Essa é uma reflexão sobre a (des)construção do personagem Coringa no filme que estreia essa semana. Especificamente os arquétipos de vilão, herói e anti-herói. E como eles são (ou não) lançados sobre o personagem. Então esse texto é carregado de spoiler. Mas aqui no maratona já tem outro texto, sem spoilers, onde o filme é discutido em seus aspectos gerais.
Pressuposto das histórias em quadrinhos

Acredito que um filme sempre deva ser avaliado por ele mesmo, que nós, que pensamos cinema, devemos encontrar nossas respostas dentro da própria obra, sem lançar mão de elementos externos. Em alguns casos isso é bem difícil, principalmente quando tratamos de adaptações. E esse é o caso. Coringa é, possivelmente, o vilão mais conhecido da cultura pop, ou o maior vilão da ficção mesmo. E é uma figura icônica. Assim nós sabemos quem ele é, e o que esperar dele. Claro que existem muitas versões diferentes desse personagem nos quadrinhos, mas de forma sintética podemos afirmar que Coringa é um psicopata, sádico, violento, imprevisível, personificação do caos e antítese do Batman. Então mesmo diante de uma nova obra, aqui cinematográfica, o personagem traz consigo toda essa carga de significados, de o que ele é.
Construído como vítima

Um dos elementos mais intrigantes desse personagem é sua origem. Nos quadrinhos não existe uma oficial. E ainda nos quadrinhos, de forma canônica, sabemos que existiram três coringas distintos, pessoas diferentes sob a mesma identidade. A única origem que conheço é do gibi Piada Mortal de Alan Moore, que é um elseworld. Então esse filme tem muita liberdade para criar essa história pregressa do personagem. E aqui eles escolhem mostrá-lo como uma vítima das circunstâncias e de tudo que está em torno dele. Arthur é retratado como uma boa pessoa, alguém com doenças mentais graves e que tenta ser, dentro de suas limitações, o melhor possível. Isso fica bem claro quando vemos seus encontros com a assistente social, ele está tentando se manter são com os medicamentos e a conversa. Ele tenta ser uma pessoa produtiva no trabalho, que ele julga, em essência, ser o ato de colocar um sorriso no rosto das pessoas. Então o filme nos apresenta Arthur como uma boa pessoa.
No decorrer da história vamos percebendo que ele é a vítima em vários momentos. Primeiro ele é vítima da própria mãe, na metade do filme descobrimos que ela mentiu pra ele a vida inteira, e que quando criança ele era espancado pela mãe e pelo padrasto, inclusive que ele teve uma trauma físico na cabeça, que nos aponta para algo neurologico como causa dos problemas psicológicos que o personagem tem. Depois ele é vítima do colega de trabalho, que mesmo sabendo da instabilidade mental, dá uma arma de fogo para Arthur, e depois mente dizendo que Arthur o procurou para comprar. No metrô ele também é uma vítima, aqueles três rapazes que foram para cima dele. Arthur reagiu de forma desmedida, mas ainda assim foi em defesa, e sempre vale lembrar que ele é louco. E por fim, com Murray é a mesma coisa, ele foi feito de piada pela pessoa que ele mais admirava e se inspirava. Veja bem, não estou justificando aqui os assassinatos que Arthur cometeu, quem o justifica são as pessoas que fizeram esse filme, e construíram as situações em torno dele dessa forma.
Nada parte de Arthur, não vemos ele tomar iniciativa, ele é extremamente reativo àquilo que outros o infligem. Outro detalhe importante, é que todas as pessoas assassinadas por Arthur são, aparentemente, piores do que ele. A mãe, os caras no metrô, o colega de trabalho que lhe deu a arma, e Murray. Ele não matou nenhum “inocente”. Isso também, é relevante, ele poupa a vida de seu colega de trabalho anão, da mesma forma Sophie e sua filha. Isso, como tudo na obra, é escolha dos realizadores. Eles quiseram apresentar esse coringa como alguém bem diferente de sua contraparte dos quadrinhos. Esse Coringa não é mau, nem sádico, nem perverso, e psicopata. Ele é uma pessoa boa, doente, que reagiu da pior forma à tudo que o mundo foi fazendo com ele.
O caos e decadência de Gotham

Esse é outro elemento de suma importância na construção desse possível heroísmo do Coringa nesse filme. A cidade está em estado de caos, a maior parte da população, pessoas pobres, estão extremamente revoltadas com as autoridades e principalmente com as camadas mais abastadas da sociedade. A figura de Thomas Wayne acaba por ser símbolo maior de tudo que o povo de Gotham estava lutando contra. Porque ele é muito rico, ele quer ser prefeito, e não dá a mínima para as reais necessidades e reivindicações da população, chegando ao ponto de chamar os manifestantes de “palhaços”. Isso é muito simbólico. A revolta popular não teria tomado a proporção que tomou sem a figura alegórica do palhaço, encarnado no Coringa e em seus atos. Da mesma forma Arthur não teria se descoberto Coringa sem a revolta popular. Uma coisa está seminalmente ligada a outra, o Coringa surge do caos da cidade e do anseio da população por um símbolo que tivesse potência suficiente para representá-los. E por mais que Arthur nunca tenha planejado ser a personificação dos anseios do povo, nem planejado nada disso, ele aceita ser esse símbolo revolucionário. Talvez eu esteja sendo ingênuo, mas acredito que ele se identifique com essas pessoas, com o povo pobre que está lutando nas ruas. Na fala dele no programa do Murray Franklin, quando diz que se fosse ele no lugar dos três rapazes ricos que ele assassinou no metrô ninguém daria a mínima importância, não creio que ele esteja falando apenas dele especificamente, mas de todas as pessoas que são invisibilizadas na sociedade. Por mais que ele diga à Murray que seu visual não tem motivação política, nós sabemos que não é verdade, pois vemos que ele se descobre vivo justamente nas máscaras usadas pelos manifestantes. Sempre importante lembrar que Arthur tem muitos problemas mentais, não sei até que ponto ele é consciente de tudo que estava acontecendo na cidade, proporção que a figura do Coringa tomou, mas é fato que ele aceita isso, e é o que o constitui enquanto ser.
Herói?

Não, Coringa não é um herói nesse filme. Nem tão pouco o vilão. Ser o vilão é que a gente espera dele por saber quem é esse personagem nas histórias em quadrinhos.
A construção que é feita dele aqui é de um anti-herói. Talvez isso fosse mais claro se o protagonista não fosse o Coringa, mas um outro cara qualquer. Esse filme tem muita coisa de Taxi Driver, e a minha percepção de Arthur/Coringa, é a mesma que tenho de Travis Bickle. É um cara claramente doente, desequilibrado, perigoso, mas que até esse momento não fez nada terrível com alguém inocente, só com pessoas piores que ele mesmo. Acho que existe potencial para que esse Coringa do final do filme venha a se tornar no futuro o Coringa full evil dos gibis, mas até aqui ele não é. E isso faz sentido por ser uma história de origem.
[…] Coringa – Filme impecável, figura execrávelO Coringa de Joaquin Phoenix é o herói, não o vilão. Será? […]
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