Kidding – Crítica da primeira temporada.

Kidding – Crítica da primeira temporada.

Depois de nos brindar com a espetacular terceira temporada de Twin Peaks, o canal Showtime mais uma vez nos surpreende, com uma produção extremamente original e distinta. Kidding foi uma das melhores surpresas de 2018.

SINOPSE

Jeff (Jim Carrey) é o astro multimilionário de um programa infantil televisivo, amado tanto pelas crianças que o assistem como pelos pais delas. Mas a vida exemplar e inspiradora dessa figura pública se transforma completamente quando problemas familiares começam a surgir. Sem saber como lidar com a nova situação, o simpático apresentador precisará de muita ajuda para manter sua sanidade.

EXPECTATIVA

Logo que essa série foi anunciada fiquei realmente empolgado, pois Michel Gondry é um dos filmmakers mais criativos do audiovisual contemporâneo, dono de um estilo muito próprio e  inventivo. Kidding marca o reencontro de Gondry e Carrey, que trabalharam juntos no maravilhoso Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, obra onde o ator entregou uma das melhores, possivelmente melhor, atuação de sua carreira. A ideia dos dois juntos novamente, me maravilhou. Principalmente pelo momento da carreira de Carrey, que é um ator genial, e estava no ostracismo. Me parecia uma parceria muito promissora, e de fato foi.

AGRIDOCE: DA FÁBULA AO BIZARRO

Kidding conta a história de um cara que tem uma vida pública, onde tem de se mostrar perfeito, ao mesmo tempo que em seu íntimo tudo está desmoronando. E essa história é contada da forma mais estranha possível. É difícil pensar essa série dentro de um gênero. Ela parece muito com uma comédia, tem vários momentos de tensão que remetem a um thriller, mas na maior parte do tempo, e  quase todos os conflitos, são dramas. E o tom é uma coisa muito diferente de quase tudo que eu já vi. Quando penso em uma palavra que defina essa série, a primeira que me vem à mente é “agridoce”. Ela gera uma mistura de muitas sensações no espectador. O tom de fábula com toques surrealistas  permeia a série do início ao fim. Isso é meio que uma brincadeira de metalinguagem, pois a série retrata a produção de um programa de TV, um show infantil que carrega toda essa aura mágica, que acaba transbordando para a série de verdade. Em contrapartida, outro elemento fulcral de Kidding, é a bizarrice e o desconforto. É muito frequente a sensação de estranhamento, momentos em que você não sabe se ri, sente nojo, ou chora.

É um contraste muito grande, pois dentro de toda essa aura mágica da série, os personagens estão  quase sempre em situações que são muito opostas ao mágico, ao encantado. Eles estão vivendo o pior de suas vidas, alguns no fundo do poço. É um misto de inocência e maldade que causa um estranhamento perverso. Muito difícil ficar indiferente.

ATUAÇÕES

Kidding tem praticamente apenas um núcleo de personagens, tudo gira em torno de uma família, seus dramas e dilemas. Todas as interpretações são corretas, nenhum ator desse elenco deixa a desejar. Dentre todas as atuações, três se destacam.

Frank Langella, que interpreta Sebastian, é a grande figura paterna da família Pickles, o pai de Jeff e Didi, e também produtor do show de TV. Sebastian é um personagem multifacetado, ele é autoritário, ganancioso, realista, cruel e pragmático. Mas também é amoroso, protetor, cativante, carismático e extremamente humano. E Frank Langella entrega tudo isso de uma forma tão natural que é praticamente impossível não se afeiçoar por seu personagem.

