, Christopher De Vore e Eric Bergren. Tendo duas obras como base, The Elephant Man and Other Reminiscences, escrita pelo médico Frederick Treves( que tratou de Merrick e nesse filme é interpretado por Anthony Hopkin) e The Elephant Man: A Study in Human Dignity, do antropólogo Ashley Montagu.
Sucesso de crítica
Essa certamente é uma das obras de Lynch que mais agradaram a crítica. Foi indicado em 8 categorias no Oscars: Melhor Filme, Direção, Ator, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Montagem, Direção de Arte e Figurino. Não venceu nenhuma delas, porém ainda assim é um reconhecimento significativo. Além disso John Hurt recebeu BAFTA de Melhor Ator.
O lugar dessa obra na filmografia do diretor

Esse é um dos filmes mais distintos na filmografia de David Lynch. Esse diretor notabilizou-se ao longo sua carreira com obras surrealistas, ilógicas, bizarras, muitas vezes flertando com o horror. Esse filme tem pouco disso. As cenas de abertura e encerramento, e uma cena de sonho no meio do filme, dão conta de uma dimensão surreal, no entanto é só isso. Esse é seu filme mais lúcido, sóbrio e formal. É uma direção contida, bem discreta, muito focada em contar uma história e não em criar uma experiência estética, comum em grande parte das obras desse diretor.
Temos aqui o elemento fabril/industrial, que está presente em várias obras de Lynch. Essa uma questão que ainda não consegui decifrar dentro da mitologia imagética do diretor.
É muito curioso, e totalmente inesperado, pensar que o realizador de Eraserhead tem como filme seguinte uma drama histórico/biográfico.
O problema da sociedade do espetáculo

Sociedade do Espetáculo é um conceito da filosofia pós-moderna, criado por Guy Debord. É uma crítica à sociedade de consumo capitalista, e como as pessoas consomem imagens, a espetacularização da vida. Isso é uma definição rasa, contudo dá conta de um entendimento breve do conceito. Conceito esse que nos é muito caro para pensar alguns elementos desse filme.
A espetacularização do infortúnio/desgraça de Merrick é um dos pontos chave dessa obra. O protagonista é exposto em um circo, um show de aberrações, totalmente desumanizado. Após ser resgatado pelo médico, sua exposição continua, agora muito mais limpa e erudita, como um estudo de caso médico, mas ainda assim uma exibição.
Esse tema é extremamente atual, principalmente quando projetamos isso em nosso país. Há pouco tempo um programa na TV aberta fez no ar o anúncio à uma mãe da morte de sua filha. Claro que colocar uma pessoa doente, com deformidades físicas em uma jaula e expor isso é inicialmente mais impactante. Entretanto em essência é a mesma coisa, lucrar com o sofrimento alheio.
Ainda sobre como consumimos o sofrimento alheio como entretenimento, é interessante pensar uma obra do filósofo Jacques Rancière. Em O Espectador Emancipado, obra que trata do regime de produção e consumo de imagens, temos um capítulo chamado A Imagem Intolerável, onde o autor faz uma grande reflexão sobre imagens de dor, violência e sofrimento. Segundo Ranciere essas imagens deveriam ser intoleráveis, não deveria existir entretenimento e beleza na dor, e violência. O grande consumo dessas imagens faz com que percamos a dimensão da gravidade do que está sendo exposto, e nos acostumemos, passemos a encarar com normalidade toda a barbárie que deveria ser repulsiva em uma sociedade saudável. Exemplo disso é pensar no genocídio da população negra aqui no Brasil, a notícia “um jovem negro foi morto pela polícia” não causa nenhum impacto, pois já vimos isso tantas vezes que já é algo normal.
Nesse sentido O Homem Elefante ainda continua sendo uma obra muito potente e pertinente.
Uma expressão do bem e mal

