Será que dá para fazer um anime policial intrigante, com temas pesados, máfia, conexões bem construídas, roteiro bem estruturado, e ao mesmo tempo ter romance, sutileza e inocência de plano de fundo? Dá sim, e Banana Fish é a prova disso.
Sinopse

Banana Fish conta a história de Ash Lynx, um gangster nova iorquino de 17 anos, com uma fama de ser cruel e implacável, e que possui segredos hediondos. Ash foi criado por “Papa” Dino Golzine, o chefe da máfia Corsicana, que o adestrou como seu brinquedo sexual e herdeiro adotivo desde os 11 anos. E Eiji Okamura, assistente de fotografia japonês, inocente e puro, que vem aos Estados Unidos para fazer uma reportagem sobre como funcionam as gangues de Nova York. (Qualquer semelhança com o filme do DiCaprio é mera coincidência.) Na busca de solucionar o mistério que é Banana Fish, eles enfrentaram a máfia, a polícia, o passado, e seus próprios demônios, lutando para permanecerem juntos.

Banana Fish, que nome é esse?
Contrário ao que o nome pode indicar, Banana Fish não é um anime fofinho sobre uma combinação estranha de comida. A história começa te surpreendendo por não se passar no Japão, e sim nos Estados Unidos, e apesar do mangá original ter sido lançado entre os anos 80 e 90, o anime se passa em 2012. A adaptação é um dos pontos mais fortes de Banana Fish, o que descobri ao ler o mangá, pois os quadros foram traduzidos de uma mídia para outra de forma primorosa. A preocupação com a fidelidade ao original e a adaptação para o presente mostra que a direção do anime é muito bem executada. Ao assistir Banana Fish, o espectador tem a impressão de que tudo acontece muito rápido, e mais importante, que muita coisa acontece o tempo todo, mesmo nos momentos mais calmos.

Outro ponto forte do anime é a beleza da sua animação, em comparação com o traço do mangá, todos os personagens foram “embelezados”, contudo preservando suas características originais. Beleza é destaque em Banana Fish, desde o primeiro episódio a beleza do Ash é frisada, seus cabelos loiros, olhos verdes e corpo esguio (ui!) são motivo de cobiça e inveja por parte de seus admiradores e inimigos. Outro destaque é o contraste claro entre Ash e Eiji, que vai além das características físicas. Enquanto Ash é caucasiano, comparado a um gato selvagem, assustador, Eiji é um japonês de cabelos e olhos negros, feições e comportamento delicados, sutil e inocente. Que mostra uma nítida subversão dos conceitos de claro e escuro.

Temas polêmicos (Spoilers!)
Provavelmente já ficou claro que representatividade é algo importante para mim enquanto espectadora, contudo em animes é difícil ver representatividade racial, pois o foco das animações japonesas são seu público natal. Todavia existem inúmeras formas de representatividade, e Banana Fish ganhou meu coração ao iluminar uma parcela da nossa população tão sub-representada no gênero, o público LGBT (Não, isso não é um spoiler). A sexualidade é um tema em voga durante o decorrer do anime e a forma com a qual ela é tratada oscila bastante. Desde o primeiro episódio, observações sobre a sexualidade dos personagens são feitas, no terceiro episódio o espectador já vê o primeiro beijo entre o Ash e o Eiji. (Isso é um spoiler)

No entanto, temas muito pesados e obscuros relacionados à sexualidade são tratados na trama. Pedofilia, abusos sexuais, prostituição, pornografia infantil e estupro são apenas alguns dos maus tratos que Ash teve que enfrentar durante sua infância e adolescência. Durante os episódios os traumas de Ash são confrontados de forma visceral, sendo utilizados contra ele, tornando visível que ele carrega consigo as sequelas desses traumas. Ainda que representados em sua maioria de forma não gráfica, as cenas são feitas para que quem assista consiga preencher as lacunas. Por essa razão, se os temas aqui descritos são um gatilho, Banana Fish não é um anime que eu recomendo para você.

Mel e fel.
Em razão de tudo isso, Ash é um personagem extremamente forte. Uma pessoa que foi por tantas vezes derrubado pela vida, conseguiu reerguer-se apesar de seu passado. Ash é inteligente, intuitivo, bom estrategista, exímio atirador e lutador, leal e amigo, um personagem carismático como poucos, impossível de não gostar. Porém, Ash é uma pessoa atormentada pelo trauma e sofrimento, que desconfia de adultos e confia num círculo diminuto de pessoas. Até a chegada de Eiji. Ainda que mais velho que Ash, Eiji é um menino, é latente no decorrer do anime o quão isso é um aspecto importante do personagem. Ingênuo e doce, Eiji se atreve a dizer o que não se espera, portar-se de forma despreocupada e livre, sem segundas intenções. O que o torna imediatamente fascinante para Ash.

Ao desenrolar da trama, Ash faz alianças, perde amigos, e constrói um relacionamento com Eiji, que perpassa o magnetismo do encontro inicial, tornando-se algo profundo e sólido. Apesar de romance não ser o foco da obra, e da certeza do meu ship continuar junto, Banana Fish o constrói de forma suave e indelével, tornando impossível que você não se apaixone junto com eles e por eles. O anime todo é muito intenso, seja da personalidade dos personagens, aos relacionamentos que eles constroem, e o ritmo que a história é contada, tudo é feito para que você fique sedento por mais. Prova disso é que a moçoila que vos fala matou os nove primeiro episódios em um dia, e ficou tão desesperada que começou a ler o mangá.

E para fechar:
Banana Fish foi originalmente escrito e ilustrado por Akimi Yoshida, e publicado pela Shōjo Comic, que curiosamente publica mangás voltados para jovens moças, sendo publicado de maio de 85 a abril de 94. Outra curiosidade é que o nome Banana Fish, advém de um conto de J.D Salinger, chamado A Perfect Day for Bananafish. Caso os temas presentes no anime não sejam gatilho para você -seu bem estar em primeiro lugar- eu absolutamente recomendo Banana Fish. O anime consegue mesclar tristeza e alegria; desespero e esperança; pureza e malícia; de uma forma majestosa. Eu genuinamente espero que vocês se apaixonem tanto por esse anime brilhante quanto eu me apaixonei.

Um cheiro e até a próxima!