As vezes rola um bloqueio, então os textos demoram a sair. Peço desculpas. Mas vamos louvar um pouco a incrível cultura dos RPGs de mesa, com Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020).

SINOPSE
No mundo onde a magia existia, e seres sencientes, como elfos, sátiros e ogros, conviviam com unicórnios e dragões, a tecnologia vem para tornar a vida mais fácil! Mas… a magia acaba morrendo. Será que ela se foi por completo?

PATERNIDADE E SOLIDÃO
Dois Irmãos tem alguns temas principais. O primeiro, claro, é brincar com a cultura capa e espada, da fantasia medieval e tudo o mais. A brincadeira, aqui, é tentar imaginar o que aconteceria num mundo fantástico onde surgiu a tecnologia. O contrário já aconteceu diversas vezes nos anos 80 e 90, e você certamente já viu algo do tipo.
Mas o principal tema é: e se você pudesse ter mais um dia com alguém que você perdeu? O que você faria para ter esse tempo de novo? Você atravessaria vales, subiria montanhas, entraria em cavernas? Você enfrenta seus medos? Você faria as pazes com seu irmão?
Dois Irmãos é sobre sacrificar tudo o que puder por alguns momentos com alguém que você perdeu, é sobre realizar sonhos, é uma jornada de autodescoberta. E é tudo muito divertido. Vale a pena.

ROLE PLAY GAMES
Dois Irmãos se baseia muito na cultura dos RPGs, e da fantasia medieval, que imagino que o leitor já conheça. Se não, vamos revisar rapidinho: quem já assistiu Caverna do Dragão nas manhãs da Globo vão sacar o que a gente tá falando, é um universo fantástico, onde a magia e seres fantásticos coexistem com seres humanos. Pessoas com certas habilidades se metem em aventuras fantásticas atrás de um objetivo. Caverna do Dragão em inglês é chamado Dungeons and Dragons, jogo de interpretação de papéis (role play games, RPG) em que a animação se baseia. No jogo, se especializar numa técnica, se tornando um guerreiro, ladino, ou mago, para sair numa aventura, não é um completo absurdo. Pelo contrário, o jogador escolherá uma “raça” (como humano, elfo, anão), uma classe (guerreiro, bárbaro, mago), e se junta com amigos para viver uma aventura ditada pelo mestre.
Em Dois Irmãos, o mestre é um papel dividido por alguns personagens. Tanto o pai (in memorian) quanto Barley (Chris Pratt, Raphael Rossatto) narram e guiam a história. Ian (Tom Holland, Wirley Contaifer) é o “jogador”, um “aprendiz de mago” (ou Mago nível 1) adolescente. Nesse mundo, onde a magia já existiu, livros de jogos são quase livros de história, pois são baseados não em contos fantasiosos, mas em dados históricos. Nesse lugar incrível, faz todo sentido pegar um jogo de cartas temáticas para estudar magia. É bizarro, mas funciona. Que inveja!

OPA, PIXAR!
A Pixar é um estudo de animação diferenciado. Mesmo trazendo “desenhos animados”, tendo crianças como público alvo primário e tudo o mais, ela é reconhecida por seus filmes capazes de emocionar. Por exemplo, Toy Story, Wall-E, Up! Altas Aventuras, ou Divertida Mente. Até mesmo filmes onde a ação é o mais atraente, como Os Incríveis. Mas sempre um filme com camadas, são lúdicos e divertidos ao mesmo tempo que são maduros e inteligentes.
Claro que isso se torna uma maldição. A cada novo filme, esperamos o novo Procurando Nemo, torcendo para que não seja o novo Carros (eu chamo isso de Conflito Toy Story 3 / Toys Story 4). Então sim, eu sei qual é a sua dúvida: em que parte desse espectro está Dois Irmãos?
Ele está no meio. No sentido em que, ele é um bom filme, bem escrito, e tem mais de uma camada sim. Pessoas que já perderam pais quando novas, tenho certeza que vão se identificar e se emocionar bastante. Porém, Dois Irmãos está, muitas vezes, mais focado nos desdobramentos da aventura, e na brincadeira de relacionar o jogo de RPG com um mundo possível, do que trazer grandes reflexões e debates. Então sim, temos aqui um bom filme, mas não está no panteão da empresa.
Mas que eu quero aqueles livros e bonequinhos, ah eu quero.

CONCLUINDO
Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é um filme leve e divertido, que mistura fantasia, magia, com ausência paterna, relação entre irmãos e afins.
(Dá pra pensar que também é uma crítica a como a tecnologia mata a “magia” do mundo natural e antigo. Mas eu só tive essa epifania agora, não vou explorar agora).
Não estamos diante de um novo clássico da Pixar, mas com certeza é um ótimo filme. Recomendadíssimo!
