Contexto
Esse texto era, originalmente, um email escrito para o Jovem Nerd, como comentário ao Nerdcast 873 – The Last of Us: Procure a luz, morangos e zumbis. Mas infelizmente eu perdi o prazo do envio. Então resolvi reformatá-lo para publicar aqui.
Eu não joguei The Last of US ainda, mas eu fiquei apaixonado pela série. Inclusive, um apelo: Steam, abaixa esse preço aí, o jogo não é mais lançamento! Mas enfim, voltemos à série. Todo o drama, a tensão, a fotografia, as ideias, os zumbis, até o nojo absurdo que eu senti no episódio 2 foi legal (apesar de desesperador). Mas eu queria mesmo era falar do final. Então, já fica o aviso ao leitor: Esse texto tem grandes spoilers de toda a primeira temporada, principalmente do primeiro episódio. Também vou ter que usar spoilers do anime/mangá Vinland Saga (vai fazer sentido, eu juro).

Sobre a natureza do amor
Todos os episódios de The Last of Us me deixaram empolgado para continuar assistindo, ou motivado, ou com medo. O último foi o único que fiquei parado um tempo, pensando, e tentando entender o que eu estava sentindo sobre ele. Eu me toquei que, para falar dele, eu preciso comentar duas outras histórias, uma de um mangá, e outra desses panfletos que entregam pra gente na rua.
Em Vinland Saga, existe um diálogo que vale muito a pena prestar atenção. Ele começa aos 00:08:14 do episódio S01E18, ou nos capítulos 36 e 37 do mangá. Ele envolve 3 personagens, o Príncipe Canute, o padre Willibald, e o recém-falecido Ragnar. Em dado momento, Canute perde o seu protetor Ragnar, e se sente completamente perdido. Ele diz que o Ragnar foi o único que verdadeiramente o amou, no caso como um pai ou amigo. O padre está ao seu lado e, apesar de achar belas as palavras do primeiro, responde:
“O que ele sentia por você era amor verdadeiro? Ele se omitiu e observou 64 aldeões inocentes morrerem, simplesmente para garantir a sua segurança.”

“Discriminação”
Mais adiante, atordoado com a possibilidade de não ter sido verdadeiramente amado, ou de que talvez ninguém saiba mais o que é amor de fato, Canute pergunta:
“Então o amor de um pai por um filho, de um marido e mulher um pelo outro, ou a afeição que o Ragnar sentia por mim… O que são?”
Ao que o padre responde:
“Discriminação. Isso tem pouca diferença daquele que se ajoelha perante seu rei e então açoita seus escravos. Para o Ragnar você era mais importante que qualquer um nesse mundo […]. Provavelmente ele o estimava mais que sua própria vida. Por você, e somente por você, ele observou 64 aldeões serem mortos. Discriminação.”
O diálogo termina com o Canute chegando à conclusão que não há amor no coração dos homens.

O filho sacrifício
O dilema de Joel, no último episódio de The Last of Us, me lembrou muito aquelas historinhas cristãs (onde tentam criar uma metáfora para que a gente se convença de que Deus é um cara super legal, e que sacrificar Jesus era o certo mesmo). Nessa que eu estou pensando, talvez vocês conheçam, o narrador pergunta ao ouvinte:
“Imagine que uma doença está matando todo o mundo. Imagine que descobrem que a cura para esta doença está no sangue de seu filho. Você sacrificaria ele para salvar o mundo inteiro? Foi o que Deus fez por nós.”
Não quero dizer que Joel é Deus, ou que Jesus xingava pra caramba, nem mesmo que o cristianismo é só amor, mas é basicamente a mesma história, né? Joel teve, literalmente em suas mãos, a pessoa com a provável cura da infecção pelo cordyceps. Infecção essa que arrasou o planeta nos últimos 20 anos. Mas para a decepção de qualquer fiel que te conte a historinha acima, ele atira nos cientistas e sai correndo com a criança salvadora embora.

