O Escândalo – quebrando sistemas misóginos

O Escândalo – quebrando sistemas misóginos

Tem filmes que eu penso que outra pessoa deveria ter ido na cabine em meu lugar. Porque eu não empatizo com ele. Adoráveis Mulheres foi um exemplo. Em outros casos, eu preferia que outras pessoas tivessem ido em meu lugar, porque acho que teriam muito mais a acrescentar do que eu. O Escândalo (Bombshell, 2019)

o poster é dividido verticalmente em 3 partes. Da esquerda para a direita, cada parte tem o rosto em close de charlize theron, nicole kidman, e margot robbie. sobre seus cabelos estão os seus nomes, e embaixo, no centro, está escrito "based on a real scandal, BOMBSHEL, december"
poster oficial

SINOPSE

Em 2016, uma denúncia de abuso sexual abala a chefia da Fox News, um dos maiores (e mais conservadores) conglomerados de mídia dos Estados Unidos.

COMENTÁRIOS

Existe uma regra conhecida entre empregados: se você processa sua empresa, você “se queima” no mercado. Ninguém vai te contratar de novo, e seu destino será mudar de área de atuação. Quando estamos falando de grandes empresas, com recursos para ter uma rede de proteção e acolhimento para seus funcionários bem equipada e capacitada… a pressão só será maior. 

É uma reclamação comum, das mulheres, que casos de assédio sexual não recebem a devida atenção. A desconfiança acaba recaindo totalmente sobre a vítima (para exemplos, recomendamos a série Inacreditável).

Junte as duas situações numa só, e você tem a trama de O Escândalo. Com um adendo: estamos falando da Fox News. Um dos canais mais conservadores do país. A rede que foi a voz do Trump. 

Ninguém ligará para uma denúncia como essas.

Mostrando a baia da sala de produção de dentro da fox, vemos Gretchen, Kayla, e Rebekah (D'Arcy Carden) olhando, incrédulas, para fora da baia. ao fundo, vemos vários profissionais, em suas baias, em pé, conversando, com diversos papeis espalhados.
Mas que p…

PERSONAGENS

O Escândalo tem quatro personagens principais, sendo três deles baseados em figuras reais, e um é um “compilado” da história de diversas pessoas.

Charlize Theron interpreta Megyn Kelly, âncora de diversos programas da casa. durante as eleições de 2016 (ano que se passa o filme), Megyn media um debate com o candidato Donald Trump, sendo incisiva sobre a sua misoginia na internet. isso faz não só com que o atual presidente estadunidense retalie por meio “de sua rede social de microblogging”, como ela se torne alvo de todos os seus eleitores mais extremistas (que a direita adora negar que não existem). se torna uma das vozes mais fortes nas denuncias, devido ao processo de Gretchen Carlson.

Gretchen é interpretada por Nicole Kidman. Já foi vencedora do Miss America (isso tem mais importância do que deveria), e apresentou o Fox & Friends por anos. Inclusive, lembram de Casal Improvável, onde eles satirizam um programa de tevê com dois homens e uma mulher sentados no sofá, fazendo comentários políticos, e sempre rebaixando a mulher presente? Certeza que foi inspirado nesse programa. Depois de evitar uma das investidas sexuais de Roger, ela perde lugar de destaque na programação, ganhando um programa próprio mas num horário com menos audiência. inevitavelmente ela será demitida, e começará um processo que fará história.

Roger (John Lithgow), sentado numa poltrona em seu escritório, segurando uma bengala
Ó o arrombado aí, ó

Roger Ailes, interpretado por John Lithgow (que beleza de maquiagem), é o CEO da Fox. Algumas fontes o apontam como Kingmaker, pelo seu papel nas campanhas presidenciais de Richard Nixon, Ronald Reagan, George H. W. Bush e Donald Trump, além do prefeito de Nova York Rudy Giuliani. É o responsável por tornar a Fox News o gigante midiático e cultural que é. Mas também, por dar voz ao pior do conservadorismo, e de tornar o ambiente de trabalho terrivelmente tóxico para seus subalternos, principalmente mulheres.

Por fim, a personagem de Margot Robbie, Kayla Pospisil, é puramente ficcional. Ou melhor, ela é a junção de diversas histórias de mulheres que trabalharam na Fox: jovem, bonita, magra. De família conservadora, querendo dar orgulho aos pais. Ambiciosa, querendo ascender na carreira, sem estar pronta para o que essa ambição pode exigir dela. Kayla (e Jess, Kate McKinnon), mais do que uma pessoa, é um retrato das profissionais de “baixo escalão”, que não tem o poder que Megyn e Gretchen tem para se rebelar contra o sistema.

Em pé, Kayla e Jess estão abraçando seus cadernos e pastas com anotações, com olhar assustado
“eita…”

SERIAL RAPIST

Porque eu gastei tantos parágrafos para descrever personagens? Boa pergunta. Primeiro, eu quero que você entenda a potencia da história narrada no filme. Apesar de escrito e roteirizado por dois homens (Jay Roach e Charles Randolph) está o tempo inteiro mostrando como a estrutura doentia gerada na empresa Fox oprime seus/suas empregadas de formas terríveis – até mesmo aquelas que se aliam aos seus opressores. 

Segundo porque figuras como Ailes não cometeram apenas um erro, ou são casos isolados, ou que seja. Eles são sociopatas. São abusadores em série (de novo, assistam Inacreditável). São predadores que criaram um curral onde as suas presas então sempre próximas e tuteladas por ele. E as relações de trabalho que vem do século passado até hoje endossam esse tipo de comportamento.

Qual a solução? Não sei. Não sei nem se sou eu quem tem que propor. Mas acho que ouvir as mulheres e confiar nas suas histórias é um começo. É o que O Escândalo faz.

Na rua, próximo a um carro, Roger usa seu andador, e tem o olhar grave enquanto caminha. Atrás, Megyn (Charlize) está com o rosto muito grave, olhando para ele, como quem espera respostas. Ela está de braços cruzados, e segurando seu celular nas mãos.

TECNICIDADES

A narrativa desse filme é tão poderosa que me esqueci de falar de coisas mais técnicas e práticas. Atuações dão um show, com 3 vencedoras de Oscar e 2 nomeados. A fotografia é bem feita, mas não é um diferencial. mas tem duas coisas interessantes: a primeira, a forma como a câmera costuma fechar nos rostos para enfatizar as falas, meio sitcom, meio jornalismo. segundo, a interação entre atores /atrizes e personagens reais. Não são super jogos de câmera ou montagens mega elaboradas, mas é interessante ver a Charlize Theron interagindo com o Donald Trump de verdade. Também ocorrem quebras da 4ª parede.

Dentro de um elevador com paredes de madeira, enfileiradas, estão Magyn, Gretchen e Kayla. As duas primeiras parecem muito seguras de si, ao contrário da Kayla
Três forças de um mesmo combate

CONCLUINDO

O Escândalo é real demais. Não no sentido de ser uma representação fiel da realidade, como um documentário faria. Mas por ser uma adaptação de uma história muito poderosa, e de ser um relato de casos que podem acontecer muito próximos a você. Coletem provas, e busquem seus advogados.

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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