Editorial – Chadwick Boseman

Editorial – Chadwick Boseman

Chadwick Boseman foi (é) um grande ator afro-americano, que infelizmente nos deixou no dia 28 de agosto, após uma luta silenciosa contra o câncer por 4 anos. Vale voltar e relembrar um pouco de quem foi ele.

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Mini-Biografia

Chadwick nasceu em Anderson, Carolina do Sul (Estados Unidos), em 1976. Filho de enfermeira (Carolyn Boseman) e trabalhador de indústria têxtil (Leroy Boseman). Sua ascendência remonta dos povos Yorubá da Nigéria, Limba e Mende de Sierra Leone, e Jola de Guiné-Bissau [1][14]. Sobre seu nome, ele disse [1]:

“Na verdade eu não sei porque minha mãe escolheu Chadwick – É um nome estranho prum homem negro”

“Chad” Boseman

Ele conclui o ensino médio (highschool) em 1995, e ainda nesse período escreveu sua primeira peça, Crossroads, baseada na história de um amigo baleado. Ele jogava basquete bem o bastante para ser chamado para o time da escola, mas o acontecimento com o seu amigo o levou, em luto, a escrever a peça. E ali, ao dirigir e encenar, ele se deu conta que sua paixão era por contar histórias.

” De repente, jogar basquete não era mais tão importante”

Início de Carreira

Fez faculdade na Howard University (Washington, EUA), onde se formou em Belas Artes em 2000. Howard é conhecida por ser uma universidade majoritariamente composta por alunos negros, e nela, influências negras fervilham. Lá ele conheceu Phylicia Rashad, que veio a ser sua mentora. Ela foi uma das responsáveis por arrecadar fundos para que ele, e alguns colegas, pudessem estudar no programa de verão da British American Drama Academy, em Londres. Na época, nenhum deles tinha grana necessária para a viagem e para os estudos. Dentre os financiadores do projeto, um se destacou: Denzel Washington. Chadwick viria a dizer, num discurso (Vídeo abaixo): “Não existe Pantera Negra sem Denzel Washington”.

Em Londres, ele estudou os clássicos, como Shakespeare, Beckett, Pinter.

“Mas eu sempre senti que escritores negros eram tão clássicos quanto […] Era tão difícil de fazer quanto August Wilson, e a história que ele contava era tão épica quanto” 

Palavras próprias:

“Eu comecei como escritor e diretor. Eu comecei a atuar porque eu queria saber como me relacionar com os atores. Quando pessoas me perguntam o que eu faço, eu não digo na real que eu sou ator, porque atores geralmente esperam por alguém que lhes dê papéis”

De volta aos Estados Unidos, ele se graduou na Digital Film Academy, em Nova York. No período, ele se envolve com a cultura hip-hop do Brooklyn e, para pagar as contas, começa a dar aulas de teatro. A partir daí ele já começa a fazer papéis reconhecidos pelo grande público.

TELEVISÃO E CINEMA

Seu primeiro papel na TV foi em 2003, em “Parceiros da Vida” (Third Watch), uma série estadunidense sobre profissionais do “terceiro turno” (noturno), como bombeiros, policiais e paramédicos. No mesmo ano, faz um papel na novela “All My Children”, do qual foi demitido por discordâncias a respeito dos estereótipos racistas presentes no roteiro.

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Também nesse período, fez papéis em “Law and Order”, “CSI: NY” e “ER” (Plantão Médico). Não parou de escrever, sendo indicado ao Joseph Jefferson Award, prêmio de artes cênicas produzidas na área de Chicago, pela peça Deep Azure.

Em 2013 ele fez seu primeiro papel como protagonista. No filme “42” ele interpreta Jackie Robinson, primeiro homem negro a jogar na Major League Baseball dos Estados Unidos. Ainda em 2013 ele estrelou um filme indie, “The Kill Hole”.

Em 2014 ele fez “A Grande Escolha” (Draft Day), com Kevin Costner, e, no mesmo ano, mais um papel biográfico. No filme “Get on Up: A História de James Brown”, ele interpreta o personagem título, famoso pela sua potência vocal, suas músicas envolventes, e sua vida autodestrutiva. 

