Undone é uma das coisas mais originais e inovadoras que vi na “TV” nos últimos anos. E o Amazon Prime Video tem se mostrado, cada vez mais, uma das melhores opções dentre os serviços streaming.

Sinopse
Undone explora a natureza elástica da realidade através de seu personagem central, Alma (Rosa Salazar). Depois de entrar em um acidente de carro quase fatal, Alma descobre que ela tem um novo relacionamento com o próprio tempo e usa essa habilidade para descobrir o que realmente aconteceu.
Existencialista

Essa série tem produção e desenvolvimento assinadas por Raphael Bob-Waksberg e Kate Purdy. O trabalho mais conhecido de ambos é na série Bojack Horseman, onde Kate escreveu alguns episódios e Raphael é criador e produtor de todas as temporadas. A série do Bojack é muito conhecida por ter um humor muito sombrio e existencialista, niilista muitas vezes. Por explorar a intimidade mais honesta, humana e suja dos personagens. Em Undone isso também acontece, quase que o tempo todo estamos tentando entender, junto da protagonista, qual nosso papel nessa existência. Será que a vida é só isso? Esse roteiro, caminho guiado, pré estabelecido, esse ciclo que tantas pessoas seguem. Alma está muito cansada disso tudo, da vida que leva, trabalho, família o namoro. Felizmente (acho) ela se envolve num acidente enquanto dirigia e então uma nova janela para realidade se abre, ou a desconstrução do que ela sempre acreditou ser real. Voltaremos ao acidente mais tarde, ele é importante.
Rosa e Alma

Existem alguns elementos que fazem essa série ser tão boa. Um deles, certamente, é Rosa Salazar. A construção de personagem que ela faz aqui é excelente. Alma é muito humana e real, é dona de uma personalidade cativante e encantadora. Ainda assim parece estar sempre no limite de seu bem estar. Existe muito contraste nessa mulher, pois ela é animada, divertida, extravagante e irônica; mas ao mesmo tempo parece angustiada com tudo que a cerca, ela é muito contemplativa e reflexiva, e a forma com que observa e percebe o mundo a deixam infeliz. Além disso ela erra bastante, acredito que nada nos faça mais humanos do que nossos erros, nossas falhas, imperfeições. A série fala muito disso também, dessas projeções que fazemos do “perfeito”, seja sobre pessoas, coisas ou acontecimentos. Ninguém é perfeito, Alma não é perfeita, e justamente por isso é tão cativante.
O Acidente e a Realidade Fragmentada

Um acidente de carro, algo terrível mas normal no nosso mundo. Na série é bem mais que isso. Esse acidente é tão importante aqui, quase toda narrativa desenvolvida gira em torno disso. Do acidente, sua causa e efeito. E é incrível o quanto voltamos nesse momento ao decorrer da história, e cada vez que voltamos é por uma perspectiva diferente. A série faz muito isso, volta em momentos já mostrados antes, só que de pontos diferentes, com visões e situações distintas. Claro que isso se justifica pela habilidade adquirida por Alma após o primeiro acidente, viajar pelo espaço e tempo. Nesse sentido, da viagem e vivência no tempo, me remeteu muito ao gibi de Watchmen, onde o personagem Dr. Manhattan vive e revive passado, presente e futuro, simultaneamente. Curioso é que o filme de 2009, homônimo ao gibi, não consegue transmitir isso, mas quando assisti Undone, tive a sensação de que os passeios de Alma pelo espaço-tempo eram algo muito próximo disso.
Outro aspecto muito interessante é que essa série consegue transitar muito bem em um espaço entre o místico, fantástico e a ficção científica. O que acontece com Alma está no limite entre a fé e a matemática. Não lembro de outra obra que mescla tão bem esses dois elementos, podem ser as duas coisas, ou nenhuma delas. É tudo muito especulativo, na verdade, acho que em nenhum momento existe uma definição concreta do que realmente aconteceu. Será que é algo místico, espiritual? Ou uma falha entre dimensões, universos paralelos, buraco de minhoca? Talvez Alma só esteja perdendo a sanidade mental.
Dentro de toda essa complexidade narrativa, de uma personagem que vive e revive tempos passados, atuais e futuros, dela própria e de outras pessoas. Existe um trabalho muito bom de montagem aqui, seria muito fácil nos perder na história, ou as coisas ficarem confusas, mas é tudo feito com muito cuidado e clareza, que as peças sempre se encaixam no final.
Animação

Animação é o que mais chama atenção em Undone. Pois é feita em rotoscopia, técnica onde o animador desenha sobre os movimentos captados em vídeo. Essa técnica rara de se ver em produções mainstream. Particularmente as únicas obras que lembro ter visto, que são feitas dessa forma, são o filme de O Senhor dos Anéis dos anos 70, e o episódio Fish Night, da série Love, Death and Robots Essa forma de animação é bem antiga, existe desde a década de 10. Então quando disse lá no início do texto que essa série é inovadora não é exatamente pela técnica de animação, mas por como eles usam isso para criar esse mundo e a desconstrução da realidade, juntamente com todas as nuances da interpretação live action. Certamente essa série poderia ser feita em live action, carregada de efeitos visuais (algumas cenas de Dr. Estranho são exatamente isso), mas certamente não teria o mesmo frescor de novidade e nem a mesma potência surrealista presentes aqui. Tem coisas que só funcionam em animação, movimentos de câmera, a desmaterialização do espaço, o uso de cores, e eles acertaram em tudo aqui.
Enfim

Undone é um dos grandes acertos do Amazon Prime Video. É original, bonita, enche os olhos com sua linguagem surrealista e nos faz refletir sobre tudo ao nosso redor com seu tom melancólico e existencialista. É uma série sobre família, sobre coisas que projetamos e esperamos de outras pessoas, sobre nossos erros e perturbações, e sobre como tudo isso é, em essência, o que nos faz humanos.
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