Sandman – O Senhor dos Sonhos

Sandman – O Senhor dos Sonhos

Sandman é tudo aquilo ao qual ouvi e li, e mais um pouco. Ao longo dos anos eu vinha nutrindo uma vontade em ler as Hqs. Mas, por serem muito caras, eu demorei a conhecê- las de mais perto. Até então, só ouvia dos amigos que era uma das histórias mais incríveis de Neil Gaiman, ou lia o mesmo em diversos lugares. Então, me deparei com a obra completa disponível do 01 ao 75. Minha chance de ler todos enfim chegou. Terminei o primeiro arco da história, que vai do volume 01 ao 08. E precisava dividir minhas impressões com vocês. Analiso edição por edição, e seus pontos mais relevantes. Aviso aos que ainda não leram, ao menos o primeiro arco. O Texto está recheado de SPOILERS.

ENREDO 

A fim de aprisionar a Morte, para tornar-se imortal, Roderick Burgess, mago ocultista, captura Sandman. O Senhor dos Sonhos, Morpheus, Oneiros, (Lorde) Moldador, Kai’Ckul, ou simplesmente Sonho, assim como a sua irmã Morte, é um dos 7 perpétuos. Ele permanece durante 70 anos em cativeiro. Enquanto isso, por todo o mundo, as pessoas lidam com mudanças bruscas de sono e sonhos. Ao longo de todos esses anos Burgess sequer consegue obter alguma coisa de Sandman, que permaneceu imóvel todo o tempo. Após a morte de seu captor, Sandman escapa. Agora ele tem que recuperar seus pertences, uma algibeira contendo areia dos sonhos, seu elmo forjado do crânio de alguma criatura e seu rubi, a Pedra dos Sonhos, fonte de seu poder.

Sandman deitado no chão dentro de um círculo, e a palavra sono escrita.
Sandman capturado

7 PERPÉTUOS 

Os perpétuos são sete irmãos, sendo eles: Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero, Destino e Delírio. São a personificação de aspectos presentes no universo de uma forma geral, segundo a visão de Neil Gaiman. São seres muito antigos e poderosos, não são Deuses. Mas, detém grandes poderes. Eles desempenham seus respectivos papéis de acordo com o que a situação demanda.

O SONO DOS JUSTOS

Sandman ser aprisionado por Burgess resultou em um grande desequilíbrio no mundo dos sonhos para diversas pessoas. Me senti bastante confusa lendo essa primeira Hq. Ainda me situando do que se tratava todas aquelas informações, e pessoas aparentemente aleatórias. Me senti confusa, mas ainda sim muito interessada. Onde aquilo iria me levar e qual o propósito? Passamos por alguns dos afetados pela prisão de Sandman, ao longo dos 70 anos que ficou encarcerado em uma redoma de cristal, onde seu corpo astral e material permaneceu inerte.

Ellie, Stefan, Daniel e Unity me causaram angústia, pois cada um estava sofrendo de alguma maneira. Ellie e Daniel dormiram e não acordaram mais, Unity que costumava dormir murmurando tendo bons sonhos, estava inerte. Estefan um garoto de apenas 16 anos morreu em meio à loucura de não conseguir adormecer, nem mesmo com a ajuda de morfina. Posso trazer esses males para a vida real e os distúrbios do sono que acometem muita gente, sou uma delas. Essa mistura de fantasia com coisas que são possíveis de acontecer me prenderam mais ainda a essa leitura. Até então, estava descobrindo se Sandman era um vilão, ou não.

O túmulo de Roderick Burgess em 1955.
Roderick Burgess está morto.

Burgess morre velho e frustrado, nunca conseguiu nada do que queria com Sandman. Assim, a responsabilidade sobre o encarceramento é passada ao seu filho, Alex Burgess. Por uma estupidez do mesmo, Sandman consegue se libertar. E como se vingar se seu captor já se encontrava morto? Alex sofreria as consequências. Reunindo suas últimas forças, Sandman o colocou para dormir eternamente vivendo em um mundo de pesadelos. Não posso negar que a atitude de Sandman foi errada, mas foram 70 anos aprisionado. Ele julgava precisar dessa vingança, para seguir em frente.

ANFITRIÕES IMPERFEITOS

Sandman liberto significava a volta do equilíbrio no mundo. E os afetados libertando-se e acordando, com sequelas irreversíveis. Nesta edição conhecemos John Dee, que se autodenomina Doutor Destino, o personagem mais perturbador do primeiro arco da obra de Gaiman, ao meu ver. Ele estava aprisionado no Asilo Arkham – Para criminosos insanos. Isso me animou mais ainda, pois a história tomaria rumos interessantes e imprevisíveis. Sandman, desorientado e enfraquecido, vai parar na casa de Caim e Abel. Parte desta hq em especial que gostei muito. A mistura de universos, um pouco de mitologia cristã e tudo mais. Nessa representação dos irmãos, Abel é assassinado por Caim sempre que se desagrada com ele. Perturbador mas bastante interessante, essa forma com a qual foram representados me causou pena de Abel, pois ele parece tão dócil e frágil. Eles colocam Sandman a par do que aconteceu em meio ao seu desaparecimento. 

