Soul (2020) – Alma de Música

Soul (2020) – Alma de Música

A Pixar é uma empresa que sempre gera expectativa alta para suas produções. Seu novo filme, Soul (2020), trouxe a novidade de ser protagonizado por uma pessoa negra. O que esperar dessa nova animação?

Poster oficial. Ao centro, Joe está descendo uma escada feita de teclas de piano, ao passo que o Gato desce andando ao seu lado. Ao fundo, está a logo oficial do filme, SOUL, e sobre a "perninha" do L, se encontram Joe em forma de alma, e 22

Mas antes

Bom gente, to voltando a escrever aos poucos. A gente deu uma reduzida no final do ano, e faz tempo que não escrevo sobre nada. Então vou tentar fazer alguns textos para desenferrujar, beleza?

Sinopse

Joe (Jamie Foxx) é um músico frustrado, que sonha em ter uma grande carreira tocando jazz , mas está dando aulas de música para crianças na rede pública. Um dia finalmente surge a oportunidade de Joe dar uma guinada na sua carreira!

Mas ele morre.

Joe precisa voltar para o próprio corpo antes que seja tarde demais.

Joe está andando no meio da rua. A rua está movimentada com carros, e Joe anda como se ela estivesse vazia
Olha por onde anda!

Jazz na alma

Eu sou um amante do jazz. Um amante tardio, admito. Mas consigo passar horas ouvindo John Coltrane, Miles Davis, Duke Ellington. Eles são maravilhosos, e a música te transporta para outro lugar da existência, enquanto você estuda ou trabalha (músicas instrumentais são ótimas para isso, fica a dica). Então, uma animação que tem como ponto importante o jazz, pra mim, já era CERTO de que eu ia querer assistir, e com vontade de gostar. 

Até demorei, na verdade. A Disney+ não ajuda muito o brasileirinho carente.

Joe e 22 observam um músico de metrô.
Esses momentos são ótimos… Mas paguem com dinheiro, não com rosquinhas ¬¬

Áudio

Mas enfim, assistimos, e é impressionante como esses dois elementos, o áudio e o visual, tem um encaixe perfeito em Soul. O sinal já é dado na clássica animação da logo da Disney, cujo tema (When You Wish Upon a Star) é todo tocado em instrumentos de sopro. E logo na primeira cena, vemos várias pessoas usando seus respectivos instrumentos, e já se percebe a qualidade da animação com o som.

Mas quando Joe faz um solo de piano, e a câmera faz questão de filmar sua mão, com todos os movimentos, perfeitos, tocando cada tecla com precisão (e coerência com o áudio) é que temos a prova que a Pixar, mais uma vez, se superou na qualidade técnica. Quando Joe, Dorothea (Angela Bassett), Connie (Cora Champommier), ou Curley (Questlove) aparecem executando seus respectivos instrumentos, é sempre incrível. Dá vontade de parar o filme e ficar só apreciando esse grande videoclipe musical. Em dado momento, acontece uma colagem de trechos de diversas músicas sendo executadas em sequência, e a vontade de ver esse “show” completo é desesperadora! Por favor, façam esse extra!

Jerry observa Terry, que está muito concentrado em seus ábacos. Terry está bem preocupado, como se alguma conta estivesse errada.
Ah, esse povo de exatas….
(Só pra constar, Contabilidade é de Humanas, tá?)

Vídeo

O visual não está caprichado apenas nessa questão da animação. A Pixar está, de fato, num patamar elevado de renderização e simulação gráfica em seus projetos. O efeito levemente translúcido nas bordas dos personagens “Souls” é uma coisa que pode passar batida, mas é fascinante. Os animadores se inspiraram num material quase translúcido, o aerogel, para dar o efeito das alminhas. A forma como os “Jerries” (Alice Braga, Richard Ayoade, e Rachel House, que na verdade é Terry) são animados também é muito interessante. A modelagem deles representa uma arte de linha única (lembrando alguns trabalhos de Picasso, por exemplo), e os personagens podem se remontar à vontade, além de se desdobrar em diversas maneiras. É genial.

Imagem em 3 partes. A mais à esquerda, uma mulher, com adereços de folhas na cabeça, é desenhada com poucas linhas. Ao centro, uma mulher em perfil, com um coque de cabelo, desenhada com uma única linha. Na terceira, um Jerry exibindo 22 para alguém fora de quadro.
Olha que incrível: Na esquerda, arte de Picasso; no centro, da artista Sasha Lend, e a última, Jerry

Espiritismo e Espiritualidade

Que Soul fala sobre a vida após a morte, isso é dado, não chega a ser uma novidade. O curioso é ver que Soul também fala da vida antes da morte. Então o filme traz conceitos próprios da doutrina espírita, como o fato de a personalidade ser atribuída à sua alma antes da encarnação, ou o fato de haver uma espécie de treinamento para as almas, que escolhem vir para a terra. 

