Eu tenho um problema. Quando surge alguma coisa que é muito trabalhosa de fazer, e eu não tenho domínio total de COMO fazer, ao invés de tentar eu fico enrolando. Pra ver se a inspiração bate. Mas o prazo hoje tá curto e não dá pra fazer isso. O Doutrinador (2018) tem muito a ser dito e em pouco tempo.
SINOPSE
Miguel (Kiko Pissolato) é agente da polícia civil. Em um dia de alegria, tudo muda quando sua filha recebe uma bala perdida, e não consegue ser atendida num hospital público. Ele sabe de quem é a culpa: de quem desviou verbas para interesse próprio, e toda sua rede criminosa. Ele se torna, então, O Doutrinador, e tem como objetivo acabar com a corja de corruptos por aí.

ANTES
De começar a falar, um aviso: esse filme tem muitas camadas a serem abordadas. Então eu vou começar falando primeiro do filme como peça isolada, e DEPOIS vou falar dos desdobramentos, da discussão que ele propõe. E tentar localizá-lo no nosso histórico político recente. Então primeiro, o texto vai ficar meio longo. Segundo, só a primeira parte é essencial.
Até porque na primeira não vai ter spoilers. A outra já não garanto. Mas eu aviso na hora.

FILME
Velho, como é FODA ver um filme nacional bem produzido assim. De verdade. Eu não venho falando que esse tá sendo um ano de grandes produções do Brasil? Essa certamente é uma delas, e um estilo que quero muito que seja aprimorado e mais usado por aí.
É um filme de ação sem dever em nada a grandes produções. Boas coreografias, boas cenas de ação, bons efeitos especiais (menos um). É triste que a gente ainda se surpreenda com bons blockbusters nacionais, mas putz, como é recompensador quando aparecem!
A trilha sonora é de altíssima qualidade, com destaque para Soundgarden e Far From Alaska. A paleta de cores e a direção de fotografia, também, são de babar.

ESTRELAS
E as estrelas do filme são um show a parte. O protagonista em especial eu não conhecia, mas descobri que já é conhecido da tv aberta por seu papel em 10 Mandamentos. Seu parceiro Edu (Samuel de Assis) também não é novo. Mas Eduardo Moscovis, Helena Ranaldi, Tuca Andrada, Lucy Ramos, Marília Gabriela, Natália Lage, dentre outros, são atores renomados que aparecem em O Doutrinador.

ARQUÉTIPOS
O enredo é muito LEGAL. Tipo, quem não gosta do vingador mascarado que sai por aí socando os problemas até eles se resolverem? 10 anos de MCU mostram como a gente gosta disso. Não só, como Batman, Demolidor, Justiceiro (esse sem máscara), Arqueiro Verde, Fantasma são todos heróis nesse estilo. Pessoas com um senso de justiça, que devido a um trauma resolvem se vingar, mas também ajudar pessoas ao redor. Tem um treinamento avançado de arte marciais e de armamentos. Se torna perseguido porque, em tese, são contra a lei.
Tem outros arquétipos, como por exemplo, a nerd que consegue dar suporte e descobrir informações, e a ex-esposa. O amigo/rival. Por aí vai.
Sem contar que: caraio veio, é um filme nacional de herói baseado em quadrinhos!!!
QUE.
FODA!!!
Mas enfim, o filme, com todo bom filme, traz ideias. E as ideias de O Doutrinador estão associadas a um período histórico, e a um país.
O período é agora, o país é esse. E não dá pra não falar sobre isso

DEBATE
Eu disse que ia avisar, a hora é agora. A parte de falar de O Doutrinador como peça isolada já passou. E é um filme MUITO foda. Vão assistir, vão valorizar. Mas nós do Maratona nunca deixamos de falar, e nos posicionar, com relação a debates políticos e sociais quando eles aparecem (isso vai nos ferrar um dia). E esse filme é cheio deles.
Cabe o aviso, daqui pra frente, pode ter spoilers.
Por que? Porque o filme se utiliza de diversos discursos que são interessantes num primeiro momento, no nosso imaginário popular. E, justamente por isso, foram COOPTADOS (ou sequestrados, como preferir) por um lado da nossa polarização política. E que, tenho CERTEZA, não vai demorar em transformar esse filme numa pequena metáfora do seu plano de poder para o país.

TRUÍSMOS
Vou tentar explicar: Ninguém gosta de corrupção, certo? Certo. Assim como ninguém gosta de câncer. Então porque dizer “Vamos acabar com a corrupção” é um discurso político que dá tão certo?
Porque as pessoas estão desesperadas, e não gostam de corrupção. Bola de neve, certo?
Agora, imagina que você é uma pessoa com “poder” de efetivamente acabar com os políticos e com “tudo o que tá aí”?