Essa é uma obra que reflete muito sobre bem e mal. O mal aqui é significado na forma como Merrick é tratado por sua aparência, seja pelo público geral, ou por personagens específicos como seu tutor/explorador Bytes (Freddie Jones). E esse mal é super potencializado pelo bem puro encarnado em Merrick. A primeira vez que assisti esse filme fiquei chocado em como foi possível construir uma imagem de bondade tão poderosa. Merrick é amável, genuinamente inocente e atencioso. E as maldades só funcionam tão bem pois são infligidas e esse personagem tão bondoso. Essa dicotomia de bem e mal é atravessada pelo personagem de Anthony Hopkins, que começa sendo alguém com intenções duvidosas e questionáveis, e com o decorrer do filme vai se transformando e ganhando uma nova carga de sentidos.
Um filme marcado por interpretações memoráveis

De todos os filmes que já assisti nenhum tem um elenco tão bom quanto esse. Desde o figurante com uma linha de texto até os protagonistas, todos são extremamente bons e críveis. Vale lembrar que David Lynch não é um grande diretor de atores, ele é brilhante em criar atmosfera, mas conduzir interpretações nunca foi seu forte. Então de fato é uma escolha de elenco perfeita.
Dentro desse grande elenco é preciso destacar as atuações dos protagonistas.
Hoje todos sabemos o quão genial é Anthony Hopkins, todavia em 1980 isso ainda não era um consenso. O que ele faz aqui é lindo, seu personagem começa muito ambicioso e cheio de vaidade, conforme interage com Merrick vai se tornando mais empático e humano. A cena da primeira vez em que Frederick vê Merrick é muito marcante, close no rosto do ator, expressão de incredulidade, olhar de dó e encantamento

John Hurt, mesmo coberto por uma pesada camada de maquiagem, cria um dos personagens mais amáveis da história o cinema, seu Merrick é a personificação da bondade, inocência e gentileza. Além de todas as nuances citadas, essa também é uma interpretação muito física. A voz trêmula e doce, a respiração dificultosa, o corpo desequilibrado, constroem uma das atuações mais comoventes já realizadas.
ATENÇÃO: PERCEPÇÃO REQUER ENVOLVIMENTO
Evoco aqui a obra de Antoni Muntadas para sinalizar da necessidade que esse filme tem de atenção e predisposição do espectador. Ao menos essa foi a experiência que tive assistindo essa obra. Na primeira vez que assisti acabei me distraindo com o mundo externo, e achei o filme muito lento e cansativo. Parte disso vem da expectativa criada por outras obras desse diretor, esperava algo irreal, extravagante e experimental. Esse essencialmente é um drama histórico, ponto muito fora da curva na carreira de Lynch. Na segunda vez que assisti investi atenção total, sabendo que não era o filme que outrora esperava. Nesta segunda vista consegui absorver muito mais, ser tocado pelo drama que ali estava exposto. O Homem Elefante é um filme cheio sutilezas, tanto nos diálogos quanto nas cenas. Nesse sentido é imprescindível que o espectador esteja engajado na ação de assistir o filme e prestar muita atenção no que é dito e mostrado.
Por fim

Essa é uma obra única na carreira de David Lynch. Mostra toda competência do diretor filmando de forma convencional. É um filme dramaticamente carregado, triste, entretanto muito poético. Com atuações inesquecíveis, e um personagem tragicamente maravilhoso. A cena final é de uma sutileza e maestria poucas vezes vista.
O Homem Elefante é uma fábula perversa sobre o bem e mal que habita em cada um de nós. É extremamente reflexiva e, mesmo com todo mal posto alí, é edificante.
[…] E aqui é importante recomendar o ótimo documentário Duna de Jodorowsky, que mostra a primeira tentativa de adaptação para o cinema. Os direitos da adaptação foram comprados em 1970 por uma produtora francesa. O projeto liderado criativamente Alejandro Jodorowsky tramitou por quase uma década, em meio a grande conflito entre artistas e produtores. Jodorowsky abandonou o produção, que foi assumida por Ridley Scott. Scott também desistiu e já não havia mais tempo para realizar o filme. Os direitos de adaptação expiraram no início dos anos 80 e foram adquiridos pelo produtor italiano Dino de Laurentiis. Laurentiis não perdeu tempo, e logo contratou Lynch, jovem diretor que havia sido aclamado pela crítica por O Homem Elefante. […]