Gostaria de registrar qual não foi minha surpresa ao descobrir que o título primeiramente escolhido para a versão brasileira (Gota Mágica / Herbert Richards) era na verdade DES(Encontros) (título original Deux moi), e que a equipe decidiu por um título que celebrasse mais as conexões do que um que frisasse nas rupturas. Sabendo disso eu gostaria de pontuar duas importantes questões:
(1) – Essa foi a melhor decisão sobre uma mudança de título pra o pt-BR que eu conheço. Acho inclusive um título melhor do que o original;
(2) – Para um leigo no cinema francês, como sou, gostaria de dizer que é um FILMAÇO. Então se você não conhece, mas tem curiosidade, já deixo logo de cara a recomendação.
Por ora vou me abster a meu papel aqui introdutório, e vamos ao que interessa!

A ROTINA DOS VIZINHOS
Encontros conta a história dos vizinhos Rémy Pelletier (François Civil) e Mélanie Brunet (Ana Girardot), e logo na primeira cena vemos algumas escolhas técnicas que irão acompanhar o percurso inteiro da história, em que veremos espaços ocupados de maneira simultânea pelos personagens que ainda não se conhecem. Aos poucos conhecemos a rotina diária de ambos, e quais suas principais frustrações e problemas que enfrentam atualmente. Ambos os personagens passam por rotinas estressantes em seus trabalhos, e a solidão deles está refletindo em sua rotina diária. Esse é o ponto de partida, e daqui pra frente todo o trajeto do filme servirá para que tenhamos uma ideia muito bem definida de quem são esses personagens, como interagem com seus pares, e como se relacionam com os espaços que habitam.

A FRANÇA PARA FRANCESES
É sempre um prazer muito grande poder enxergar uma cidade sob os olhos daqueles que a vivem. Algo sempre nos evoca para entender que as escolhas feitas sobre como retratar algo também dizem muito sobre a maneira como pensamos, e escolhemos aquilo que valorizamos, cortamos aquilo que achamos dispensável. E em pouco tempo de filme, somos transportados para o tempo dos dois personagens, e o andamento da história logo dá mostras de suas distintas origens, cortesia do diretor Cédric Klapisch. Mas ora, de que forma? Bom, se você estiver acostumado ao ritmo do cinema mais americano (ou americanizado se preferir) perceberá que existe uma urgência menor nas ações e situações. Encontros não tem pressa de ir levando o espectador a conhecer os desenhos da cidade, os trejeitos dos personagens (e dos franceses! Três beijinhos ao cumprimentar!), ao mesmo tempo que faz refletir sobre coisas simples e superficiais, sobre como nos dirigimos às pessoas, ou sobre como construímos relações.

PERSONAGENS VIVOS
Isso é um dos pontos mais altos de Encontros, que vai muito além de garantir aos personagens principais a profundidade necessária para que sejam críveis aqueles que se inter-relacionam com esses. Explico: tanto no trabalho, como num mercado próximo, alguns vizinhos, parentes, todos esses elementos de ambos os personagens são representados durante a história. E muito mais do que servir a um papel de imposição narrativa, todos eles têm características, motivações, personalidades e são extremamente plurais. Destaco dois personagens coadjuvantes que me ganharam com o correr do filme: o dono de um mercadinho local (Mansour, interpretado por Simon Abkarian), e o psicoterapeuta que trata Rémy (J.B. Meyer, interpretado por François Berléand). Ambos os personagens em suas primeiras aparições causaram uma espécie de desconforto inicial, e tive uma impressão de que eram antipáticos, mas durante o percurso somos apresentados a eles diversas vezes, e pude notar o quão estive enganado com a minha primeira impressão. Por sinal o terapeuta se tornou um dos meus personagens favoritos até o final do filme.

UM ENCONTRO DE MAIS DE DOIS
E esse é o ponto pelo qual eu destaquei no início o quão acertada foi a decisão de mudar o título. Tanto o título original DEUX|MOI (que seria algo como ‘dois eus’) como Des(Encontros) que seria o título inicial, criam uma expectativa maior sobre a relação entre esses dois personagens, que curiosamente são vizinhos com uma rotina semelhante, embora não se cruzem. E Encontros, pela minha perspectiva, preza muito mais os efeitos de transformação que os encontros podem provocar em nossas vidas. Tanto por pessoas que vemos frequentemente, como parentes, ou pessoas que vemos uma vez na vida, todas essas pessoas afetarão e serão afetadas pelas conexões que foram estabelecidas. E é muito prazeroso sair do cinema comovido pela capacidade de representar isso em tela.
Então, cê curte filme francês? Porque eu acho que cê devia ir ver Encontros, que estreia esta quinta, 03 de Outubro.