O Irlandês: Scorsese e seu Magnum Opus

O Irlandês: Scorsese e seu Magnum Opus

Scorsese já é um diretor consagrado há décadas. Desde Taxi Driver e Caminhos Perigosos, ou na sua longa fase de filmes de máfia, mesmo com um escorregão ou outro, demonstrava sua maestria por trás das câmeras. O Irlandês, entretanto, não só demonstra o refinamento contínuo durante toda sua carreira, mas uma desmistificação da sua era de filmes de máfia.

Frank Sheeran, um personagem complicado

Narrado pelo personagem principal Frank Sheeran (Robert De Niro), seguimos sua vida, desde um motorista de caminhão de carnes, à ascensão da sua carreira na máfia, e por fim, sua velhice.

Seguimos Frank por boa parte da sua vida, ouvindo suas justificativas, motivações, suas dinâmicas internas e sociais, além de uma história não contada linearmente. Isso lhe dá um ar documental, que é aumentado ainda mais devido a ser baseado numa história real, ganhando um aspecto de altíssima imersão. O seu ritmo mais lento, com várias cenas de silêncio e reflexão interna, reforçam ainda mais esse tom.

Vemos suas escolhas, ou momentos em que é obrigado a tomá-las, que conforme o filme progride, dão lugar a arrependimentos. Na fase da velhice, o telespectador se transforma não somente em um cúmplice dos atos hediondos feitos por Sheeran, mas padres ouvindo uma confissão. O filme começa e termina com essa imensa necessidade do seu desabafo.

Frank e outros personagens olhando para uma TV fora de cena
O filme não tem medo de demonstrar o choque com certos incidentes historicos…

Glória desprestigiada

Falando dos filmes de máfia do Scorsese, no Irlandês é clara a forte remoção da sua glorificação. Nunca se escondeu a violência contida neste ramo de vida, mas existia um certo ar de glamour. Aqui entretanto, apesar de mostrar-se a riqueza gerada por via desta, o filme constantemente lembra, seja com os atos violentos de Sheeran e vários outros mafiosos, o custo dessa vida.

Com vários letreiros usados para apresentar certos personagens, que mostram duas datas e motivos de mortes (geralmente com múltiplas balas em alguma parte do corpo), deixam explicito a alta taxa de violência e mortalidade envolvida.

Atuações, e que atuações

Em relação aos atores, elogios não são suficientes. Especialmente em relação a Joe Pesci, aqui retratando Russel Bufalino, notório mafioso da Pensilvânia.

Semi aposentado desde 1999, onde atuou em somente 3 filmes, Pesci não parece ter parado um segundo sequer no seu tempo livre, e apresenta uma atuação bastante introspectiva. Demonstra uma violência interior, nunca externalizada pelo que não sejam palavras.

Frank Sheeran e Russell Bufalino conversando num bar em O Irlandês
Joe Pesci e De Niro, que atuações, senhoras e senhores.

Outro a se aplaudir de pé é Al Pacino. Obviamente o alívio cômico, pelo personagem Jimmy Hoffa, com sua característica atuação explosiva, demonstra até que ponto a arrogância pode levar um homem a sua queda.

Uma obra de arte

Para ser honesto, entretanto, nenhuma atuação do filme é menos que excelente. Até mesmo a Anna Paquin, que retrata a filha de Sheeran, Peggy, que em sua fase adulta, não tem sequer uma fala. Demonstra somente com suas expressões faciais, especialmente nos olhos, o que se passa na sua cabeça, ao assistir atônita as reverberações dos atos de seu pai.

O Irlandês portanto é, caso não tenha ficado claro, de longe uma das melhores obras de Martin Scorsese. Além de demonstrar uma imensa maturidade, e talvez autocrítica das obras anteriores. Independentemente do streaming, e discussões geradas sobre, o filme fecha o ano com chave de ouro, reafirmando meu amor à sétima arte.

Falando de algum lugar no universo - Diogo Freire

Amante de games e cinema. Não venha falar mal de Drive e/ou Ryan Gosling comigo!

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