Mentiras, traições, abusos, e até homicídio; Big Little Lies vem para mostrar que nem sempre a grama do vizinho é realmente mais verde no subúrbio americano.
Sinopse
“A vida aparentemente perfeita das mães de classe alta, em uma prestigiada escola primária, se desenrola ao ponto de assassinato quando uma mãe solteira se muda para sua pitoresca cidade litorânea da Califórnia.” Ao pesquisar Big Little Lies, essa é a descrição da série apresentada no IMDB. Descrição esta que não foge realidade, no entanto a série acaba apresentando muito, muito, mais.
Personagens Principais
Inicialmente, Big Little Lies conta a história de Madeline Mackenzie, Celeste Wright e Jane Chapman, três mães e suas histórias diárias. Jane, interpretada por Shailene Woodley acaba de se mudar para a pacata cidade de Monterrey em busca de um recomeço para ela, e seu filho Ziggy. Desde o primeiro momento da série, fica claro que Jane não se encaixa em meio a outras mães, e que possui um grande segredo que a atormenta, o que surpreendentemente não a impede de começar uma amizade imediata com Madeline.
Madeline, interpretada por Reese Whiterspoon é o estereótipo perfeito da mulher americana de meia idade, branca, e rica. Cabelos e unhas perfeitamente arrumados, vestido novo e bolsa de marca, completamente pronta para o primeiro dia de aula, ela acaba se encontrando com Jane, que cativa Madeline por sua gentileza, fazendo com que esta lhe adote. A amizade, entre elas acaba sendo a primeira boa surpresa em Big Little Lies, pois Madeline não julga Jane por ser obviamente de classe mais baixa que ela, tão pouco por ser mãe solo.
O terceiro elemento dessa amizade improvável é Celeste, interpretada pela brilhante Nicole Kidman. Muito bem casada, mãe de gêmeos e aparentemente bem sucedida na carreira de advogada, que ela abandonou. Celeste parece ter a vida perfeita ao lado de Perry, (Alexander Skarsgard) mas obviamente nada é perfeito. Desde o primeiro episódio nós percebemos que Celeste vive um relacionamento tóxico e extremamente abusivo.
Além das três personagens principais, Big Little Lies possui ainda outras duas personagens importantes para o desenvolvimento da trama que por opção narrativa são coadjuvantes: Zoë Kravitz como Bonnie Carlson, a nova esposa do ex marido de Madeline, e Laura Dern, como Renata Klein, a mulher poderosa, bem sucedida na carreira que não leva desaforo para casa e se torna a antagonista da primeira temporada da série. A série conta ainda com a participação da maravilhosa Meryl Streep na segunda temporada.
Porque assistir Big Little Lies?
Os motivos são inúmeros, por ser uma produção da HBO, já se é esperado que Big Little Lies tenha bons atores, boa caracterização, ambientação, cenários e produção. As locações e cenários são muito bonitos, afinal boa parte dos personagens são de classe média alta, e por essa razão suas casas são incríveis. Eu quero morar na cozinha de Madeline. Quem não quer uma cozinha em conceito aberto com armários lindos e bancada dupla? Ok, ok, talvez eu tenha um pequeno vício por programas de reforma de casas e decoração, eu culpo o Discovery Home and Health, mas o ponto é: Monterrey é uma cidade bonita, e ricos vivem muito bem.
Outro destaque incrível de Big Little Lies pra mim é a trilha sonora. Não só sua utilização que dá o tom em vários momentos, mas principalmente a qualidade das músicas escolhidas. O repertório contém Elvis, Janis Joplin, Leon Bridges, The Spinners, Diana Ross, Joan Jett, Charles Bradley, Frank Ocean, Alabama Shakes e vários outros nomes incríveis. Um trabalho tão magistralmente conduzido desde a música de abertura, Cold Little Heart entoada pelo maravilhoso Michael Kiwanuka.
Outros pontos importantes a serem destacados: Figurino e atuações. Big Little Lies foi indicada a 16 Emmys no ano de 2017 e merecidamente levou 8 deles para casa, incluindo melhor série limitada, direção, figurino, melhor atriz, atriz e ator coadjuvantes.
Porque não assistir Big Little Lies?