2016 foi um ano de altos e baixos. No ponto baixo, ele interpretou o Deus Thoth, no polêmico “Deuses do Egito”, que…

Tá, vamos ser honestos aqui. O filme era uma bosta. Primeiro, por ser de fato, muito ruim. Segundo, por ser um embranquecimento DESCARADO. Como assim, um filme sobre deuses egípcios, deuses africanos, com um monte de europeu e australiano, e só ele, Chadwick, de negro? Não faz sentido algum! Chad (meu parça) foi questionado sobre isto, e ele disse que entendia o problema, mas justamente por isso aceitou o papel. Senão, não haveria NENHUM negro em cena. E completou “Pessoas não fazem US$140 milhões com filmes estrelando pessoas negras e de cor” [1]

Por nossa sorte, ele estava errado.

PANTERA NEGRA

Origem do personagem

No mesmo ano de 2016, ele faria uma participação no filme da Marvel, Capitão América: Guerra Civil, onde interpretou o papel que lhe projetou ao ápice: Pantera Negra. Essa é o alter-ego de T’challa, príncipe do reino fictício de Wakanda, que existiria oculto no coração do continente africano. Mesmo não sendo protagonista, seu papel é fundamental para o filme, e chamou a atenção para muita gente de que, sim, existem super-heróis negros!

Pantera Negra foi criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby, dois homens brancos e autores de quadrinhos para a Marvel. Anos antes, em 1963, os mesmos autores tinham criado os X-Men, grupo de super-heróis que não eram bem vistos pela sociedade – pelo contrário, eram estigmatizados como estranhos, e uma ameaça. X-Men foi, e é, palco para abordar diversidades sociais múltiplas, contando com personagens negros, mulheres, asiáticos, indígenas, pessoas com deficiências e afins. Ainda assim, era uma ousadia muito grande fazer um Super-Herói preto, de origem africana e que, ao contrário do estereótipo popular, não veio da fome e da miséria, mas sim de um reino rico, escondido, e muito mais avançado do que o resto do planeta poderia esperar. Pantera Negra foi (e é) muito importante na construção do imaginário para jovens (e adultos, porque não) negros não só nos Estados Unidos, mas em todo lugar que esses quadrinhos alcançaram. Pois mostravam que sim, existem outras possibilidades, outras alternativas, do que estamos acostumados a ver na mídia. Negros podem, sim, ser heróis!

Ilustração do Pantera Negra nos quadrinhos. Personagem que seria interpretado por Chadwick

Repercussão

Chad teve acesso aos quadrinhos do Black Panther ainda em Howard. 

“Numa faculdade historicamente negra, você acaba ligado em todas essas coisas – o panteão de nossa cultura. […] É John Coltrane, é James Baldwin. E é Pantera Negra”.

Para a surpresa de muitos, o filme de Pantera Negra, que estreou em 2018, arrecadou não 140 milhões, mas 200 milhões! E foi um divisor de águas em diversos sentidos. Ao contrário dos quadrinhos, ele não foi o primeiro super-herói negro a surgir em telas. Blade, por exemplo, já estava em cena em 1998 com Wesley Snipes. Mas Blade era um anti-herói. Era um vampiro. E não tinha todo o alcance que o Universo Cinematográfico da Marvel tem. Dessa série de filmes, ele também não foi o primeiro herói negro a aparecer em cena (já tínhamos visto o Máquina de Guerra, e o Falcão), mas foi o primeiro a ser protagonista, e a dar nome a um filme. Também, foi recordista em seu lançamento, tendo uma bilheteria de abertura de 165 milhões de dólares, na época só inferior à Vingadores. Numa lista de 2019, ele aparece como o 5º filme com maior bilheteria do MCU, atrás apenas dos outros 4 Vingadores lançados.

Foto em close de Chadwick, vestido de Pantera (mas sem a máscara), com o rosto encarando as mãos

IMPORTÂNCIA DE PANTERA NEGRA PARA O MARATONA

Como começamos

Outros artistas e figuras cinematográficas em geral já faleceram, desde o surgimento do Maratona (2017) até o presente momento, e não receberam um texto em homenagem. Mas existem algumas razões para isso.

O Maratona surgiu como um spin-off do Peixinho Geek, site de Iza (que não está mais no ar). Era um site dedicado principalmente à livros, mas com o aumento da cobertura de lançamentos de filmes, foi se dedicando cada vez mais a este tema, e foi melhor que isso se tornasse um projeto separado. Desde o princípio havia no site a ideia de que fosse aberto para a exposição de ideias sobre os conteúdos abordados, então sempre fizemos textos muito longos. 

Mas era raro que se fizesse contextualização, e que se escrevesse um texto que trouxesse contexto histórico, social e tudo o mais. Nesse sentido, houve textos-debate, como o “Não é racismo, é que a raça dela”, ou o “Por que você odeia a dublagem?” Mas falando diretamente sobre um filme, ainda não.

