Paris 8 – Quando a obra fala sobre si

Paris 8 – Quando a obra fala sobre si

Hoje aconteceu uma coisa muito incomum na minha vida: Fui na sala de arte ver um filme francês, Paris 8 (Mes provinciales, 2018). Valeu a pena? Sim, valeu, e o filme me deu vontade de escrever

SINOPSE

O jovem Etienne (Andranic Manet) está saindo de casa, deixando pais e namorada, para viver em Paris e estudar na Paris 8, onde pretende cursar cinema.

COMENTÁRIOS

Entender o filme não é difícil. A gente tem esse péssimo hábito de pensar que filmes de arte são filmes complicados. Primeiro é preciso entender o que é um filme de arte (que pra mim são todos), e depois o que os torna difíceis (muitas vezes, preguiça de quem tá assistindo). Ao meu ver, os filmes mais complicados de se entender (e gostar) são aqueles que trazem uma mensagem pessoal de quem escreve / dirige. Porque isso exige de você espectador, uma empatia por alguém que provavelmente nunca conheceu, coisa que não precisa fazer num filme de ação simples, ou de comédia rasteira. No máximo, ter empatia com os personagens. Mas com alguém que nem ao menos está em tela…?

Só um adendo pra quem tá chegando agora: meus textos costumam ser opinativos, e em geral não vejo resenhas ou trailers antes de ver um filme (muitas vezes, nem depois). Então é muito possível que, o que eu comente aqui, seja desmentido em outros veículos. Eu tô tranquilo com isso, e espero que vocês também.

AH SIM! Tem spoiler também.

Annabelle cochila no ombro de Etienne
Ei, nada de dormir só porque o filme é francês. Que deselegante!

O filme, do meu ponto de vista, é um claro grito do seu diretor / escritor, Jean-Paul Civeyrac, com relação ao cinema. Não só a relação dele com o cinema, mas uma crítica sobre como o público o vê. Seu personagem, o sonhador Etienne, não é só alguém tentando se encontrar na cidade grande. É alguém tentando decifrar qual a sua relação com a arte. E fracassando sucessivamente.

A sua relação com os coadjuvantes também é essencial nessa compreensão. Lucie ( Diane Rouxel), a namoradinha da sua vida do interior, é seu elo com o passado que ele tenta manter. Mas assim como a faculdade mudou suas ideias, Paris mudou quem ele é. E nesse novo Etienne, Lucie não cabe mais. Annabelle (Sophie Verbeeck) é a ativista idealista. Talvez, a seus olhos, a mulher ideal. Aquela que não tem tempo a perder com a arte e os devaneios, pois está ocupada demais lutando por um mundo (real) melhor. Jean-Noël (Gonzague Van Bervesseles), o amigo que tem interesse românticos no protagonista. Sempre próximo, sempre disposto a ajudar. E por fim, Mathias (Corentin Fila). O ideal Mathias. A ele cabem parágrafos a mais.

Paralelos

Mathias era o aluno lendário. Sumido, não exibe seus filmes. Mas está sempre com a crítica na ponta da língua, e com um discurso muito simples e claro: o verdadeiro cinema está perdido no passado. E precisa, para ser vivo, trazer uma verdade, ou A verdade. Exibir histórias com realidade nelas. Sem, necessariamente, ser político ao fazê-lo, ou ter uma obrigatoriedade. Verdade honesta na arte. E pelo visto, o diretor tenta, com toda a produção, mostrar como fazê-lo.

O filme é em preto e branco, evocando um passado cinematográfico. A trilha, quando há, são músicas clássicas, muitas vezes orquestradas, ou no piano. E o enquadramento é sempre bem fechado no rosto dos atores, ou nos objetos em destaque (quando se destacam objetos. Em geral, o foco fica nos humanos em cena), abrindo poucas vezes, em cenas externas, e só o suficiente para enquadrar os atores. Conta com tomadas longas. Cortes são raros, fora as mudanças de cena. Nada nas atuações se perde.

O filme é sobre idealismos, talvez?

Porém, assim como Mathias é idealista ao ponto de ser arrogante, ele também tropeça no calo da hipocrisia. Ele está, o tempo todo, falando da verdade nos filmes, mas não é capaz de exibir a sua própria verdade, uma vez que não exibe mais seus filmes ao público. Se apega a um discurso que muitas vezes não é capaz de endossar. Fora sua terrível arrogância, ao destratar artistas conhecidos e colegas, que pode ser atraente (e o é para Etienne) mas não esconde o fato de ser terrivelmente deselegante com seus companheiros. E o filme também tem problemas semelhantes.

Ao passo que é em preto e branco como filmes antigos, a filmagem é limpa e clara pelas tecnologias atuais. Tenta o tempo todo trazer situações reais da vida de estudantes de cinema, mas não deixa de trazer falas e situações puramente literárias (erro que Etienne costuma cometer). E se pretende ser um tapa na cara dos filmes populares e clichês (e acredito, nem ao menos se refere à Hollywood), é um filme regado de clichês. Sem contar que mesmo o tempo inteiro propagando a necessidade do real no cinema, traz uma Paris higienizada, e um elenco quase totalmente jovem, bonito, “descolado”… Não exatamente verdadeiro[1].

CONCLUSÃO

Eu sempre prego que, ao ver um filme, devemos nos permitir ir além do que nos é exibido, e tentar refletir sobre a obra sempre um pouco a mais. Nem que nessa reflexão, você chegue à conclusão de que ela não exige grandes reflexões. Isso é verdade para os filmes blockbuster, e também é verdade para filmes de arte.

Um filme sobre estudantes fazendo filmes. Metalinguagem é a chave

O filme é, sem sombra de dúvida, a forma do diretor mostrar sua opinião sobre o cenário cinematográfico parisiense atual, e sugere o que deve ser feito para mudar. Porém, ele se perde algumas vezes no próprio discurso, incorrendo no erro que aponta. E o que isso quer dizer?

Que a reflexão não deve ser só sobre os outros, deve ser sobre a própria produção, também.

Mas essa contradição não mata o filme. Pelo contrário, vale a pena conferir se tiver oportunidade. Ainda está em cartaz, então vão lá.

Abraços a todos!

[1] Esse comentário sobre o elenco foi inspirada na crítica do Adoro Cinema 

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

2 Comentários
  1. Responder Taís 6 de junho de 2018

    Nunca tinha ouvido falar desse filme.. e pelo seu post parece ser um filme interessante de ver. Tenho minhas duvidas se vou gostar, mas acho que só dando uma chance pra ver haha

    1. Responder Fernando Medeiros 7 de junho de 2018

      Cara, se permita, sempre! Assim que tiver oportunidade, assista, e comenta com a gente

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