Possuo um preconceito enorme com séries da HBO. Caso seja a primeira vez que você esteja por aqui, um esclarecimento: Sou uma mulher negra, bisexual e feminista. Isso significa que sempre busco representatividade nos conteúdos que consumo. Por essa razão eu tenho um problema grande com séries da HBO, que insistem em repetidamente abordar violência sexual contra mulher de forma fetichizada apenas para o entretenimento e sem consciência ou consequências sobre seus atos. Vou deixar alguns artigos aqui para que vocês possam formular suas próprias opiniões sobre a empresa.
A HBO sofre inúmeras críticas há alguns anos também sobre representatividade racial em suas séries, não só pela falta, mas também quando há presença ela é usualmente um Token. Ou seja, é um personagem que é incluído apenas para calar uma minoria, para passar a visão ilusória de que existe representatividade. Na primeira temporada de Big Little Lies, além de Bonnie (Zoe Kravitz), e de sua filha, existe apenas um outro personagem coadjuvante negro. Na segunda, este personagem coadjuvante é substituído por um professor, que parece estar confuso 100% do tempo do porque ele está ali, e que é prontamente esquecido na metade da temporada;
A mãe de Bonnie também faz uma aparição, extremamente estereotipada, que consiste em ser a mulher negra sensitiva, aquela que tem contato com o além, os espíritos (Oda Mae Brown, alguém?), usa ervas e acredita em cristais. Como se não fosse suficiente, é encaixada também no estereótipo de mulher negra raivosa, que maltrata a filha e teve problemas com álcool. O que me prova que a HBO ainda precisa aprender muito sobre o que é representatividade para poder tentar executar ela da forma correta.
Contudo…
A razão maior que me fez escolher Big Little Lies como resenha da semana é porque dessa vez eles acertaram no que eles sempre erram: Como utilizar estupro em uma narrativa de forma não fetichizada e respeitosa.
A HBO, por várias vezes errou ao fazer apresentações de um dos que pode ser o acontecimento mais traumático e temeroso para a vida de uma mulher. Em média, 180 mulheres são estupradas por dia no Brasil. Diante de um dado como esse é impossível consumir mídias que retratam mulheres passando por violência sexual de forma fetichizada, ou que a violência sexual seja colocada como motivação para uma grande escalada de poder. Sim, Game of Thrones, Euphoria e Westworld eu estou olhando diretamente para vocês.
Em um artigo para a Vulture, um site de cultura pop regido pela New York Magazine, Jada Yuan ao analisar a forma com a qual o estupro da personagem Pennsatucky de Orange is the New Black é retratado, adapta o Bechdel Teste para ponderar sobre como estupros são tratados na ficção.
Para Yuan é importante responder às seguintes perguntas: O ponto de vista da vítima é mostrado? A cena tem um objetivo de existir para o progresso do personagem, ou do roteiro da série? As consequências emocionais são exploradas? Apenas por responder sim para todas as 3 perguntas, Big Little Lies se mostra um passo adiante de maior parte das obras da HBO. Acrescento ainda que diferente de outras obras acima apontadas da empresa, em Big Little Lies, em momento nenhum o estupro é fetichizado.
Desde o primeiro momento a personagem que passa pela violência sexual busca uma retomada de sua agência. Ela é forte não por causa do que lhe acontece, mas sim apesar do que lhe acontece. Ela segue com sua vida, e cria seu filho, que é fruto do ato com todo amor e respeito. Ainda que sua jornada, e o que aconteceu influenciam no roteiro, ele não se movimenta para a personagem apenas por que a violência aconteceu. Acompanhamos a busca do redescobrimento do amor e também de si mesma, que a personagem enfrenta. Ela é o foco, nunca o estupro.
Considerações finais

Baseado no exposto acima, acredito que Big Little Lies, ainda que com seus muitos defeitos e uma segunda temporada mal elaborada, seja digna dos prêmios conquistados. Levando em consideração que a série aborda temas adultos que perpassam a violência sexual, relacionamentos abusivos e tóxicos, morte, homicídio, bullying, infidelidade, abandono parental, entre outros, recomendo que você assista apenas se nenhum dos temas seja um gatilho pessoal.
A série é baseada no livro homônimo de Liane Moriarty, estreou em Fevereiro de 2017, e conta com duas temporadas, totalizando 14 episódios e está disponível no HBO Go. Como sempre eu espero que vocês estejam em casa, se cuidando durante a pandemia. Um beijo enorme e até a próxima.