Repetindo o que parece ter virado uma tradição — ou uma feliz coincidência —, ganhei novamente de presente de natal da minha esposa uma obra aterrorizante da dupla Joe Hill e Gabriel Rodriguez. Depois de Nosferatu (NOS4A2), no Natal de 2016, em 2020 foi a vez de Locke & Key: Bem-vindo a Lovecraft chegar às minhas mãos e assombrar o meu comecinho de 2021.
A série de quadrinhos de horror e fantasia é publicada no exterior pela IDW Publishing, e aqui no Brasil está saindo pela editora Novo Século, como parte do seu selo de quadrinhos e graphic novels. Locke & Key: Bem-vindo a Lovecraft é o primeiro dos sete volumes encadernados da obra e uma porta de entrada (sem saída) para os horrores escondidos numa velha mansão — assombrada, é claro.
Fugindo do passado
Buscando novos ares — e desesperados por um novo começo, após um terrível acontecimento no passado, a família Locke decide se mudar para a cidade de Lovecraft, em Massachusetts, na Nova Inglaterra, onde está localizada a Keyhouse, o novo lar, doce lar da família Locke.

Instalados em sua nova residência, os membros da família procuram, cada qual a sua maneira, adaptar-se ao novo cotidiano e vencer os fantasmas do passado. No entanto, pouco a pouco, começam a compreender que a mansão, que agora chamam de lar, guarda muitos mistérios e alguns deles relacionados a velhos fantasmas.
Bem-vindo a Lovecraft
Por ter gostado bastante da adaptação de Locke & Key da Netflix, as minhas expectativas em relação ao material original eram altíssimas! E para minha sorte, elas foram devidamente atendidas. Se mesmo com o tom mais suavizado da série, fiquei abalado com os dramas pessoais da família Locke, nos quadrinhos a parada foi ainda mais intensa!
Livres de quaisquer freios, a dupla Joe Hill e Gabriel Rodriguez não economizam em cenas de embrulhar o estômago de uns e despertar o interesse de outros, fascinados por cenas grotescas de violência. Já nas primeiras páginas do primeiro capítulo, presenciamos uma tragédia anunciada, quando Sam Lesser e Al Grubb, numa visita inesperada à casa da família Locke, deixam claras suas intenções escondendo um revólver e uma machadinha atrás das costas enquanto, inocentemente, cumprimentam a senhora Locke. O que se vê a partir daí, é uma cena de massacre, que parece ter saído de Evil Dead ou Sexta-feira 13. Fãs de filmes slashers vão se sentir em casa, acompanhados pelo traço sujo e expressivo do artista Gabriel Rodriguez e das cores de Jay Fotos.

O roteiro, por sua vez, a cargo do escritor, Joe Hill, faz com que você não queira parar nem por um segundo de ler Locke & Key, pois a cada nova página você se vê surpreendido por um possível ponto de virada na narrativa. A maneira como Hill liga os pontos da história e desenvolve os traumas vivenciados pela família Locke é de arrancar suspiros e lágrimas.
Malignamente maravilhosa
Essa seria, na minha opinião, a melhor maneira de descrever o trabalho gráfico da editora Novo Século, com a edição nacional de Locke & Key. O primeiro volume conta com 167 páginas, sendo 13 delas parte de uma galeria de lindíssimas ilustrações feitas por Gabriel Rodriguez.
A edição se encontra disponível em dois formatos diferentes: um com capa comum e outro com capa dura. A que ganhei de presente foi a edição de capa dura. Gostei bastante dela, especialmente pelo detalhe em verniz da chave fantasma no centro.

A tradução, a diagramação e a revisão do material também merecem atenção pelo cuidado. Não encontrei nenhum errinho bobo de português ou diagramação durante a minha leitura e as adaptações e notas de rodapé deixam todo processo ainda mais interessante.
O mal não descansa
O primeiro volume de Locke & Key, apesar de intenso e visceral do começo ao fim, é apenas uma das muitas portas ainda fechadas na Keyhouse, esperando por alguém curioso (e corajoso) o suficiente para destrancá-las e descobrir o que está por trás delas.
Depois de criar laços com os membros da família Locke é difícil voltar para o “normal” (tal como o conhecemos); é um convite para testar nossa sanidade frente ao sobrenatural. Entrar no circo de horrores de Hill e Rodriguez é uma decisão sua, caro leitor(a). Felizmente, para mim, o retorno não é mais uma opção viável.

Até o volume 2! (se eu ainda estiver são).