E aí, estavam com saudades das resenhas? Eu estava. E hoje com um filme que retrata umas das personalidades mais terríveis do século passado. Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile – 2019).

SINOPSE
Na década de 1960/1970, garotas foram encontradas mortas após sofrerem abusos físicos e sexuais. O nome do autor de tais atos ganhou mídia e ficou famoso: Theodore Robert Bundy, ou Ted Bundy (Zac Efron), um dos primeiros serial killers do período contemporâneo. Nesse filme, vemos sua história pelo ponto de vista da sua ex esposa, Liz Kendall (Lily Collins).
ANTES, UM ADENDO
Pessoal, seguinte: esse filme é baseado numa história real, e (vamos comentar sobre) tem poucas alterações com relação aos fatos. Então, é MUITO POSSÍVEL que rolem spoilers. Por serem dados históricos. Podem ficar tranquilos, eu fiz questão de dar uma olhada no caso antes de ver o filme, e não afeta a experiência.

TIRANDO O ELEFANTE DA SALA
Alguns atores ficam tão marcados por um personagem, ou por um estereótipo, que fica difícil se libertar. Por exemplo, o eterno Harry Potter, O Daniel Radcliffe. Quando isso acontece, eu particularmente fico feliz quando vejo uma dessas pessoas se “libertando”, provando que podem fazer muito mais do que esperam deles. Um exemplo foi o Leonardo DiCaprio. E, pra mim, foi o que aconteceu com o Zac Efron nesse filme. Claro, não é o primeiro em que ele sai da linha “herói bonitinho de filme romântico” mas… Caramba, que diferença! Ele não se mostrou apenas um bom ator, se mostrou um ótimo Ted Bundy!
Hum… isso era pra ser um elogio, mas não ficou tão legal.

AMBIENTAÇÃO
Efron não só está muito bem caracterizado. Ele fez um trabalho de atuação fantástico. Existem cenas, do filme, que foram totalmente baseadas em filmagens do Ted Bundy real, que ele reproduz com maestria. Fiquei realmente feliz com o resultado.
Fora isso, não podemos esquecer que toda a produção do filme para reproduzir os anos 70 ficou incrível. Não vou exagerar, você não se sente vendo filmagens de um documentário. Mas, de fato, a equipe de pesquisa histórica, a direção, e a direção de fotografia estão de parabéns.

MAS
Nem tudo são flores com relação à direção. Ocorrem algumas decisões de progressão que são questionáveis. A maior delas eu deixo pra falar no Momento P.S.
Joe Berlinger dirigiu muito mais documentários que filmes / séries. E se por um lado isso é uma força a seu favor, uma vez que ele já tem conhecimento do caso (ele dirige o excelente Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy), por outro o filme ainda tem alguns engasgos, algumas barrigas. Não estraga o filme, mas ele poderia ter sido melhor.
MÉDICO OU MONSTRO?
Último comentário antes do Momento P.S., A Irresistível Face do Mal se baseia não só no caso, mas principalmente no livro escrito por Liz, “The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy”. Portanto, apesar do destaque, Ted não é o principal: a verdadeira protagonista do filme é a Liz. Isso é muito interessante, pois nos permite pôr o personagem Ted em dúvida, dúvida essa que ela mesma sentia. Ele era, realmente, o monstro que a imprensa e a polícia pintavam, ou era apenas o homem por quem ela se apaixonou e amou?
(A resposta é fácil: era um homem. Com comportamentos monstruosos. Mas ainda, um homem)
Por outro lado, isso permite ao espectador sentir uma dúvida, “seria o Ted realmente o assassino que sugerem”. Mas essa dúvida… não deveria existir. Como já foi dito, filme, livro, documentário foram baseados em fatos reais. Os crimes foram reais. As mortes, as evidências, tudo. Mais: no fim de sua vida, Bundy confessa seus crimes. E eles são comprovados. Então, apesar de uma decisão estética interessante, na prática essa ambiguidade não é totalmente produtiva.
Nota: o filme não passa pano pro Ted. Ele só não é explícito sobre diversas coisas.

CONCLUINDO
Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (essa tradução é muito maluca, mas a contrapartida era um título de duas páginas) é muito bom. Atuação excelente, ambientação perfeita, e baseado numa narrativa que, como bem diz a citação inicial, é incrível demais para ser ficção. Não é perfeito, é claro. Mas está recomendadíssimo. Não deixem de ver.
E, por favor, ao assistir, fique alerta e use como forma de se prevenir. Mas não fique paranóico.
Abraços, até a próxima!

MOMENTO P.S. (Pode Spoiler):
É basicamente uma coisa, mas acho que vai ficar grande.
A Irresistível Face do Mal é muito interessante num aspecto: é um filme sobre um serial killer que não mostra suas mortes. E isso na verdade é um acerto. Ted Bundy foi um assassino extremamente cruel e perverso, como diz a célebre frase do juiz Edward D. Cowart (John Malkovich). Não mostrar as mortes como foram feitas é uma forma de respeitar a memória das vítimas; respeitar os parentes e familiares; respeitar o espectador (que não precisa ser exposto a tamanha selvageria); e de não dar a Bundy algo que lhe dava prazer, o reconhecimento pelos seus atos. Porém, a partir do momento em que elas não são vistas, também não são sentidas. Você sabe que elas aconteceram, e sabe que foi Ted quem executou. A Irresistível Face do Mal não lhe esconde isso. Porém, como você (espectador) não tem contato com elas, além do fato de que muitas provas eram fracas ou contestáveis, e que Ted só vem a assumir a autoria dias antes de sua morte (logo, finalzinho do filme), é muito possível que não se sinta o peso que esses atos tiveram. Quem já conhece o caso talvez fique um pouco decepcionado. Admito que fiquei.