Não vou fazer um debate religioso nesse momento, acho que não cabe aqui, agora, mas é curioso ver a Disney e a Pixar abordarem um tema como a religião em seus filmes. Não é exatamente uma novidade, uma vez que A Vida é uma Festa (Coco, no original) já tratava sobre a vida após a morte mas, assim como Coco se atinha às “regras” das tradições mexicanas, Soul aparenta estar bem sincronizado com os conceitos da doutrina espírita. Que é uma religião que costuma escapar dos radares das animações (e de Hollywood em geral, se me permite). 

O que podemos tirar disso? Não sei, mas é uma movimentação curiosa, isso é fato. Poderíamos esperar mais religiões e culturas em outros filmes? Estou torcendo.

Joe é apresentado à 22 por um dos Jerry. Próximo à Jerry tem várias almas bebê.
Plano de carreira espiritual

Estereótipo x características

Quando debatemos racismo, é muito comum que a gente fale sobre estereótipos, e de como são nocivos. É importante que se diga: estereótipos não são necessariamente mentirosos. MAS eles trazem uma visão DISTORCIDA da realidade. Por exemplo, podem existir homens negros violentos? Sim, pode. Isso quer dizer que homens negros são, por definição, violentos? Não. O fato de existirem indivíduos violentos ajuda a construir a ideia de que todo um grupo age da mesma forma, o que é falso. 

Por outro lado, existem características de grupos, que podem servir como forma de reforçar sua identidade e sua cultura. E elas devem ser vistas, valorizadas, entendidas. Soul faz isso.

Representatividade

Elementos muito caros à cultura negra dos Estados Unidos, como a música, a comunidade, a arte de rua (que é pouco explorada) estão lá. Mesmo falando de jazz, Soul não se passa no passado: é um filme contemporâneo, com celulares, computadores e metrôs. Mas isso não impede que a barbearia seja ponto de encontro dos homens negros do bairro, onde podem trocar ideia em paz. O carinho REAL entre patrões e empregados, que fazem a pequena confecção de Libba (Phylicia Rashad) um pequeno ambiente familiar.

Também é notória a grande presença de latinos no filme, como a própria diretora Arroyo (Jeannie Tirado), o que é uma adição muito interessante e importante, uma vez que latinos e negros muitas vezes sofrem violências e são estereotipados de forma muito semelhante nos EUA. 

Enfim, Soul BRILHA em representatividade.

Cena no Barbeiro. Dez está cortando o cabelo de Joe, que está com um pirulito na boca (e parece estar se divertindo com isso), e tem um gato sobre seu colo.  Do lado, Paul (Daveed Deegs) está recebendo um corte de cabelo feito por uma funcionária do local.
Trocar ideia sobre qualquer coisa, e tá tudo bem

22

Eu quase me esqueci de um dos personagens mais importantes de Soul, a pequena 22 (Tina Fey), a alma que nunca encarnou. A dinâmica entre 22 e Soul são duas energias opostas muito interessantes: Joe, morreu e quer voltar à vida; 22, nunca nasceu, e nem quer tentar. Porém, 22 já foi tutorada por diversas mentes brilhantes que já viveram, o que torna ela uma enciclopédia da vida mundana. Mas, como bem disse Marx, “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo”. 22 sabe tudo da vida, mas nunca viveu. E Joe… bom, vejam o filme. Vale a pena. 

Numa espécie de galeria que possui todos os objetos do mundo, Joe e 22 estão numa área com várias prateleiras e displays com comida. Ao fundo, pode-se ver prédios, aviões, templos em formato grego. Joe mostra uma fatia de pizza para 22, que olha para ele entediada de forma divertida, como quem pensa "haha, ele ainda tá tentando".
Pizza me convenceria fácil a vir pra Terra

Concluindo

Havia muita expectativa sobre Soul mas, como tudo em 2020, a pandemia frustrou alguns prazos, nos removeu algumas experiências possíveis (como ver esse filme no cinema), fez com que tudo ficasse meio… estranho. Soul acaba sendo um filme muito curioso, nesse momento. Primeiro, por falar sobre morte, que é um assunto que enche nossas conversas por todo esse período. Segundo, porque também fala sobre valorizar a vida, que é essencial para que a gente continue em frente, sem arredar. E terceiro, porque como bem disseram os atores envolvidos, Soul valoriza muito a vizinhança e a comunidade, algo que o vírus nos força a deixar de lado.

