Alice in Borderland é a mais nova série japonesa de destaque no catálogo da Netflix. Baseada no mangá de sucesso, escrito e desenhado por Haro Aso e finalizado em 18 volumes no ano de 2016, a adaptação dirigida por Shinsuke Sato empolga nas cenas de ação e no gore digno de um Battle Royale, mas não entrega o melhor da obra original: seus personagens e dramas.
Desejo atendido
Quem nunca se cansou da repetição do dia a dia, das constantes cobranças, dos problemas da vida e desejou profundamente viajar para um lugar distante, longe de tudo e de todos? Esse sonho comum a muitos de nós, é também o sonho de Ryōhei Arisu (Kento Yamazaki) um jovem japonês, que vive a maior parte do tempo entretido com seus hobbies. Arisu, apesar dos seus 24 anos, não tem um emprego (e nenhum interesse em procurá-lo) e por essa razão é comparado exaustivamente com seu irmão (o típico homem de negócios japonês) e orgulho do papai ricaço.
Quando o clima pesa dentro de casa, com seu irmão e pai, Arisu, sempre recorre aos seus melhores amigos, Daikichi Karube (Keita Machida) e Chōta Segawa (Yûki Morinaga), outros dois rapazes desajustados socialmente. Karube trabalha num barzinho e faz o tipo bad boy, apesar do jeitão marrento é um cara de bom coração e ama seus amigos, como se fossem irmãos. Já, Chōta é o completo oposto, sensível, fisicamente frágil, empregado de uma empresa do ramo de TI e filho de uma mãe fanática religiosa, que vive lhe extorquindo.

Os três, após presenciarem um estranho show de fogos de artifício em Shibuya (o distrito mais badalado de Tóquio), são transportados para o que parece ser uma realidade paralela: uma Shibuya inóspita, onde não há energia elétrica e sequer multidões. Arisu, Karube e Chōta foram transportados para o País das Fronteiras, onde a estadia e a sobrevivência dependem de sair vencedores dos cruéis jogos sediados neste lugar.
No país das fronteiras
Uma vez transportados para este novo país, o trio de amigos vai compreendendo aos poucos, como as coisas funcionam por lá. E nós, na posição de telespectadores (curiosos), acompanhamos o real horror da luta pela sobrevivência.
Todos os indivíduos residindo no país das fronteiras possuem um visto, que pode ser estendido caso o portador dele continue vencendo os jogos. Aqueles que têm seu visto vencido ou tentam abandonar a arena de jogos, são mortos imediatamente com um raio laser advindo do céu.

Os tipos de jogos e seus níveis de dificuldade variam de acordo com o naipe das cartas de baralho. Por exemplo, a carta com copas (corações) envolve os jogos mais sádicos e psicológicos, necessitando enganar outros competidores para obter a vitória. Estes, inclusive, são os melhores da série, tanto pelos requintes de crueldade, quanto pela engenhosidade deles.
Há muitas referências interessantes de filmes de terror na composição dos jogos e vale a pena tentar pescá-las, se você for um adepto do gênero, como eu. Uma delas eu já entreguei no começo do texto, o filme de Battle Royale, dirigido por Kinji Fukasaku.
Uma travessia decepcionante de formatos
Composta de 8 episódios de 40 a 50 minutos em média, Alice in Borderland oscila numa constante de bons e maus momentos com o decorrer da trama. Os bons momentos no geral, envolvem a expertise do diretor Shinsuke Sato, que são as cenas de ação com direito a muitos tiroteios, correria e sangue (muito sangue). As ruins, por outro lado, recaem sobre os diálogos e a falta de profundidade dos personagens.
É compreensível que haja perdas ao se adaptar uma obra de seu formato original para outro, mas no caso de Alice in Borderland, o número de perdas é tão grande, que fica difícil ser compreensivo com a direção. Após ter assistido a série completa, no mesmo dia, fui atrás do mangá e a cada novo capítulo que lia, passava a me questionar por que razão deixaram de fora tantos detalhes importantes sobre a construção dos personagens na adaptação da Netflix. Se pouco me importei com alguns personagens da série, como o Chōta, ao ler o mangá, a minha relação foi completamente diferente. Consegui criar algum laço afetivo com ele.

O próprio Alice, protagonista da série, consegue ser um dos personagens menos carismáticos dentro da trama. Além disso, a maneira como ele soluciona os jogos é extremamente forçada na maior parte do tempo. O ator, Kento Yamazaki, até parece se esforçar, principalmente nas cenas mais pesadas emocionalmente, mas os insights dele mais parecem o meme da nazaré resolvendo equações de tão ridículo. No mangá, a capacidade de percepção de Arisu é explicada de uma maneira bem mais inteligente e sensata, deixando o personagem muito mais humano e menos parecido com uma máquina de calcular.
Conclusão
Já nos primeiros minutos do primeiro episódio de Alice in Borderland, fica claro que se trata de uma grande produção. A qualidade visual e sonora da série não deve em nada para outras produções originais no catálogo da Netflix. A edição é bastante dinâmica e mesmo alguns cenários produzidos totalmente por computação gráfica, passam despercebidos, como se fossem de fato reais.
O problema, no entanto, é que o dinamismo das cenas de ação, a direção de fotografia (com belíssimos planos que captam o cenário urbano de Tóquio) e o desenho de som competente, não se sustentam a longo prazo pela ausência de carisma dos personagens. Os holofotes posicionados para o casal Arisu (Kento Yamazaki) e Yuzuha Usagi (Tao Tsuchiya) ofuscam na maior parte do tempo a importância de outros personagens na trama.

É apenas nos últimos dois episódios, que personagens secundários relativamente interessantes ganham algum espaço para que possamos compreender quem são e quais suas motivações dentro do jogo. Hikari Kuina (Aya Asahina) e Niragi (Dori Sakurada) são dois personagens pelos quais me interessei em saber mais detalhes, mas que infelizmente são muito mal explorados, com flashbacks curtíssimos para explicar seus dramas pessoais.
Para mim, ao final da minha experiência, a adaptação da Netflix falha no foco excessivo na ação, enquanto o mangá que lhe deu origem preza muito mais pelo perfil psicológico de cada personagem e como eles se utilizam disso para sobreviver. A fórmula do diretor Shinsuke Sato pode até ter funcionado em outros de seus trabalhos, como os filmes de Gantz, Bleach e Kingdom, mas com certeza não encaixou bem com Alice.
Para quem se interessar em assistir, já pode aguardar pela segunda temporada da série, que foi confirmada pela Netflix nesse finalzinho de ano. Além disso, uma continuação direta do mangá chamada Alice in Borderland: Retry, pelo mesmo autor da obra original, está em publicação semanal no Japão.
Lembra muito Gantz, porém com algumas diferenças em relação ao livre arbítrio, não vi essa série nem li o mangá.
Oi, Felipe! Beleza, meu velho? Sim, concordo com você, Alice in Borderland, tem mesmo muitas semelhanças com Gantz!