A. P. / D. P.

Imagem destacada do post do Maratona sobre o filme do Pantera Negra. Vemos o personagem (Interpretado por Chadwick)  sobre uma rocha esculpida em formato de pantera

Até que Pantera Negra veio, e com ele a necessidade de mudança de estilo. Muita coisa precisava ser dita. Pantera Negra era muito maior do que as quase duas horas de filme que vimos em tela. Precisava ser falado sobre o partido dos panteras negras, sobre negros em diáspora, sobre punitivismo. Eu sabia que textos longos não são desejados pela internet, normalmente. Existe a ideia de que pessoas não gostam de textos muito longos (e, depois de tantos anos de site, nem posso dizer que é mentira [risos]), mas eu não via outra forma. Com o tempo, essa mudança foi afetando os outros autores da equipe também. Muitos vieram e muitos se foram, mas é uma característica nossa fazer textos em que muito é dito, porque muito tem que ser dito.

Foi o texto de Pantera Negra, também, que me fez ser convidado para o primeiro Podcast Elementar, onde conheci o Diego, hoje meu amigo, e nosso editor. 

O Maratona não seria o projeto que é hoje sem a existência desse filme. E o filme não seria o mesmo sem Boseman. Por exemplo, sem ele, talvez não tivéssemos o sotaque tão forte no filme, que é tão importante para a caracterização. Palavras do próprio:

“Eu senti que não tinha como fazer esse filme sem um sotaque. Mas eu tinha de convencer [o estúdio] que isso era algo que a gente não tinha que temer. Meu argumento era que nós treinamos os ouvidos da audiência pelos primeiros cinco minutos – da legenda pra eles, dá o que for necessário – e eu acredito que eles seguirão na mesma forma que eles acompanham um sotaque irlandês ou inglês. Nós assistimos filmes o tempo inteiro quando isso acontece […] Por que, de repente, vira ‘não pode acompanhar’ se for Africano?”

Devemos muito à ele.

CONSCIÊNCIA

Uma característica que poucos artistas têm, mas que Chad demonstrou ao longo desses anos, foi a consciência do impacto do seu trabalho, e sua responsabilidade para com o público a partir disso. Vocês devem ter visto, assim como nós, vários vídeos de discursos e falas dele, onde  demonstra, por exemplo, o cuidado que ele tem com crianças com câncer. Começou-se a cogitar que o fato de ele já ter o câncer diagnosticado lhe aproximou delas. E assim… Deve ser. Mas veja, ele poderia simplesmente se manter tratando com sua doença, e ignorado outras pessoas. O fato de ele tomar a iniciativa em dar alegria pra elas, e mais, sabendo do papel que ele desempenhava para crianças (principalmente) negras e dar-lhes alegria é sim digno de nota. A conta oficial do St. Jude Children’s Research Hospital, visitado por ele, disse no instagram:

“[Ele] trouxe consigo não apenas brinquedos aos nossos pacientes, mas também alegria, coragem e inspiração […] Ele foi um papel modelo incrível para nossos pacientes e crianças por todo o mundo. Nossos pensamentos estão com sua família e amigos neste momento”[20]

Hospital St. Judy

A potência de alguém com esse tipo de responsabilidade para com aqueles que validam o seu trabalho e seu sustento é uma coisa muito rara de se ver. Certamente, sem as vivências que teve, desde a juventude, até se envolvendo com movimentos sociais, ele não teria esse tipo de relação com o público. É incrível de ver. É incomum, também. Infelizmente.

Reflexões

Ainda refletindo sobre isso, podemos pensar em três coisas. A primeira, pelo seu apreço por interpretações autobiográficas. Ele disse:

“As pessoas vem dizendo, ‘Você não precisa fazer mais biografias. Você não precisa mais interpretar pessoas reais’. Eu não concordo com isso” [10]

Mesmo sendo um ator, ou seja, uma pessoa interpretando um papel, ele tinha apreço pelo real, pelo concreto. Por pessoas de verdade, que deixam um legado. Pessoas como ele mesmo.

A segunda é como a gente normaliza pessoas que não são assim. Que não tem essa humildade e respeito. “É, artistas são assim mesmo”. Não era pra ser.

A terceira, por fim, é como, ao saber que estava doente, ele começou a trabalhar como nunca. No IMDB, de 2016 para cá podemos ver 11 produções. É muita coisa para quem tem uma doença tão traiçoeira, num estado tão avançado (os “níveis” de câncer variam de 0 a 4, e em 2016 ele foi diagnosticado no estágio 3 [22]). É uma força, e uma disposição para lutar, para não abandonar aqueles que se inspiram nele, que… Cara, sem palavras. Fiquem com esse vídeo.