Três bruxas, a Hecate.
Hécate

Sandman precisa recorrer à Hécate, que no caso é uma entidade única, quase como a santíssima trindade católica que são “três em um”. No caso da história de Gaiman, é representada por três bruxas irmãs. A inclusão de tantos elementos mitológicos aliado ao universo em que ele criou é simplesmente fantástica, e tão instigante! Devorei as duas primeiras hqs numa velocidade à qual nem eu mesma percebi, envolvida com tanta informação e acontecimentos. 

SONHE UM BREVE SONHO COMIGO

Imergindo um pouco mais na história de Sandman, encontramos o personagem, John Constantine. Ele teve contato com a algibeira dos sonhos, e tem uma ideia de onde possa estar. Nessa procura pelo artefato, me dou conta de que a trama não é para pessoas sensíveis. Os acontecimentos que ocorrem a seguir me causaram desconforto, mas ainda assim me instigaram a continuar e ver no que ia dar. A busca pela algibeira dá certo, mas não foi nenhum pouco fácil. Tenho então uma ideia melhor dos poderes de sonho e o que a areia dos sonhos é capaz. Nela o poder de sonhos e pesadelos se misturam.

As imagens da hq representam bem o que se quer passar para o leitor, a areia pode ser manuseada para o bem ou mal. Um simples mortal não consegue controlá-la. Infringindo em si dor e desespero, que é o que ocorre com a moça a qual a bolsa estava. Muito debilitada e morrendo, Sandman a conforta em um ciclo de momentos bons em sonhos vívidos. E concede a Constantine dormir sem ter pesadelos. E ambos seguem seus rumos, Sandman parte em busca de seu elmo, e John quem sabe atrás de algum demônio.

Quadrinhos com músicas, e a imagem de Sandman e John Constantine.
O encontro entre Constantine e Sandman.

UMA ESPERANÇA NO INFERNO

Outra aparição ao qual me interessou foi a de Lúcifer, o rei do inferno. Nesse caso em específico ele divide o reinado em um triunvirato com “Beelzebub, o senhor das moscas” e Azazel. Uma das pistas de onde estaria o Elmo de Sandman seria no inferno, ele então vai à procura dele. Essa passagem pelo inferno foi construída de forma muito inteligente. Gaiman coloca Sandman em um ambiente totalmente hostil, rodeado de demônios imprevisíveis. Sonho localiza com quem está o elmo, e a condição para tê- lo de volta é um duelo. Duelo ao qual me surpreendeu bastante. Eu esperava uma luta corpo a corpo e letal, mesmo lembrando que Sandman permanecia enfraquecido. Então, sou surpreendida com um duelo verbal entre ele e o demônio Choronzon.

Um dos meus momentos preferidos nesse arco todo, Sandman vence por pouco mas com muita astúcia. Ele conclui seu ataque com “Eu sou a esperança.”. E derrota Choronzon, pois o que derrotaria a esperança, se ela é a última que morre? Genial a meu ver, Gaiman propõe que as palavras podem ser mais fortes que a força bruta, e ainda nos dá uma lição sobre esperança. Fecha a edição com Sandman escapando de um ataque repentino, dos reis demônios e seus súditos. Morpheus então, lembra a todos qual é o seu lugar na Criação, e a sua importância na ordem do mundo. Ele escapa sob o silêncio de todos e uma jura de vingança de Lúcifer.

A sombra de Lúcifer, e ao fundo Sandam indo embora do inferno.
Sandman indo embora do inferno.

Diga-me, Lúcifer Estrela da Manhã… Indague-se… Na verdade, indaguem-se todos vocês… que poder o Inferno teria se aqueles aqui confinados não fossem capazes de sonhar com o Paraíso?

PASSAGEIROS

A procura de Sandman nos leva a um personagem intrigante ao qual citamos um pouco acima. John Dee foi parar no Asilo Arkham por conta de atrocidades feitas utilizando o rubi, uma das ferramentas a serem encontradas. Após a morte de sua mãe, Dee fugiu do Asilo para ir atrás do rubi, escondido em algum lugar pela Liga da Justiça. O Caçador de Marte faz uma aparição como representante da Liga. Isso enriquece mais ainda esse universo escrito por Gaiman, intrínseco ao universo DC, e torna cada vez mais rica em detalhes a jornada de Sandman.

O vilão John Dee no carro com uma moça, em uma noite estrelada.
Dee pega carona.