Egoismo
É esse fato que me pega. A gente pode entender o que Joel fez foi como um ato de amor incondicional pela Ellie. Mas, dependendo de como se olhe, ele sacrificou milhões de outras pessoas que ainda resistem no planeta em prol de uma única menina, e apenas pelo valor que ela tinha para ele. Pior, não era egoísta “apenas” por evitar salvar a humanidade. Era egoísta perante a própria Ellie!
Ela está cabisbaixa por todo o começo do episódio, e a gente pode deduzir que seja por conta dos acontecimentos do episódio anterior. Mas pode ser TAMBÉM por ela saber que a jornada de ambos vai terminar. Digo isso porque quando o Joel fala para ela que eles podem simplesmente desistir (e desistir é uma delícia, já cantava Coronel Pacheco), Ellie responde:
“Depois de tudo o que a gente passou, depois de tudo o que eu fiz… não pode ser pra nada. Eu sei que a intenção é boa, eu sei que você quer me proteger, e protegeu! Depois daqui a gente vai pra onde você quiser […], mas não dá pra largar o osso. Vamo (sic) terminar o que a gente começou.”

A mão que corta não pode tremer
Ou seJE: Ela sabia que ia ser difícil, e que podia dar tudo errado, mas mesmo assim ela decidiu continuar. Eu vou um pouco mais longe na minha interpretação para dizer que acho que a Ellie tinha certeza de que sim, poderia morrer no final do caminho. Mas ela não queria que fosse em vão, ela queria ser útil de alguma forma. Quando ela escreveu “sorry” no final do capítulo 5, não foi só por terem matado o Sam. Foi por ela não ter conseguido salvar ele da doença, também. Nem a Riley, nem mesmo a Tess. “Não pode ser para nada”.
E todo esse egoísmo do Joel, como bem disse a Kat no nerdcast supracitado, vem do fato de ele ser incapaz de falar sobre seus sentimentos! Ele se tornou essa “máquina de matar”, como os participantes do programa bem disseram, em troca de esquecer que sua filha morreu em seus braços enquanto ele tentava salvá-la. Mas ele nunca esqueceu, e nunca se perdoou. Ele sente culpa por isso até hoje. E essa culpa é tão grande, tão absurda, que ele prefere, no final do último capítulo, mostrar como Sarah e Ellie são “parecidas”, sendo que elas são flagrantemente diferentes, só para que a verdadeira chacina que ele causou faça sentido!

Mentiras
Bom, se tem uma coisa que a Ellie não é, é burra. Ela sacou, de cara, que o Joel estava mentindo em todo aquele papinho dentro do carro. Ela fica em silêncio, mas, quando resolve voltar a falar, ela começa justamente contando a história da Riley. E deixa bem claro que foi ela quem deu cabo da amiga/paquera. Ou seja: que ela sabe o que é ver alguém querido estar em vias de morrer, e ser você a pessoa que tem que matá-lo. Ela sabe a importância não só do sacrifício, mas de que a mão do executor não trema!
Então ela pede que o Joel jure. E ela pede isso (de novo, é minha interpretação) por que ela precisa saber que não foi verdade, que ele não deu cabo dos últimos vagalumes, da Marlene, da equipe médica, e da própria chance de salvar o mundo todo, só por ela. E Joel mente.
Ellie, sabendo que é mentira, prefere fingir acreditar, prefere esquecer que a pessoa que ela mais ama no mundo fez a coisa que ela menos queria, para que ela consiga continuar vivendo (e convivendo) em paz.

Conclusão: Mas… e você?
Muito disso que eu trouxe nesse texto não está “dito” no episódio, mas não consigo deixar de pensar que essa é a ideia por trás, sabe? E eu acho importante salientar: eu não sou pai. No máximo tio, e pai de pet. Eu não sei o que eu faria se coubesse a mim sacrificar minha sobrinha Zuri, ou meus cachorros Onix e Mago. E acho que esse é o ponto mágico nesse final. Eu não fiquei feliz com o que Joel fez mas… O que eu faria?