Neil Peart – 1 ano sem um baterista fenomenal

Neil Peart – 1 ano sem um baterista fenomenal

Neste dia 07 de janeiro de 2021, completa-se 1 ano sem Neil Peart. O baterista fenomenal da banda canadense Rush faleceu ano passado, um ano marcado por significativas perdas. Neil foi vítima de um câncer cerebral, o qual vinha tratando desde 2017. Existem poucas unanimidades no mundo, mas uma das poucas é a de que Neil era um dos melhores bateristas do mundo.

Peart havia se aposentado das baquetas após a última turnê do Rush em 2015 devido a problemas de tendinite crônica e constantes dores nos ombros e na coluna, além de uma grave infecção nos pés. Logo depois, seus companheiros decretaram que a banda havia encerrado de vez suas atividades. Porém, o mundo apenas soube de seu câncer depois de sua morte. Neil sempre foi uma pessoa extremamente reservada.

Baterista fenomenal e leitor voraz

No documentário “Rush: Além do Palco Iluminado”, Geddy Lee, baixista e vocalista da banda Rush, diz que observara que Neil era um leitor voraz. Ele pensou então, que se Neil lia tanto, deveria então escrever bem. Assim, o baterista acabou tornando-se o principal letrista das músicas da banda. Os temas abordados por Neil eram constantemente tão profundos e diversificados quanto suas influências, que iam de ficção científica a poesia e filosofia.

baterista fenomenal
Neil e sua ferramenta de trabalho.

Apesar de ter sido baterista de uma das maiores bandas da história do rock, poucos fãs realmente tiveram a chance de conhecer ele fora dos palcos. Da mesma forma também com fãs famosos. Neil era uma pessoa extremamente tímida que, segundo o próprio, “não sentia-se confortável conversando com pessoas estranhas como se fossem amigos”. Sobretudo ele também sentia-se constrangido quando alguém exaltava demais suas habilidades como baterista. Por isso, dificilmente ele dava entrevistas ou participava de eventos “Meet & Greet”.

O baterista Mike Portnoy, fundador da banda Dream Theater declarou sobre sua amizade com Neil: ““Sou muito grato e me sinto muito sortudo por ter tido a oportunidade de ter um relacionamento desse com ele, porque eu sei que poucas pessoas tiveram isso. Foi uma honra ter tido esse relacionamento nos últimos 15 anos.”

O cara novo

A banda Rush foi formada em 1968, ao passo que seus integrantes eram apenas adolescentes. Geddy Lee, filho de imigrantes poloneses sobreviventes do holocausto, juntou-se ao guitarrista Alex Lifeson, filho de imigrantes sérvios e o baterista John Rutsey, que saiu da banda logo após a gravação do primeiro disco em 1974. Logo depois Neil entrou em seu lugar e passou a ser “o cara novo”. Segundo Geddy Lee, era assim que eles o chamavam até o final da banda.

Neil Peart
Neil quando se juntou ao Rush. Fonte: Fin Costello/Redferns/Getty Images

Lançaram de forma independente o primeiro disco que não mostrava ainda uma consistência musical, apesar de conter o clássico Working Man, que figurava nos setlists da banda até o fim. À primeira vista, a sonoridade do Rush era bastante influenciada pelo hard rock e blues do Led Zeppelin. Nesse sentido a banda inclusive foi apelidada de “Led canadense”. Porém, com a entrada de Neil, a banda mudou totalmente o som e assumiu uma identidade própria mais próxima do rock progressivo. Posteriormente, nos anos 1980, a banda flertou também com o reggae, ska, new wave e muitos. sintetizadores. Definitivamente, muitos sintetizadores.

A superação de um baterista fenomenal

Posteriormente, a banda quase acabou em 1998 devido a uma tragédia pessoal de Neil. Eventualmente sua filha única Selena Taylor faleceu aos 19 anos em um acidente de carro no mês de agosto de 1997. Logo depois sua esposa Jacqueline Taylor foi acometida por um câncer e faleceu em junho de 1998. Logo Neil ficou devastado e decidiu que se aposentaria da música. Em suma sua vida havia perdido sentido. Afinal de onde ele tiraria forças para superar duas perdas tão profundas em tão pouco tempo? 

Por fim Neil decidiu encarar o luto em cima de duas rodas. Em síntese, o músico, que era apaixonado por motos e amava viajar pelas estradas durante as turnês do Rush, pegou sua moto e viajou sem rumo pelas estradas do Canadá, chegando aos Estados Unidos e México. Ao passo que depois de 14 meses em uma viagem que foi do Québec ao Alasca e descendo pelos Estados Unidos até o México, Neil viajou por mais de 90 mil quilômetros, tentando encontrar uma razão para viver. Bem como um motivo para continuar em frente. Tal qual buscava uma resposta a suas angústias. Frequentemente ele enviava cartões postais a Geddy e Alex dos lugares em que ele ia para que os amigos ficassem tranquilos sobre sua segurança.

Motos
Neil e uma de suas paixões: Viajar de moto. Foto: Holly Carlyle.

Livros

Anteriormente Neil já havia escrito um livro sobre uma viagem de um mês que ele havia feito de bicicleta nos Camarões em 1988. Assim também, em 2002, ele lançou o livro “Ghost Rider – A estrada da cura” sobre sua jornada de como ele conseguiu com muita batalha lidar com o luto e preencher o vazio que sua vida havia se tornado. 

