Quando chegou o anúncio de Casal Improvável (Long Shot, 2019), eu fiquei “Hum. Comédia romântica genérica”. E saí do cinema pensando que vi um dos melhores do gênero. Mesmo que seja um gênero que eu não curto muito.

SINOPSE
Charlotte Field (Charlize Theron) é uma das mulheres mais influentes do mundo, como Secretária de Estado do Governo Estadunidense. Já Fred Flarsky (Seth Rogen) é um jornalista mega crítico que acabou de ser demitido. Curiosamente, eles se conheceram na adolescência. E agora Fred vai trabalhar produzindo discursos para seu amor juvenil.
Começar pela parte mais simples, depois ir abrindo para debates.
Já falei lá em cima, esse não é o tipo de gênero que eu curto muito. Pra mim não faz muito sentido ficar vendo casais se encontrando, é como ler a revista Caras. Fora que muitos são sobre pessoas ricas fazendo coisa de gente rica pra se dar bem no final, e eu sei lá, é meio bonito/brega, mas quase não faz sentido. Enfim.
Casal improvável lida com isso muito bem. As ostentações que podem aparecer não são “somos privilegiados, lide com isso”. Mas sim “sou uma das pessoas mais importantes do governo estadunidense, é óbvio que ostentação faz parte do meu dia a dia”. E não só, mas de uma forma mais orgânica também. Um super evento de gala pode ter um grupo de R&B sem problemas. Os prédio estatais não são só salas de escritório, tem quartos pessoais e depósitos também.

COMÉDIA
Acho que mais do que isso: como a Comédia, em Comédia Romântica, é BOA! Eu rio fácil, então Casal Improvável me pega super rápido (a sequência inicial é de se mijar), mas ele mantém o nível do humor sempre muito bom. É claro, se você tiver conhecimento sobre cultura e política americana, vai dar uma facilitada (fica a recomendação, ouçam Xadrez Verbal, Chutando a Escada, Petit Journal, Café da Manhã, e assistam John Oliver e Patriot Act).
As piadas normais já seriam excelentes, mas Casal Improvável faz MUITAS críticas á representação feminina na política, e isso é muito foda. Por exemplo, perguntam a ela o que ela passa no cabelo, sendo que… sério? Ou então, quando falam que para ela se manter na corrida presidencial, ela precisa saber acenar com as mãos. Gente, pelamordedeus, olha pro nosso presidente, e para o presidente atual dos Estados Unidos. Isso não IMPORTA, se você é homem. Tipo, o Collor era bonitão, mas olha no que deu. Fora que isso nunca é cobrado, também.
Vou falar mais disso mais pra frente.

ROMÂNTICA
Sobre a parte do Romântica, do nome, e fazendo mais uma piada com os nomes, eles capricharam muito no Improvável do título. Esse casal só funciona porque ambos se conheceram na adolescência. Isso permitiu a aproximação num evento igualmente improvável. Se não fosse esse dado, ele não seria improvável, seria impossível. Por outro lado, na tela, ele é crível. E isso é bacana porque nesses filmes, quando o casal é formado por uma deidade, e o outro é só bem merda, mas ensina o primeiro “a simplicidade da vida”, ah, vá pa p@#$%. Aquilo nunca existiria. Mas Casal Improvavel faz funcionar.
Claro, tem umas forçadas de barra, que você aceita em nome do amor. O final mesmo, ele é bom no contexto do filme, porque na vida real… jamais funcionaria.
Também vou falar disso mais pra frente.

AMIZADE
Se houvesse uma premiação para personagens (não para seus atores), alguém tinha que dar o de coadjuvante para o Lance (O’Shea Jackson Jr.). como a amizade dele com o Fred é foda! O cara tá sempre pondo o amigo pra cima, sempre falando como ele é foda e que deve confiar em si, e na hora de largar a real, larga mesmo. Manda a verdade na cara. Wakanda Forever!

POLÍTICA
Outro atrativo é que, por mais que a parte política de Casal Improvável seja adaptada para uma realidade mais suave, muitos dos temas mostrados são muito reais. A questão defendida pela Charlotte, a ambiental, é crucial, e os EUA sempre foram um major player nesse assunto (Não do mesmo lado que ela). A forma como o projetos são renegociados sempre, sendo deformados, mas que é necessário acordar para que se mantenham, também é muito importante.
Também vou falar disso mais pra frente.