CONTEXTO HISTÓRICO
Por volta de 2013, movimentos como o Passe Livre (MPL, não confundir) e o Vem Pra Rua começaram a mobilizar a população contra a corrupção estatal, com passeatas e conflitos. Foi muito interessante viver o clima de O Gigante Acordou. Mas, se vocês bem se lembram, logo em seguida esse movimento começou a ser usado em prol de um espectro político. Não era mais contra O sistema político, era contra um Partido, e esse partido era o responsável por tudo isso que tá aí. É onde os problemas do filme começam.
Os símbolos mais conhecidos são usados. A camisa da seleção brasileira. As manifestações. O herói é um policial que se sente sufocado, querendo fazer mais do que poderia, se possível quebrando as leis. Uma grande operação policial (Linfoma, no filme) que os políticos desejam arquivar. Tá tudo aí. Tudo que já foi cooptado, pronto para que façam isso de novo.
Sem contar que, e essa é uma crítica tradicional a heróis vigilantes mascarados como um todo: e depois? Você se vinga (de forma completamente egoísta inclusive, o próprio filme deixa claro), mata a pessoa, e aí? Qual o seu plano na sequência? Qual o seu projeto de poder?

NÃO EXISTEM VÁCUOS DE PODER.
A gente tem que ter isso em mente. E mesmo que, como acontece no final, ele exploda o palácio do planalto inteiro, e aí? Você pretende gerar uma anarquia organizada, como acontecem nas utopias, ou um completo caos com uma sociedade acéfala? O sistema não é perfeito, ele merece várias críticas e mais, ele PRECISA de uma renovação urgente, dos seus agentes e de suas estruturas. Mas é tolice pensar que simplesmente acabar com as pessoas vai resolver o problema. NÃO VAI. E eu poderia dar uma solução menor que um tweet aqui, mas não é assim que funciona. POR QUE NÃO É FÁCIL. As coisas não são fáceis, a situação não é fácil. E o que o filme nos dá é uma solução fácil (matou, acabou).

LEIS
Outra coisa importante: a ideia de um policial com a moral tão elevada que é capaz de quebrar a lei quando achar devido, por estar fazendo o justo, é EXTREMAMENTE problemática. Principalmente porque a gente vê acontecer todos os dias. E os alvos, infelizmente, não costumam ser grandes políticos ou agentes do grande capital. Por mais frustrante que seja, existem leis, e policiais devem segui-las. Não para sufocá-los por uma ideologia. Mas para que protejam a população, não virem inimigos (e algozes) da mesma. E eu sei que é foda ser forçado a seguir a lei, quando um monte de gente escapa de punição. Mas a gente tem de ter consciência que, quando essa galera escapa, a lei TAMBÉM está sendo descumprida.

“MAS ENTÃO VOCÊ É A FAVOR DA CORRUPÇÃO??”
NÃO, criatura! Presta atenção! Ninguém é “a favor” da corrupção, fora quem a pratica. Todos são contra e, pode ter certeza, não só eu, autor, como o Maratona de Sofá somos, sim, contra corrupção. E já sentimos ódio de políticos ao ponto de querer acabar com alguns deles na base do soco. O que eu estou querendo dizer é que: vigilantes não acabam com a corrupção, só com os corruptos. Virá outro no lugar. Se uma rede for desmantelada, outra virá em seu lugar. Então é claro que a gente quer o fim dos roubos de merenda. Dos políticos que vivem décadas de vida pública sem trabalho relevante. Que acabe essa “mania” de obras durarem o dobro do tempo estimado, consumindo o triplo. Mas num plano a longo prazo, que solucione esses problemas e torne o cotidiano viável. Não uma medida de curto prazo que gera êxtase, mas não uma solução.
Vou me repetir: eu consigo fazer todas essas deliberações e reflexões porque eu ESTOU INSERIDO no contexto que o filme aborda. Se eu fosse de outro país, conseguiria me desprender mais, e curtir sem empecilhos. O filme é muito bacana, já falei várias vezes.

CONCLUINDO
Um filme tão foda e tão simples acabou gerando muito o que falar. Eu particularmente acho que se permitir encantar pela obra e, também, se permitir criticá-la, é muito importante e saudável. Impede que a gente caia em armadilhas de acreditar em heróis e tweets-respostas. Mas também nos permite fantasiar. Curtam bastante esse filme, ele vale super a pena. E tenham certeza: ele tá pronto pra ser sequestrado ideologicamente.
MINI-CAST
“Tá tendo, sim senhor”. Vocês podem ouvir clicando aqui.
Abraços a todos, e até a próxima!