O livro, assim como outros seus subsequentes, são sempre ligados ao tema da viagem, algo que ele gostava muito, especialmente em uma moto. Ler o livro é uma experiência única, pois através de uma escrita envolvente, nos sentimos parte da jornada de Neil, acompanhando-o em suas dúvidas, medos, anseios e também alegrias, descobertas, memórias surpresas. Ou seja sentimos seu drama e nos identificamos com ele.

baterista fenomenal quando bebê
O bebê que viria a ser um baterista fenomenal e um dos maiores do mundo.

Retorno à música

Em 2000, Neil casou-se com a fotógrafa Carrie Nuttall, com quem teve uma filha em 2009. Em 2002, este baterista fenomenal voltou à música e para a banda Rush. No mesmo ano, foi lançado o disco Vapor Trails, cuja turnê trouxe a banda pela primeira vez ao Brasil, passando pelas cidades de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, cujo show no estádio do Morumbi registrou o maior público de um show do Rush, excluindo festivais: 60 mil pessoas. Já o show no Rio de janeiro tornou-se o CD e DVD Rush in Rio.

ingresso
Meu ingresso para o show do Rush no Rio de Janeiro em 2002.

Durante alguns dias de folga entre shows, Neil resolveu desbravar as estradas do Brasil e foi de São Paulo ao sul do país, passando pela Argentina e o Chile. A aventura foi completa, quando Neil e um amigo se perderam no interior de Santa Catarina.

A banda na época decidiu que Neil evitaria participar de qualquer conferência, entrevista ou eventos promocionais do grupo e Geddy e Alex nunca falariam sobre a tragédia ocorrida na vida de Neil anos antes. As exceções mais célebres foram quando a banda homenageou a série animada South Park pela marca de 200 episódios. A banda é fã da série, mesmo sendo o Canadá um dos maiores alvos de piadas do desenho, inclusive a própria banda.

Rush cartoon
A banda representada no desenho South Park.

Senso de humor

Eles também participaram de um curta-metragem com os personagens do filme “Eu te amo cara”. Na história o personagem de Jason Segel consegue passes para o camarim de um show do Rush como presente de aniversário para o personagem de Paul Rudd. O filme faz piadas com vários estigmas em relação a banda como uma suposta rabugice de Neil Peart e uma folclórica ausência de mulheres em seus shows.

Neil também apareceu com seus companheiros no evento de indução do Rush ao Hall da Fama do Rock em 2013. Neil falou sobre a importância do reconhecimento do trabalho deles como forma de inspiração para os jovens que sonham em trabalhar com música e exaltou a importância de estar cercado pelas pessoas importantes da família, amigos e parceiros de trabalho. No oposto do jeito mais profundo do discurso de Neil, Alex fez um discurso totalmente nonsense, onde ficou apenas repetindo as palavras blá, blá, blá. Segundo ele, uma forma divertida de apresentar a surpresa deles ao serem induzidos.

Nunca parando de aprender

Neil sempre foi uma pessoa movida a paixões. A sua pela bateria o motivava a buscar cada vez mais por uma evolução e aprendizado. Apesar de gozar de um grande prestígio no mundo musical, ele nunca parou de estudar e se aprimorar no instrumento. Em 1994, ele se tornou aluno do baterista de jazz, Freddie Gruber (que tocou com Charlie Parker) para incorporar do swing e jazz no seu estilo. Ele produziu inclusive um disco tributo ao baterista Buddy Ricch: “Burning for Buddy”.

Em 2007, Neil se tornou aluno de outro grande baterista de jazz, Peter Erskine. Quando perguntado porque ele continuava estudando, ele respondeu: “O que é um mestre senão um estudante? É preciso aprimorar e explorar as possibilidades em sua profissão. Estou nessa posição e certamente não a subestimo. Consegui ser um baterista profissional. Consequentemente, há a responsabilidade de me dedicar a isso o tempo todo, mesmo quando não estou em turnê. Preciso me manter em forma. É uma alegria e sou grato por isso”. Apesar de ser um baterista extremamente habilidoso, Neil nunca foi um baterista exibicionista ou exagerado. Ele sempre buscou fazer tudo dentro da medida. Nem demais e nem de menos. Já em seus solos, Neil mostrava todo seu repertório de baterista fenomenal de uma vez.

O legado de um baterista fenomenal

O legado de Neil Peart vai muito além das grandes letras e livros que ele deixou. Mais do que isso, ele deixou lições importantes de vida: Por exemplo, como não se contentar com as atribuições de papéis tradicionais na sociedade. No caso dele, ele foi um dos primeiros bateristas a ter alguma importância criativa em uma banda de rock. Mas isso pode ser pensado em qualquer aspecto social e cultural da vida de uma pessoa. Não se contentar com um papel apenas. Experimentar novas aspirações.

baquetas
Neil em ação.

Ignorar as críticas negativas também foi algo extremamente importante para o sucesso do Rush. Apesar de ter tido sempre uma legião de fãs fiéis, a banda sofreu com muito descrédito por parte da crítica especializada ao longo dos anos. Isso nunca impediu que eles fizessem sempre o que queriam.

A timidez excessiva de Neil também mostra que não é necessário ser a pessoa mais extrovertida do mundo para ser um músico de sucesso. Sua paixão por leitura também mostra como esse hábito pode estimular a criatividade, visto que ele fez letras extraordinárias. Por fim, Neil mostrou que é importante nunca parar de aprender na vida.

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Neil com sua primeira bateria em 1969.

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

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