MA – é SÉRIO que vocês vão confiar…?

MA – é SÉRIO que vocês vão confiar…?

O filme de hoje certamente vão precisar de mais tempo pra ser digerido. Ma (2019)

MAS ANTES

Cara, eu tô com muita raiva do material de divulgação desse filme. Ele entrega MUITA coisa do final! Não vejam o Trailer. Na boa. Ou então, vejam só 1:30min do primeiro. Não vejam os seguintes. Vale a pena ir pro cinema “Limpo”.

SINOPSE

‘Cês sabem que nos Estados Unidos, a proibição de venda de álcool para menores é bem rígida, não é? Pois bem, um grupo de adolescentes procura um adulto que compre umas biritas pra eles, a acabam sendo ajudados por Sue Ann (Octavia Spencer), ou Ma, uma senhora muito simpática. Só que às vezes… Um pouco estranha.

ESTRANHO

Ma é uma boa definição de filmes de suspense. Ele não vai ficar te dando sustos constantemente. Mas vai te deixar tenso do começo ao fim. Pois tudo o que envolve a protagonista é muito estranho. Ela tem longos períodos de simpatia, cortados por arroubos de raiva e ódio que são inexplicáveis num primeiro momento. Na verdade, toda a história é esquisita (para quem tem mais de 18 anos). Uma senhora desconhecida que te ajuda a comprar cachaça, e que é TÃO LEGAL que deixa você e sua turma festejarem na casa dela? Que fica isolada do resto da cidade? Sei lá, eu prefiro manter meus rins.

Eu quero escrever mais sobre a Sue Ann, mas não quero estragar a experiência de vocês, então vai pro Momento P.S. O que me lembra, não vejam o trailer. Ele entrega cenas muito boas.

JUVENTUDE

O que me lembra como é incrível como jovens caem fácil em alguns truques. “Uma senhora super legal que compra alcool pra gente? Eba!!”. Velho, é uma mulher desconhecida te embebedando, presta atenção!!

Tem que acabar o jovem.

BULLYING

Apesar de ter toda uma construção de cenário lenta de complexa, Ma tem um encerramento corrido, passando por cima de algumas questões que poderiam ser melhor exploradas. A MSBP, por exemplo. Questões de racismo, também.

Ainda assim, a protagonista / vilã ainda é um personagem interessantíssimo. Uma pessoa apegada ao seu passado, que por vezes é fria e cruel, outras é extremamente sensível, ficando abalada facilmente.

Eu gosto principalmente de como a questão do bullying é abordada. Sue Ann não nasce vilã, se torna em decorrência dos fatos de sua vida juvenil. “Você precisa de ajuda!”, gritam para ela no fim da película, mais de uma vez. E é verdade, um acompanhamento psicológico seria fundamental na vida dessa pessoa. Porém, mais do que questionar e culpá-la por não ter feito tal tratamento, devemos pensar nas pessoas e ações que a levaram a um trauma tão pesado. Trauma esse que ela leva por toda uma vida, mais de 20 anos depois.

CONCLUSÃO

Ma é um ótimo suspense, com um 3º ato mais corrido do que deveria, porém com 1º e 2º excelentes. Eu não espero ver uma continuação (nem mesmo uma “prequência”), mas é inegável como Sue Ann é uma figura fascinante, e que deve ser vista com cuidado.

Eu ainda tenho questões a lidar com esse filme, mas isso não o estraga. Pelo contrário, está recomendadíssimo.

Abraços, e até a próxima!

MOMENTO P.S.

A construção do personagem Ma é muito complexa. O filme acerta muito em dar um background juvenil a ela, que envolve várias pessoas da cidade.

Quando jovem, era a “esquisita” da turma, que foi integrada ao grupo popular. Acreditou que o menino mais bonito da classe estava apaixonado por ela. E… é humilhada na frente da escola toda, depois de um momento muito íntimo. Isso desenvolveu nela traumas muito pesados.

De certo modo, ela nunca saiu da infância e nunca deixou de ter o desejo de se enturmar, com jovens em suas festas e bebedeiras. Esse retorno e resgate ao passado dela se torna doentio, a partir do momento que a possibilidade de fazê-lo se torna real. Também, gerou um sentimento de vingança e ódio reprimido contra todos os envolvidos, principalmente os mais proeminentes. Que, se não pode ser descontado nos próprios agentes da humilhação, será feito em seus “substitutos”, seus filhos.

Por fim, ela ainda desenvolve uma Síndrome de Münchausen por procuração (MSBP) que afeta sua filha diariamente, fazendo com que ela deixe a menina dopada, acredite que tenha problemas de locomoção etc. Infelizmente, o filme não explora mais essa relação. Deu vontade de ver. Mas a narrativa ficaria sobrecarregada.

Tem alguns detalhes sobre sua personalidade ainda. O complexo de “Único Negro do Grupo”, que só é mencionada no final (mas é importante), por exemplo, é um dos sintomas que nossa sociedade racista causa nos nossos, fazendo com que fiquem uns contra os outros. É uma coisa muito comum de ser estimulada entre as mulheres, e que elas vem quebrando retumbantemente. Porém, a forma como foi mostrada em cena me preocupou um pouco. Tive que conferir o diretor, Tate Taylor, um homem branco do mississipi. Ele não é estranho à causa anti-racista, tanto que dirigiu Histórias Cruzadas (The Help, 2011) (onde inclusive, Octavia Spencer ganha Oscar). Porém, essa mesma obra tem, em sí, problemas de representatividade. Eu não acho que Ma explora as questões de raça nem na quantidade, nem na qualidade que poderia.

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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