De volta para casa – Perseguindo memórias

De volta para casa – Perseguindo memórias

O filme “De volta pra casa”, de Cristina Comencini faz parte da segunda edição do Cine Clube Italiano no serviço de streaming Petra Belas Artes à La Carte. Alice McNellis (Giovanna Mezzogiorno) é uma jornalista que está há muitos anos distante de Nápoles, cidade do sul da Itália, onde nasceu e vivia com sua família. Posteriormente à morte de seu pai, ela retorna para o funeral.

Primordialmente por ter estado muito tempo distante da casa em que cresceu, Alice sente-se uma estranha naquele local. Logo depois do funeral, ela fica só em uma casa imensa, silenciosa e repleta de lembranças. Porém, em suas memórias, algumas recordações parecem incompletas ou simplesmente esquecidas.

Memória seletiva

Eventualmente, no início do filme, a irmã de Alice (Barbara Ronchi, de “O que Será?”) diz que nossa memória só lembra o que nós queremos. Se a princípio as lembranças que Alice vai contemplando e relembrando parecem nostálgicas e românticas, logo percebemos que existem elementos mais tensos e obscuros que sua mente decidiu bloquear como uma espécie de autoproteção.

Eventualmente, no funeral, ela conhece o enigmático Marc (Vincenzo Amato, de “Respiro“), um bibliotecário que acompanhou os últimos anos do pai de Alice, ajudando-o a ler. Marc parece disposto a ajudá-la a confrontar seu passado e suas memórias, mas seu aparente conhecimento profundo sobre sua pessoa, deixa Alice ressabiada em relação ao seu auxílio.

Marc (Vincenzo Amato) e Alice (Giovanna Mezzogiorno) (divulgação)

Tempo é só uma forma de medir as coisas

O físico italiano Carlo Rovelli ficou conhecido por questionar o conceito estabelecido da medida do tempo. Assim, para ele, este conceito é abstrato demais e cria uma ilusão de que existe apenas uma única percepção sobre passado, presente e futuro.

Portanto, o filme se utiliza desta ideia para estruturar a forma como Alice vai confrontando suas memórias. Primeiramente ela as vê como flashes do passado, ou cenas em uma peça de teatro. Ela também interage com a própria Alice adolescente e depois com a Alice criança.

Alice (Giovanna Mezzogiorno) e Alice criança (Clelia Rossi Marcelli) (divulgação)

Estes diálogos mostram como Alice está tentando entender seu próprio passado ao questionar as escolhas que sua versão jovem faz. Ela analisa decisões e acontecimentos. As 3 fases de Alice conversam e se aconselham entre si. A memória da Alice adulta vai sendo reconstruída de uma forma poética e profunda em uma mistura de lembranças.

Liberdade perdida no passado

A Alice adolescente (Beatrice Grannò) é uma pessoa que ama a liberdade e é julgada por querer viver da forma que ela quer. Sem medo de ser feliz ou de ceder a seus impulsos. Sendo filha de um militar e com uma irmã mais reservada e caseira, ela se torna a “irmã rebelde”, como ela diz. Nesse sentido, a forma como seu pai a julga e busca lhe tolher reflete como uma sociedade patriarcal julga jovens mulheres.

Alice diz que nunca mais sentiu a liberdade que experimentou em sua adolescência. Uma liberdade que se perdeu e que desde então ela almeja e que aos poucos vislumbra em entender como e porque a perdeu.

A jovem Alice (Beatrice Grannò) (divulgação)

Onde e quando assistir “De volta para casa”

“De volta pra casa” é o mais novo filme da diretora Cristina Comencini, cujo filme “Segredos do coração”, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006. O filme conta com uma belíssima fotografia de lindas locações em Nápoles, uma montagem dinâmica e com ótimas atuações. É um belo e profundo drama sobre conhecer a si e as mazelas da sociedade patriarcal.

Belas locações em Nápoles (divulgação)

“De volta para casa” estreia neste dia 04/06 e fica em cartaz no Petra Belas Artes à La Carte até 10/06. Por isso não percam a chance de assisti-lo!

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

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