Um dos momentos perturbadores em que a imprevisibilidade me impressionou, se dá nesta edição. Ao fugir, Dee sequestra uma moça em seu carro, e faz com que ela o leve ao esconderijo. Eles mantêm um diálogo ameno, mas o desfecho desta carona me choca. Pois resulta no assassinato dela. Tudo me levava a crer que simplesmente Dee a deixaria ir embora. Gaiman nos mostra o quão John Dee é perturbado, imprevisível e cruel. Uma pequena deixa do que este viria a ser capaz de fazer.

ESPERANDO O FIM DO MUNDO

A forma com que Neil Gaiman nos conta as histórias desse arco, é simplesmente brilhante. Ele nos dá os mínimos detalhes daqueles personagens, por mais que eles sejam secundários, levando o leitor a imergir mais e mais em sua narrativa. Aqui ele mais uma vez faz uso disso. Ao descrever as percepções da garçonete da lanchonete acerca de cada um dos clientes ali presentes até chegar em Dee. Gaiman prepara todo um ambiente para que possamos ficar boquiabertos com a tamanha loucura do vilão. Posso ter me impressionado bastante com muitas passagens desse arco, mas, este me mostrou o quanto a alma humana pode ser suja e cruel. Eu descreveria essa passagem como um filme do Tarantino, na verdade o mais sangrento e detalhista com requintes de horror.

Em posse da pedra dos sonhos, Dee brinca com a percepção de cada cliente ali presente, como uma criança mimada. Infligindo-lhes dor e medo, ele brinca com eles como se fossem marionetes de carne, fazendo com que uns firam outros, resultando na morte de todos. Apenas para passar o tempo, enquanto Sandman não o acha.

O Vilão Dee olhando os corpos no chão da lanchonete.
Dee admirando a carnificina.

SOM E FÚRIA

Permanece aqui a imprevisibilidade de Gaiman, ao qual me encantou e prendeu por 7 edições inteiras. O título parecia sugestivo, e talvez nos indicaria que Sandman, ao encontrar Dee, seria o fim dele. Pois bem, mais uma vez eu prevejo tudo errado. Gaiman me ensinou que antecipar os acontecimentos nessa história é um grande erro. 

Sandman leva Dee ao mundo dos sonhos, e em meio à fúria de ambos, a Pedra dos Sonhos é destruída, liberando todo o poder que continha nela, que volta para o seu mestre de origem. Sandman poupa a vida de John Dee e o devolve ao Asilo Arkham. Atitude essa que eu realmente não esperava do protagonista. Fui surpreendida com a misericordia que Sandman teve. Ele reafirma que os perpétuos não são maus. E que até carregam um senso de justiça interessante, uma vez que Sandam se vingou de Burgess por meio do filho dele. Creio que ele entendeu o quanto Dee já vivia em um pesadelo em meio a sua loucura e permanência de tantos anos no Asilo. 

O Vilão Dee transtornado gritando covarde.
A fúria do DR. Destino.

O SOM DE SUAS ASAS

Passar setenta anos aprisionado, muda qualquer um. Não seria diferente com o Senhor dos Sonhos, seria? Ao sair de seu cativeiro ele pensava apenas em vingança, recuperar suas ferramentas e continuar a desempenhar suas funções enquanto perpétuo. Indagado por sua irmã mais nova, a Morte, ele se vê sem propósito e vazio, perguntando- se qual seria a razão da sua função. Ao caminhar com a Morte, vendo ela desempenhando seu trabalho, ele entende que, como perpétuos, eles têm responsabilidades, e nenhum outro irá desempenhá-lo como ele. Faz sentido sua função. O mundo ao qual ele é responsável, o sonhar, é onde as almas vão quando descansam. As mentes de todos os seres vivos se encontram no reino de Morpheus. E ele precisa estar à frente de tudo isso. 

A personagem Morte em um diálogo com seu irmão, Sandman.
A morte pode ser “agradável”.

CONCLUINDO

Gaiman personificou o sonho, e o fez muito bem. Lhe deu um pouco de “humanidade” e envolveu o leitor de tal maneira, que ele não percebe o quanto se aprofunda em seu universo. Fazendo-o questionar sobre as intenções de Sandman, e ao mesmo tempo torcer por ele, ansiando por mais demonstrações de seus poderes. A narrativa de Gaiman é detalhista, rica em referências, mitologia e horror. É empolgante ir vivenciando a situações, sem medo de cair no previsível. 

Envolvida pelo personagem e sua história, anseio pela leitura dos demais arcos desse universo. Ainda mais quando Gaiman o encerra apresentando a personagem ao qual foi o motivo da captura de Sandman. Ele nos deixa com uma Morte brincalhona e vivaz, mas muito centrada no propósito de sua função.

Obrigada por terem chegado ao final de mais esse texto meu. Beijo enorme, e até o próximo!

Falando de algum lugar no universo - Aysla de Oliveira

Estudante de letras, mãe águia da Mari, feminista, leitora em remissão, "resenheira" de cultura pop e mãe de gatos.

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