CONCLUINDO
Vou encerrar a resenha do filme por aqui.
Casal improvável é uma doce surpresa nesse oceano de generalidades que são as comédias românticas. O dia dos namorados passou, mas ainda dá tempo de conferir – só, ou acompanhado/a.
Abraços!

MOMENTO P.S.
Daqui pra frente, vou seguir com alguns debates que o filme levanta.
SOBRE COMÉDIAS ROMÂNTICAS DE CASAIS IMPROVÁVEIS
Esse é um gênero de filmes meio complicado. Ou melhor, não exatamente complicado. Mas que tem clichês muito bem definidos, saca? E “Casal Improvável” é um subgênero em si. Uma das partes super perfeita, a outra toda cagada. É muito normal.
Conversando com Iza e Bells, daqui do site, elas estavam demonstrando sua insatisfação com esse tipo de filme. Porque em muitos dele, a personagem superior é a mulher e o inferior é o homem. Num sentido que, primeiro, a mulher pode ser incrível e aceitar um cara merda. Ou então, que a mulher é um objeto/objetivo a ser alcançado, quase numa ideia de superação (“acredite nos seus sonhos”, liberal é foda). O que é…
Bem escroto, se você parar pra pensar. Se a mulher é super foda, ela merece um cara super foda. Na verdade, primeiro: dar NÍVEL pras pessoas fode muito uma relação. Se existem pessoas superiores numa sociedade, esse tipo de discrepância atinge a relação, e é uma merda. NADA de bom vem disso. “Amor vai além do dinheiro”, claro que vai, mas vai se relacionar com alguém com o saldo bancário muito diferente do seu, vai? Então, o que vai resolver as comédias românticas é a igualdade social, e a superação da luta de classes (sobe o hino da internacional).
Voltando.

Quando você vê uma repetição de histórias de um tipo de pessoa (o cara fudido) se dando bem, você começa a pensar sobre para quem esse tipo de narrativa é feito. Ou melhor, quem vai consumir. E é estranho, porque veja, o consenso é que C.R. devem ser para o público feminino. Mas quem se dá bem, nos filmes?
Os homens.
Na real, esses filmes são para homens assistirem e se sentirem bem!
E quem dirige e escreve?
Então assim, a real é que é um estilo que precisa ser revisto. Se mulheres são o público-alvo, deixem elas escreverem e dirigirem. Elas sabem o que querem. Essa mania de estúdio achar que sabe o que as pessoas querem tem que ser, no mínimo, reformada e melhorada.
Tem que acabar os estúdios.
(Tá tarde, eu tô revolucionário hoje.)

SOBRE GANHOS E PERDAS DE AMBAS AS PARTES
[SPOILER]
No último ato de Casal Improvável, surge o dilema: Fred aceita desistir de parte do seu idealismo para ficar com Charlotte? E Charlotte, pode arriscar a corrida presidencial para continuar com Fred?
VOCÊS CONSEGUEM ENTENDER O PROBLEMA?
A discrepância é grande DEMAIS! A mulher claramente tem muito mais a perder, nesse embate, do que o homem! O problema dele é uma questão de ego, o dela pode mudar a política internacional nos próximos 4 anos (no mínimo).
E
ELA
CEDE!
Ela concorda com essa maluquice, de assumir o namoro, mesmo sabendo que o cara é uma chacota internacional! Não tem como! Sua vida política seria destruída! Os conservadores estão voltando, gente, presta atenção!
Ele cede também, é claro. Mas qual o grande impacto na vida de Fred Flarsky? Ele botou no currículo que já trabalhou como redator de campanha para uma candidata a presidência, já ganhou um salário bom por meses, a perda dele é “só” emocional. A dela é a carreira indo pro buraco.
Claro, Casal Improvável é pra terminar good vibes. E termina, eles terminam juntos e ela consegue virar presidente. Mas assim… a gente sabe que não ia rolar.
Fora que a sequência final é quase toda sobre o Fred, e não sobre… a mais nova presidenta dos EUA? Pessoa mais importante do mundo, primeira mulher a assumir o cargo?
Preciso de mais suco de maracujá.
