Então, quando eu soube da cabine de Sou Carnaval de São Salvador, eu fiquei “bom, não deve ser lá essas coisas, mas cinema nacional, vou incentivar”. Logo na sequência veio mais um e-mail de outro filme nacional, “Eu Sou Mais Eu” da Kéfera. Rolou um efeito ancoragem automático, e me animei pra ver o documentário. E olha, grande acerto. Maravilhoso.

SINOPSE
Este filme documental conta a história do carnaval na capital baiana, se valendo de gravações da festa entre 2014 e 2018, além de imagens de arquivo, reconstituições históricas, e boa pesquisa não só sobre o evento, mas também sobre o estado e a cidade de Salvador.

MORTOS-VIVOS
“Atrás do Trio Elétrico, Só não vai quem já morreu”, cantava Caetano. E por grande parte da minha vida, ou eu era um contra-exemplo a essa frase, ou só estava morto, mesmo [risos]. Carnaval se torna uma possibilidade na minha vida apenas quando conheço meus colegas de faculdade (que são grandes amigos até hoje), período esse em que eu preferia ficar em casa, aproveitando as folgas forçadas na internet. Se você não é baiano, saiba: aqui, o carnaval vai durar de quinta à terça, tendo festas já na quarta anterior, e na quarta logo depois. Depois, Carnaval se torna uma constante na minha, vida, festa na qual vou pelo menos 2 dias, todos os anos.
Por que estou falando isso? Porque carnaval é uma loucura coletiva, que é também, muito pessoal. É uma festa, inclusive, que tem TUDO pra dar errado. E dá super certo, e dá vontade de voltar sempre. Porque?

FESTA DA CARNE
Não sei. E esse, talvez, seja um dos méritos de Sou Carnaval de São Salvador. Ele usa, o tempo inteiro, a linguagem autobiográfica, ou seja, é como se a Festa estivesse falando com você. Logo, ela não tenta se mostrar, ela tenta se apresentar. Dizer quem é, de onde veio, como está, talvez para onde vai. O que a compõe. Quem a construiu. Quais povos, quais línguas, quais ritmos, de quaisquer parte do mundo, que vieram para cá, Bahia, e se reuniram nessa loucura histérica de uma semana. Qual a origem do seu nome. Então, por isso, o filme não é só para entusiastas (apesar de que, eu acho, é quem mais vai gostar). Sou Carnaval é para qualquer um com curiosidade, com vontade de entender o que Diabos acontece na terra de Salvador?

DISPUTAS
O filme não brilha apenas em mostrar a parte bonita e construtiva da festa. Mostra, também, seus problemas, tanto inerentes, como explícitos. Os contrastes sociais, culturais, raciais. A constante luta de classes, que separa povo e elite por suas cordas e seus altos camarotes. A realidade daqueles que vem de fora do país contrastando com os que vivem nas ruas do circuito. As diferentes percepções, daqueles que estão inseridos nela, sobre suas realidades. Se, por um lado, como diz um entrevistado, “Só tem duas datas realmente democráticas, eleição e carnaval”, por outro lado, “Quem curte o bloco é branco, quem puxa a corda é preto”… e está tudo aqui. A brigas, os roubos, o excesso de lixo, os excessos de drogas… porque estou falando disso: Porque carnaval é uma festa de extremos e contrastes, é ÓBVIO que ela não é totalmente positiva, e o filme brilha em ser honesto neste aspecto.

SALVADOR, MEU AMOR
É comum o discurso das pessoas que vivem aqui em Salvador, de que a cidade não presta, de que querem sair, e tudo mais. É uma cidade claramente cheia de problemas. Mas é, também, o palco de uma população maravilhosa, “que fala pegando”, e que tem muita energia para doar aos outros. Sou Carnaval não é só uma homenagem à festa, é também uma ode à cidade. De fato, ao estado como um todo, mas com destaque à capital.

NA ÚLTIMA ASTRONAVE
Olha, tem tanta coisa pra dizer sobre Sou Carnaval que daria pra ficar horas escrevendo e comentando. Mas ia ser muito sem graça. Vão conferir o filme, vale a pena demais. E voltem para comentar!

Direto do túnel do tempo
MINI-CAST
O mini-cast dessa vez foi especial, pois o diretor Marcio Cavalcante estava presente, e eu e Laise (participante indireta do site) fizemos um bate-papo entrevista com ele. Inclusive, peço de antemão desculpas pela minha falta de jeito, nunca fiz muitas entrevistas na vida! Esqueço de perguntar nome, de me apresentar… em boa parte do áudio, vocês ouvirão uma voz feminina que é da diretora de produção Sheila Gomes (Deu bastante trabalho achar seu nome, que falta faz o IMDB). Também tivemos direito à tietagem, com a foto abaixo. As pequenas entrevistas vocês ouvem clicando nos links abaixo.
Parte 1, onde eu e Laise conversamos com Sheila Gomes sobre o filme e a festa.
Parte 2, onde nós dois, de novo, conversamos com Marcio Cavalcante sobre os contrastes da festa.