Outro destaque é Catherine Keener. Ela faz a Didi, irmã do Jeff e  a criadora dos fantoches de Mr. Pickles’ Puppet Time (o show de TV retratado na série). Didi tem um dos arcos mais dramáticos da série, ela parece o tempo todo estar carregando o peso do mundo nas costas. É uma mulher de meia idade que está completamente perdida, insatisfeita com a vida que leva e parece não saber que rumo seguir. Sua relação com o marido e a filha é algo muito trivial, mas ao mesmo tempo muito complexa, tem muitas camadas ali, amor, comodismo, cansaço, insatisfação, frustração e desejos reprimidos. Quanto mais vamos conhecendo a personagem, mais temos a sensação de que ela está prestes a explodir. Catherine constrói Didi de forma muito sutil.  No tom de voz, na forma como levanta ou baixa o olhar, na própria postura corporal retraída ou em como encara o vazio. É uma interpretação comovente e verdadeira.

Jim Carrey, como não poderia ser diferente, é o show a parte dessa série. Jeff é um personagem extremamente complexo. É muito difícil sabermos quem é o real Jeff, é como se ele se escondesse o tempo todo em seu personagem do programa de TV, Mr Pickles. É como se os dois fossem a mesma pessoa, o que é bizarro, tendo em vista que Mr Pickles é praticamente um personagem mágico. E Jeff é uma pessoa tão incrível, tão maravilhoso e bom que é impossível acreditar que ele seja real. Ninguém pode ser tão bom assim. O verdadeiro Jeff só vai aparecer nos momentos em que ele tem de encarar a realidade da dor. A série é muito sobre isso, sobre esse cara que sempre foi a pessoa perfeita, só que tá tomando uma surra da vida e para superar essa surra ele não pode ser mais o personagem, tem se ser ele mesmo. E é incrível como Carrey cai tão bem nesse personagem, ele tem o carisma e a empatia, e quando tem de surtar, ele  surta de uma forma tão real que chega ser assustador. É realmente muito lindo ver ele nesse papel, pois tem muito do Jim em Jeff, é um personagem muito engraçado, mas, ao mesmo tempo, muito trágico. E o que é impressionante nessa interpretação é como Carrey vai de um extremo a outro muito rápido. Na mesma cena, em segundos, ele se torna outra pessoa. Certamente uma da melhores atuações da TV em 2018.


DIREÇÃO E ROTEIRO

Kidding é uma criação de Dave Holstein, que assina a produção e roteiro. Até então eu não conhecia esse roteirista, mas aqui é possível reconhecer muita qualidade em seu texto.

Gondry e Holstein no set de Kidding (fonte: Indiewire)

Dos 10 episódios, 6 são dirigidos por Gondry. Que dita todo o tom  lúdico da série. Quem já assistiu, certamente vai lembrar de Sonhando Acordado,do mesmo diretor, que também tem uma narrativa muito lúdica e mágica. A fotografia da série também remete muito a esse filme. A direção de Gondry, como sempre, é muito inventiva. A forma como eles usam o Show de TV da série para construir a narrativa é incrível, as metáforas, as mensagens. Não sei ao certo, mas parece que Holstein escreveu essa série exatamente para ser dirigida por Gondry, pois é um encontro de tema, clima, narrativa, e estática que encaixa de forma perfeita no tipo de coisa que esse diretor faz. Kidding dificilmente seria tão mágica e perturbadora se não tivesse a direção de Gondry como seu fio condutor. Também tem dois episódios dirigidos por Minkie Spiro, e outros dois por Jake Schreier . O terceiro episódio, dirigido por Jake, tem em termos de fotografia, a cena mais legal e complexa da série. É um plano-sequência dentro de uma sala que vai mostrando a passagem de tempo e a mudança na vida de uma personagem. Vendo na série é uma cena que chama muita atenção, e vendo o making off, de como foi gravada, é genial.

POR FIM


Kidding foi minha série favorita de 2018, é uma das produções mais autênticas dos últimos anos. É extremamente humana e honesta, claramente feita com muito carinho.  É uma série encantadora, uma fábula. Mas também é adulta, com reflexões extremamente densas sobre desigualdade social, luto, amor, compaixão, medo, desejos e perversões.  É sobre aceitação e mudança. Uma ode ao conformismo e ao desespero. Uma luta travada no cotidiano entre a beleza de um mundo mágico e encantador, e a brutalidade do mundo real. Definitivamente, é uma série que  merece ser vista.

Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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