ÚLTIMOS QUATRO ANOS

Chadwick foi diagnosticado com câncer no cólon em 2016, mas era muito reservado quanto a isso. Tanto que continuou produzindo durante esse tempo. Ele estrelou 7 filmes depois de Guerra Civil, dentre os quais “Marshal: Igualdade e Justiça” (sobre o primeiro ministro negro na Suprema Corte americana), “Pantera Negra” e dois “Vingadores”, “Crime Sem Saída” e “Destacamento Blood”. Além disso, estava na produção do longa “Ma Rainey’s Black Bottom” (concluído), da animação “What If…?” da Marvel, e de “Yasuke”, onde ele encenaria o primeiro samurai negro da história. Infelizmente, a história do último não terá a sua ajuda para ser contada.

Por volta de Abril de 2020, numa postagem em suas redes, os fãs estranharam sua perda de peso, de uma maneira que, confesso, foi muito invasiva. Em Junho, o ator deu entrada em hospital, sendo conduzido numa cadeira de rodas, o que deixou os fãs novamente apreensivos. Mais uma vez, não foi revelada a razão desse encaminhamento.

No dia 28 de Agosto (ontem), o mundo recebeu com surpresa a notícia de seu falecimento. Muitos fãs ao redor do globo lamentaram sua partida. Pantera Negra se tornou algo muito maior do que um filme ou revista em quadrinhos. Era uma identidade. Uma alternativa. Uma fonte de forças. Projetos foram feitos por todo o continente para levar crianças negras para ver o filme de graça, no cinema – para muitas delas, a primeira vez que entraram numa sala de projeção. E como já foi dito, não teríamos o mesmo impacto não fosse pela participação de Chad, e a dedicação que a equipe, como um todo, teve ao produzir esse filme. 

Fica aqui o lamento da nossa equipe pelo seu falecimento, e o agradecimento eterno por ter inspirado e despertado tanto em todos nós.

Descanse em poder.

Referências:

[1] [Rolling Stone] The ‘Black Panther’ Revolution

[2] [Wikipedia] Chadwick Boseman (inglês e português)

[3] [Omelete] De Vingadores: Ultimato a O Incrível Hulk – as bilheterias do MCU

[4] [G1] Chadwick Boseman deixou filme com Viola Davis e cenas inéditas como T’Challa de ‘Pantera Negra’

[5] [G1] Chadwick Boseman, astro de ‘Pantera Negra’, morre aos 43 anos

[6] [Istoé] Chadwick Boseman, de Pantera Negra, morre de câncer aos 43 anos

[7] [UOL] Ator Chadwick Boseman, o Pantera Negra, morre após batalha contra câncer

[8] [Twitter] Nota de Falecimento Oficial

[9] [Instagram] Nota de Falecimento Oficial

[10] [IMDB] Perfil oficial no IMDB

[11] [El Pais] Morre Chadwick Boseman, protagonista de ‘Pantera Negra’, aos 43 anos

[12] [Insider] Fans expressed their concern for ‘Black Panther’ star Chadwick Boseman months before his death after he appeared in a video that revealed his dramatic weight loss

[13] [Wikipedia] Black Panther

[14] [Wikipedia] X-Men

[15] [Youtube] Chadwick Boseman On Bringing Humanity To ‘Black Panther’

[16] [Omelete] De Vingadores: Ultimato a O Incrível Hulk – as bilheterias do MCU

[17] [Wikipedia] Lista de filmes de super-heróis de maior bilheteria

[18] [USA Today] Chadwick Boseman gave ‘joy, courage and inspiration’ to children battling cancer amid his own fight

[19] [WMBF News] SC natives star in Jackie Robinson biopic “42

[20] [AP News] A double-header of biopics for Chadwick Boseman

[21] [NBC News] Chadwick Boseman visited children with cancer while waging private battle with the disease

[22] [Wikipedia] Estadiamento do câncer

[23] [UOL] Elenco de Vingadores e famosos se despedem de Chadwick Boseman: ‘Rei’

[24] [Insider] Denzel Washington, who once paid to send Chadwick Boseman to acting classes, remembers him as a ‘brilliant artist’

[25] [Insider] The star of ‘Black Panther’ revealed that Denzel Washington paid for his college acting classes — and he finally got to thank the veteran actor

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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