“Jogo do poder” é o novo filme de Costa-Gravas, diretor grego, famoso por seu cinema político e de denúncia social. O roteiro baseia-se no livro de Yanis Varoufakis (Christos Loulis). Ministro das finanças da Grécia que assumiu o cargo em 2015 e que renunciou em alguns meses, após árduos esforços para solucionar a crise econômica grega. Nesse meio tempo, a indiferença do sistema foi seu maior obstáculo.
Costa-Gravas volta a abordar a Grécia em seus filmes após muitos anos, desde o lançamento de “Z” em 1968. Este filme projetou o diretor internacionalmente. “Z” foi o primeiro filme estrangeiro a ser indicado ao Oscar de melhor filme e melhor filme estrangeiro simultaneamente, tendo vencido o segundo. “Z” é um thriller político baseado no assassinato de um político grego.

Uma dívida bilionária
Em 2014, a Grécia se encontrava com uma dívida de mais de € 300 bilhões, comprometendo sua economia, investimentos estruturais e gerando desemprego e perdas de aposentadorias da população. Neste cenário que o governo de esquerda do primeiro-ministro Aléxis Tsípras foi eleito com a promessa de revisar com o Eurogrupo as condições de pagamento da dívida, considerada impagável, e que estava destruindo o país economicamente.
O filme é narrado como um grande flashback por Yanis. Ao passo que o ministro assume sua pasta com grande otimismo e confiança de que suas solicitações são razoáveis o bastante para serem aceitas. Porém, ele não contava com a indiferença do sistema, dos políticos e banqueiros diante o drama que vivia a população da Grécia.

Batalha contra o establishment e a indiferença do sistema
O título original do filme é “Adults in the room” (Adultos na sala), nome do livro de Yanis, “Adultos na sala: Minha batalha contra o establishment”. A frase aparece em determinada cena, quando a diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional) exclama que seria necessária a presença de adultos na sala, após mais uma reunião, onde representantes do Eurogrupo e do Banco Central Europeu se mostram totalmente obcecados com números e cifras e se mostram totalmente irredutíveis diante as propostas de Yanis.

Yanis é um personagem com o qual o espectador consegue se identificar facilmente. Um ministro sem qualquer experiência política. Todavia com as melhores das intenções e que bate de frente o tempo todo com os mandachuvas arrogantes da Troika (Grupo formado por FMI, Comissão Europeia e o Banco Central Europeu).

Desprezo pela soberania
Ele aparece sempre com um estilo mais informal, vestido como se estivesse indo a uma reunião de publicitários, com uma mochila a tiracolo em uma sala com diversos políticos engravatados. Assim como o próprio primeiro-ministro (Alexandros Bourdoumis) também reflete essa informalidade, ao recusar constantemente uma gravata que lhe oferecem insistentemente, e até de forma agressiva.
Ou seja, esta agressividade na insistência pelo uso da gravata simboliza de forma sutil, como a União Europeia e seus representantes agem com desprezo pela soberania grega. Em outras palavras, Costa-Gravas mostra como a mesquinharia dos poderosos reflete a indiferença do sistema perante o destino de um país inteiro. A proposta grega é rejeitada pela simples adição do termo “crise humanitária”.

Indiferença do sistema perante o sofrimento
O filme nunca se torna didático em excesso ou monótono, mesmo com diálogos baseados em números, cifras, gráficos e estatísticas. Em síntese, Costa-Gravas consegue conduzir o filme no melhor estilo thriller político que ele realizou tantas vezes. A forma irônica como os personagens se referem a cifras na casa dos bilhões reforça o tom de surrealismo. Embora tudo ali seja a mais pura realidade.
Em síntese, Costa-Gravas nunca evitou abordar temas espinhosos em seus filmes como o desemprego crônico, a especulação econômica, o poder destrutivo da mídia, a ditadura chilena, a relação entre o Vaticano e a Alemanha nazista, entre outros. Nesse sentido aqui ele mostra como os líderes europeus seguem de forma obsessiva o sistema e o establishment imposto.

Em conclusão, tal indiferença política ao sofrimento de um povo não aconteceu de forma inédita na crise grega e nem foi a última vez. Atualmente a crise humanitária no qual o Afeganistão se encontra mais uma vez após 20 anos mostra de forma escancarada como diversos países tiveram a oportunidade de mudar algo significativo em um país tão sofrido e praticamente tudo voltou para a estaca zero (ou até pior).
Onde assistir
Por fim, o filme “Jogo do poder” está em cartaz nos principais cinemas do país. Em suma, confira na sua programação local pelos horários das sessões.
Nesse ínterim, o filme será exibido na 10ª Mostra Ecofalante, que está rolando de forma online e gratuita desde 11/08 até 14/09. “Jogo do poder” será exibido 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro.