A narrativa do mangá de One Piece é uma das mais fantásticas e avantajadas aventuras do universo de fantasias shounen. Sua fama é precedida por uma série de conquistas, tanto no mercado japonês quanto no mercado mundial de quadrinhos, sendo o terceiro quadrinho mais vendido da história. Com 470 milhões de cópias circulando, a obra se encontra atrás apenas dos quadrinhos de heróis mais famosos originados do ocidente: Batman (em segundo lugar com 483 milhões de cópias) e Superman (o recordista com 600 milhões de cópias). A essa altura, é fácil olhar para a obra e perceber o quanto seu sucesso crescente (contando com 979 capítulos) oferece um reflexo dos sonhos grandiosos dos protagonistas.
Mas houve um tempo em que One Piece não era esse gigante todo, nem na indústria nem aos olhos dos fãs de mangá. Nós só tínhamos um estranho garoto de borracha com um chapéu de palha cercado de gente mais estranha ainda, num universo pirata desconhecido e pitoresco. O que há de tão cativante e engajador para que essa história chegue onde chegou? Quem acompanha a série tem a sua própria resposta na ponta da língua. E se você for um pouco como eu, essa história navegou junto com você em momentos cruciais da sua vida, além de ter algum espaço na sua vida social. Mas vamos olhar um pouco pra quando você leu os primeiros capítulos ou viu os primeiros episódios de One Piece.
Pensando em perspectiva

Existe algo fundamental que um leitor (ou expectador) recebe de autores de boas narrativas: um olhar sobre a sua experiência. Claro, toda narrativa tem estrutura e intenções próprias de cada criador para se considerar, mas todo mundo que vai contar uma história sabe tudo de importante sobre ela. Enquanto você, lendo de primeira viagem, não. O que Eiichiro Oda faz é ter consciência disso e dar um passo além, planejando o que é exposto na história, pensando em eventos que vão ocorrer muito depois. Um dos principais efeitos disso é um valor de releitura muito grande. Agora que você leu quase mil capítulos, voltar ao capítulo 1 e saber que o conceito para haki do conquistador já existia, é no mínimo interessante.
Algumas coisas são apresentadas num primeiro momento mas desenvolvidas depois, no andar da carruagem. Usando o haki como exemplo, a primeira menção a esse termo só foi usada no capítulo 434 do mangá (Barba Branca e o Ruivo), e só começou a aparecer em sua forma tipificada por volta de uma centena de capítulos depois, já no arco de Marineford. Isso revela um pouco das maquinações que Oda usa, apresentando manifestações de um conceito base e aprofundando sua estruturação na medida que outros pontos da história avançam. Mas haki é um elemento de poder quase técnico, ainda que tenha importância na condução da narrativa. Vamos mergulhar num aspecto que considero uma espinha dorsal para a jornada de One Piece – o vínculo entre Luffy e Zoro.
Rei dos Piratas e o Grande Espadachim

Pode parecer um tópico estranho, já que sem os vínculos formados entre todos os membros do bando do chapéu de palha, nenhuma das suas aventuras teriam acontecido. E isso é óbvio para além dos vínculos em si: sem Nami, eles não navegariam pelos mares (ou pelos ares), sem Chopper ou Sanji eles possivelmente já teriam morrido, sem Franky não teriam nem um bom navio para continuar, e por aí vai. Zoro é compreendido muitas vezes como um lutador (compondo o “Monster Trio” junto com Luffy e Sanji), mas é seu papel de primeiro imediato, a presença de alguém capaz de manter o capitão na linha quando precisa e sua relação única com Luffy que são essenciais.
Pense em grandes duplas de diversas mídias. Holmes e Watson. Capitão Picard e Comandante Riker. Gol D. Roger e Silvers Rayleigh. Cebolinha e Cascão. Em cada uma dessas situações, há distinções técnicas específicas, mas o laço de confiança mútua e a construção de parceria entre os indivíduos é o que prevalece sobre a relação de chefe e subordinado. E o porquê dessa dinâmica funcionar tão bem com Luffy e Zoro pode ser visto logo no início de One Piece. A história se vende como a narrativa de Luffy, um cara completamente na sua própria vibe, que choca a todos com sua maneira de ser aparentemente inconsequente. Mas não fica só nisso por muito tempo, porque assim que chega no vilarejo de Shells (Capítulo 3), Luffy encontra alguém com uma vibe muito similar com a dele, nosso espadachim do cabelo verde.

