Coringa: Um filme irresponsável

Coringa: Um filme irresponsável

Desde que saí do cinema, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Algo me incomodava em Coringa, mas eu não sabia dizer o que. O leitor pode pensar que estou falando das discussões acerca de Incels que rolaram antes do filme, mas não. Esse ponto de vista, antes e depois de ver, sempre me soaram exagerados, e o filme não sustenta essa visão. Entretanto, como iremos falar, carrega algumas semelhanças.

O cerne da questão aqui trata-se do filme querer a todo custo, e penso que em detrimento de si mesmo, fazer com que nós telespectadores, criarmos empatia pelo Arthur. O que em teoria, não é um problema. Não querendo usar como um molde ou bíblia, mas A Piada Mortal faz o mesmo, e funciona muito bem.

Lá O Coringa, neste caso sem nome, é um comediante falido que acaba topando devido a sua esposa grávida, a fazer um serviço para mafiosos, e acaba tendo seu famoso “um dia ruim”, tornando-se assim o vilão que todos conhecemos. Lá é apresentado uma pessoa basicamente quebrando mentalmente. Já no filme de 2019, Arthur além de sofrer de condições psiquiátricas, algo que já é um fator empatico, tem o que podemos chamar de antagonistas, e esses são os aspectos mais problemáticos do filme.

Sim, de fato Arthur, especialmente ao fim do filme, mata uma pessoa completamente inocente que nada a ele fez. Então sim, existe um ponto sem retorno, algo que não tem como defender, mas ela não é o suficiente para equilibrar a balança que esse filme não conseguiu equilibrar.

Arthur assiste uma tv no hospital
momento crucial para o antagonismo gratuito contra Arthur

Personagens problemáticos

Trarei aqui três personagens: Randall (Glenn Fleshler), Murray Franklin (Robert De Niro) e Penny Fleck (Frances Conroy) . O primeiro trata-se de um colega de trabalho. Nele existe pouca nuance. Simplesmente passa uma arma para o Arthur (bem irresponsável diga-se de passagem), e quando o cerco da policia vai apertando devido aos assassinatos dos 3 homens de Wall Street, já bota pressão em Arthur para não falar nada, ou até mentir, o que resulta na sua morte.

Veja bem, sabemos que matar é errado, e de fato, isso é um ponto importante, por ser a primeira morte “gratuita” do filme, de alguém que somente olhou ou falou algo errado pro Coringa. Entretanto, e é algo que se repete com o próximo personagem, o filme se esforça a adicionar pequenos asteriscos e entrelinhas, “nossa, o Arthur foi longe demais, mas nossa, o Randall é meio babaca né? Deu uma arma pro cara, e agora só queria tirar o dele da reta.”

Murray sentado dentro do estúdio de gravação do seu show de tv
Um grande ator desperdiçado num personagem unidimensional

Já com Murray, é ainda pior. Temos no Arthur uma pessoa talvez ingênua, despreparada, que não percebe as nuances da comédia, participando de um show de stand-up. Murray assiste esse show e ridiculariza o Arthur gratuitamente em rede nacional, e depois o convida ao seu programa de auditório, agora já Coringa. Há uma tentativa dele de dar uma lição de moral no personagem principal, após ser chamado de “ruim”, no qual o Arthur aponta essa hipocrisia.

Novamente, o Murray não podia ser somente alguém que de alguma forma mais subjetiva, destratou o Coringa. Não. Ele é um escroto, hipócrita, que novamente traz aquele velho asterisco. “matar o cara em rede nacional é demais, mas nossa, tu viu o coringa mandando a real pra ele e ele ignorando? Acho que mereceu, um pouquinho”.

Empatia demasiada

No caso da Penny, existe um pouco mais de nuance, além do fato dela não ser simplesmente uma antagonista. Entretanto, o mesmo esforço do filme de criar empatia para o Arthur, devido às suas condições e abuso sofrido, não se repete nela. Penny, que apresenta problemas similares, e possivelmente sofreu um Gaslighting monstruoso do Wayne, a depender de que interpretação do filme você tenha. O esquecimento da sociedade perante doenças psicológicas vai então perdendo força.

Arthur ajuda Penny a se alimentar na cama em Coringa
a morte da Penny rui a mascara do filme acerca de doenças mentais

Possibilidades desperdiçadas

 Alguns podem até argumentar que talvez, tudo fosse uma história sendo contada pelo Arthur, com seus floreios e distorções. Algo que, pra mim, chega a ser ofensivo. Devo Ignorar irresponsabilidades do roteiro devido a uma possibilidade de um narrador não confiável?

Não acho que o filme esteja dizendo que o Coringa ter matada ambos é certo. Entretanto, perde nuance para transformar seu protagonista num mártir, e seus antagonistas em vilões de programas infantis de sábado de manhã. É impossível negar a atuação de Phoenix, a trilha sonora maravilhosa de Hildur Guðnadóttir e a direção de fotografia belíssima de Lawrence Sher. Entretanto, merecia um roteiro muito, mas muito melhor.

Falando de algum lugar no universo - Diogo Freire

Amante de games e cinema. Não venha falar mal de Drive e/ou Ryan Gosling comigo!

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