Em 2007, quando o Padilha fez Tropa de Elite, a sensação que deu é que ninguém entendeu o filme. Figuras problemáticas viraram heróis e símbolos nacionais, cenas de tortura era bem recebidas… Ao ponto que, costumam brincar, ele fez a continuação 3 anos depois para ver se as coisas ficavam mais claras. Será que o mesmo pode acontecer com A Divisão (2020)?
Inclusive, acho que é uma sacanagem começar esse texto falando sobre Tropa de Elite. Peço desculpas.

SINOPSE
Nos anos 1990, uma onda de sequestros assolava a classe média e a burguesia. Cria-se então a Delegacia Anti-Sequestro (ou Departamento de Polícia Especializada Divisão de Ação Anti-Seqüestro – DAAS), com o objetivo de combater este tipo de crime. Para tal, reúnem os agentes Santiago (Erom Cordeiro), Ramos (Thelmo Fernandes) e Roberta (Natália Lage), sabidamente corruptos, para auxiliar Mendonça (Silvio Guindane), que é conhecido pela alcunha de “genocida”.

GLOBO + AFROREGGAE
Tem muita coisa a ser dita sobre esse filme. Inclusive, fica a alfinetada: eu estive sozinho nessa cabine. Meus colegas não tiveram interesse por A Divisão. Posso imaginar diversos motivos, não citarei nenhum.
A Globo não ocupa o lugar em que está a tantas décadas à toa. Com a chegada da internet e a migração dos públicos para lá, ela começou a apostar bem forte em duas frentes com força total em 2019: primeiro, na produção de podcasts; segundo, na criação do seu próprio serviço de streaming, o Globoplay. Comprou algumas séries para exibição exclusiva, e criou seus próprios materiais. Com a vantagem de não necessariamente se prender aos padrões estéticos que a exibição em canal aberto exige. Esse ambiente fértil permitiu que 3 nomes, AfroReggae Audiovisual, Multishow e Hungry Man, pudessem se reunir e produzir a série A Divisão, de 5 episódios. A partir dessa série é feito o filme que estreia nesta quinta, dia 23/01.
Como sempre, eu não sabia da existência do filme em questão. Quando fiquei sabendo da existência e fui pesquisar um pouco, uma das primeiras matérias informa que Jose Junior, criador da série e fundador da AfroReggae, parou um tiroteio entre traficantes e policiais para que as gravações pudessem rodar. Não tem como evitar a curiosidade.

FATOS REAIS
A frase que assusta todo mundo, “inspirado em fatos reais”, também vale para A Divisão. O filme retrata o Rio de Janeiro em meados dos anos 90 (1997, para ser exato), onde uma onda de sequestros assola as classes média e rica da cidade. Daqui a gente já começa o nosso primeiro debate social: a criminalidade existe no Rio de diversas formas, há muitos anos. Ela começa a incomodar quando chega na zona sul.
A partir desses fatos (vocês podem ler mais um pouco sobre isso nas matérias linkadas no final do texto) surge a ideia da série, a romantização de diversos desses casos para as telas.

FOTOGRAFIA
Para ajudar na captação dessa sensação, a fotografia é fundamental: carregada nos tons sépia, a cidade maravilhosa, sempre colorida e brilhante, se torna amarelada e cinzenta, muito suja. Seus cartões postais quase nunca são vistos, aparecem de vez em quando em intervalos entre cenas. E sempre da mesma forma: sombrios, sujos. A Divisão não é uma peça de turismo. Pelo contrário, quer mostrar um Rio de Janeiro que é varrido para debaixo do tapete.

SUJEIRA
A que sujeira me refiro? Diversas. A principal delas, a corrupção. Que também aparece de diversas formas. Desde a corrupção entre políticos de carreira, a policiais corruptos. Até mesmo sobre policiais que cometem crimes deliberadamente para obter dinheiro. A polícia é outra dessas sujeiras: ou está envolvida até o pescoço em politicagem, ou é corrupta de forma a organizar crimes, ou está tentando fazer o seu trabalho, mas de formas tão questionáveis e desumanas que nos faz repensar o tipo de polícia que queremos.

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
…ou não. O Brasil na última década vem provando que é bem ruim com interpretação de texto. É muito POSSÍVEL que A Divisão seja mal interpretado, ou tenha seu discurso cooptado para servir de símbolo para pessoas que defendem o extermínio como forma de política pública de segurança. Como bem dizem os integrantes do Lado B do Rio, estamos num momento tal em que a luta não é contra liberais ou comunistas. é a luta da democracia contra a barbárie.
Mas divago.

REPRESENTAÇÃO NEGRA
Ao ver que o grupo AfroReggae é criador da série, já veio a expectativa de ver uma representação negra bem feita. Infelizmente, apenas dois negros estão do lado dos “mocinhos”: o delegado Mendonça (Silvio Guindane), que possui o “singelo” apelido de “Genocida”, pela forma impiedosa como conduz suas operações ao subir o morro; e a Drª Fernanda (Cinara Leal), que tem um papel secundário, com poucas falas. Todos os outros ou são policiais e não tem falas, ou são bandidos. Bandidos que falam, bandidos inteligentes, bandidos truculentos, bandidos que só tão lá pra matar o morrer… Me permitam uma correção, também tem os moradores que tentam se proteger dessas duas forças bélicas.
Isso estava me incomodando bastante. Até que me dei conta de algumas coisas. Primeira, que o filme é baseado em fatos reais. Se no mundo real, criminosos favelados efetivamente cometeram tais crimes, eu não posso reclamar de tal coisa. Segunda que, talvez, o público alvo de A Divisão seja justamente essa classe média branca e que não se reconhece racista, e pode servir para que ela repense as coisas que ela admira e defende.
Mas o mais importante (vou me permitir um pequeno spoiler): fica bem claro que as mentes que, por baixo, conduzem as tropas para subir o morro, são as mesmas que, por cima, viabilizam, equipam, e criam estratégias para os “inimigos” no morro. No final das contas, o corpo preto, não importa em qual lugar esteja nessa equação, é um corpo descartável, pronto para ser morto, não importa por qual lado. São interessantes as estruturas racistas, não são? Mesmo pessoas altamente armadas podem ainda estar num lugar de fragilidade, quando existe um sistema ainda mais forte e preparado do que elas. A máquina de moer carne preta continua faminta.
CONCLUSÃO
A Divisão é um filme INCRÍVEL, que não deixa em nada a desejar para grandes produções. Cabe uma crítica: talvez, por ter se baseado numa série, ele possui alguns momentos que não são tão relevantes para a trama. Poderiam ser repensados para serem mais sucintos. O que não remove o brilho desta peça. Que venham mais filmes dessa união!

MOMENTO P.S.
Dess vez não são spoilers. Só as matérias que me ajudaram a escrever esse texto:
A Divisão: Filme sobre combate a sequestros no RJ ganha trailer
Seriado dramatiza onda de sequestros que aterrorizou o Rio de Janeiro nos anos 1990
‘A Divisão’ dramatiza onda de sequestros no Rio
Segurança pública e seqüestros no Rio de Janeiro 1995-1996
Em foco: Sequestros no Rio eram rotina no começo dos anos 90
Rotina de sequestros no Rio marcou anos 90 e mudou hábitos dos mais ricos
Relembre casos famosos de sequestro e cárcere privado no Brasil
A Divisão, nova série do Globoplay, escancara a bandidagem dentro da polícia
A Divisão: Nova série do Globoplay parou tiroteio para ensaiar em morro no RJ