É evidente que Luffy e Zoro têm personalidades bem diferentes, mas quando falamos do que realmente importa, aquilo que cada um acredita no seu âmago, esses dois estão em completa sincronia. Ambos são mentes simples, olhando para um mundo imenso e perigoso, desejando conquistar seus respectivos espaços sonhados nele. Seja se tornar o maior espadachim do mundo, seja virar o rei dos piratas, são sonhos que a maioria das pessoas do East Blue zombariam ou encarariam com choque. O cidadão comum do mundo de One Piece diria “kkkkkk boa, boa” ou “pff, tá de zoa né mano“. Mas Luffy e Zoro olham um para a cara do outro e revelam seus sonhos de uma maneira quase casual. Quando Zoro diz qual é sua meta, Luffy responde com algo do tipo “O maior espadachim do mundo…é, massa. Nada mal pra um companheiro do cara que vai ser o rei dos piratas. Menos que isso ia cair mal“. E a reação de Zoro para a ambição do Luffy é algo como “Hum, falou bonito” (Capítulo 6).
Agora pensem comigo: no primeiro volume, ou nos primeiros episódios de One Piece, ninguém vendo pela primeira vez tem noção da profundidade que carrega dizer que você quer se tornar o rei dos piratas ou o maior espadachim do mundo. Ao ler isso sabemos que ser o melhor em alguma coisa certamente é algo grandioso, mas não temos ideia do que isso implica nesse universo. Do momento que se tornam companheiros em diante, esses dois figuras agem como um ampliador do sonho do outro, combinando suas vontades e empurrando suas ambições rumo ao que querem do mundo. Seus sonhos se entrelaçam, e podemos ver uma marca disso não muito depois (apesar de ter parecido muito pra mim quando ainda esperava nas bancas) — quando Zoro se depara pela primeira vez com Mihawk (Capítulo 49), que por acaso é o maior espadachim do mundo. Depois de desafiar e perder o duelo, com seu sonho literalmente em frente aos olhos, Zoro jura para si e para Luffy que nunca vai perder de novo até conquistar seu desejo. Ao perguntar se o rei dos piratas tem algum problema com isso, Zoro confirma o ajuntamento desses sonhos, e o fato de que ele e Luffy não estão mais lutando apenas por si mesmos mas também um pelo outro.

Com essa promessa, a dupla toma uma responsabilidade para com o outro, caso um dos dois venha a se desviar do caminho. E é assim que vemos Zoro exercer seu papel de primeiro imediato ao longo da narrativa, com um dos momentos mais emblemáticos disso nos arcos de Water 7 e Enies Lobby. Durante a desavença emocionalmente carregada entre Luffy e Usopp, é Zoro quem relembra o papel do capitão e quem ajuda a segurar as pontas, chegando a dar voz à ordem de abandonar o navio (Capítulo 333). Isso assegura que mesmo em meio ao caos que o bando se encontra, eles possam seguir no rumo de seus sonhos. O mesmo vale para quando Zoro não permite que Luffy tome a decisão de deixar Usopp voltar levianamente, pelo impacto que isso teria no capitão que Luffy é.
E como One Piece é uma história sobre a grandiosidade das coisas, a magnitude desse vínculo só escala. Como no momento memorável em Thriller Bark, no qual Zoro não deixa Sanji assumir o seu papel e aceita receber de Bartholomew Kuma toda a dor acumulada das batalhas de Luffy para que ele possa sobreviver. Quando Sanji recobra os sentidos e vê o capitão bem e Zoro ensanguentado, pergunta alarmado o que aconteceu, ao que Zoro responde “Não foi nada” (Capítulo 485). Isso demonstra mais do que uma capacidade física, há um senso de propósito que a sustenta, porque aquilo não é nada mais do que ele deve fazer por acreditar no sonho do seu capitão.

A linha que conecta tudo vai ficando mais perceptível quando revisitamos esses momentos especiais. Não só sobre a relação entre Luffy e Zoro, mas sobre a maioria dos aspectos da narrativa de One Piece. Isso ajuda a dar profundidade na compreensão das camadas que a história possui, ainda que pareça tão simples a princípio. Por isso eu digo que Oda faz algo especial quando coloca a nossa visão em perspectiva: apresentar os leitores a uma história que flui bem, ao mesmo tempo em que nos convida a encontrar os tesouros escondidos nas entrelinhas a cada releitura. É uma marca definitiva de uma boa e cativante narrativa.