Se você ainda não viu Soul – e eu sei que eu to atrasado, o filme saiu no dia de Natal – por favor, vá lá e assista. To torcendo para que você tenha uma tela e sistema de som legais em casa!

Momento P.S. (Pode Spoiler)

Apesar de Soul ter, de fato, uma ótima representatividade, três questões me incomodaram. Não afetam o filme, mas ainda assim é de se pensar.

É mesmo tão difícil?

A primeira, a internet já comentou bastante, você já deve ter visto sobre isso: a dificuldade da Disney de manter personagens negros com sua forma física em suas animações. A Princesa e o Sapo, Um Espião Animal, e agora Soul, todos envolvem a transmutação de seus protagonistas – pessoas negras. “Ah, mas isso acontece com pessoas brancas também”! Sim, eu sei mas… tá, espera. Eu ia falar “mas olhe a proporção de personagens negros pra brancos”, mas a real é que eu fui olhar a lista de animações tanto da Disney quanto da Pixar, e eu só achei outro onde aparecia um fato semelhante, A Nova Onda do Imperador, que tem a transmutação de um latino. Então assim…

Bom, essa é uma questão que a Disney e Pixar tem que resolver. De novo, isso não invalida o filme, assim como não invalidou os filmes que eu citei, são todos bem bacanas. Mas é de se pensar.

https://www.instagram.com/p/B_QUx5AHVIc/?utm_source=ig_embed

O fardo…

A outra coisa que me incomodou, e isso é muito pessoal, foi uma metáfora que eu consegui enxergar no filme. É estabelecido no filme que 22 só tem uma voz de mulher branca de meia idade porque ela gosta de “irritar” os outros, porque na prática, ela não tem uma voz específica nem forma física específica. Isso basta para invalidar o que eu vou dizer a seguir:

O fato de que, para um homem negro conseguir encontrar o sentido da vida, ele precisa sair de seu corpo, e deixar que ele seja comandado por uma mulher branca, mais “esclarecida” e “ingênua”, foi muito esquisito para mim. Joe de fato precisava se libertar do ciclo vicioso que a vida dele se encontrava, e precisava de alguém que lhe mostrasse isso. Mas essa imagem a mulher branca “libertando” as amarras do homem negro foi estranha.

Deixa eu me explicar, não to aqui forçando a análise para o contexto da escravidão. Não vou tão longe. Mas ainda assim rolou uma “branca salvadora”, no final das contas. E eu não gosto desse “trope”. Era só mudar a dubladora que isso seria resolvido.

De frente à um banner com logos da Disney, o símbolo do Mickey, e a logo D23 Expo, estão Tina Fey e Jamie Foxx. Jamie está passando o braço por trás de Tina, mas não está abraçando ela. Está meio com os braços abertos e mãos espalmadas, como quem está declamando um rap.
Não me levem à mal, ambos fazem um EXCELENTE trabalho. Mas…

E o fim?

A última é a mais boba: eu queria muito ter visto que destino Joe escolheu para si. Ele ficou com a banda? Com a escola? Conciliou ambos? Eu não to pedindo uma continuação, necessariamente. Nem queria mais 20 minutos de filme. Mas seria legal ver uns cortes rápidos sobre a escolha final dele. Não tenho nada contra finais abertos, mas esse, em particular, seria legal ver o desenrolar.

Joe olha para uma série de pétalas de flores caindo
A vida pode ser bela, mesmo depois de 2020

Referências

Para criar as almas de “Soul”, Pixar recorreu à ciência

The Fearless One Line Picasso Drawings

IMDB – Soul

6 curiosidades sobre Soul, nova animação da Pixar: inspiração para o Pré-Vida, rejeição aos estereótipos racistas e mais

‘Soul’ Review: Pixar’s New Feature Gets Musical, and Metaphysical

Karl Marx: Até agora os filósofos se preocuparam…

Você já reparou no destino dos personagens negros das animações da Disney?

Lista de filmes animados da Disney

Lista de filmes da Pixar

White savior narrative in film

White Man’s Burden

O gato está com uma fatia de pizza na boca, olhando para um rato que está arrastando outra fatia de pizza
Caraio maluco, que rato é esse? Mestre Splintter?

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

1 Comentário
  1. Responder Pedro Corujeira 14 de janeiro de 2021

    Não sei quando vou assistir ao filme, por conta de questões financeiras e porque não aguento mais ser bombardeado com anúncios do Disney+ em todo canto da internet, mas com certeza SOUL, já tem um lugar guardado na lista de filmes essenciais para assistir este ano, depois de ler essa crítica super bacana.

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