De Canção em Canção é um daqueles filmes que mesmo antes da estreia nos cinemas já chama muita atenção e gera expectativa. O que parece justo vide o elenco de atores e os nomes por trás da realização dessa obra. Temos aqui um dos trabalhos mais íntimos e pessoais do cineasta e filósofo Terrence Malick, uma viagem investigativa junto de nossos mais perversos e honestos, sentimentos e desejos.
Uma viagem sonora

O cenário onde Malick desenvolve sua viagem é o da indústria fonográfica norte-americana. A trama principal gira em torno da relação entre um poderoso produtor musical (Michael Fassbender) e dois músicos (Rooney Mara e Ryan Gosling) em busca de um lugar ao sol. A dinâmica entre esses três personagens é a força motriz da história, é uma relação que hora se regula por poder e sexo, hora por honestos sentimentos de amor e solidão. Além disso a consciência do erro é algo que está presente com muita força aqui. O personagem sabe que está fazendo algo errado, sofre com isso, mas existe sempre um desejo mais potente que a moral.
Personagens complexos e atuações intimistas

Rooney Mara tem a melhor interpretação no filme, ela é o catalizador de tudo que acontece ali. Isso é justo pelo fato de sua personagem ser a mais favorecida pelo roteiro, é quem tem o maior tempo de tela, e embora, a história seja contada por vários personagens, quase sempre vemos as situações da perspectiva dela. Mara entrega todas as emoções que a personagem necessita, sempre de maneira precisa e natural. Ela passa muita coisa em pequenas sutilezas, seja na voz, olhar ou postura corporal.

Ryan Gosling está perfeito aqui, é o personagem mais simpático ao espectador. Também é o menos complexo, mas ainda assim é extremamente cativante e charmoso.
Fassbender faz uma persona complexa nesse filme. É extremamente poderoso e sedutor, sua presença sugere ameaça. É imponente, ardiloso, mas ao mesmo tempo muito vazio, sem propósito e solitário. Ele sofre com isso, é alguém que está quebrado. Mas que usas todos os recursos a seu redor para manipular e usar os outros.
O elenco ainda conta com alguns nomes de peso como Natalie Portman e Cate Blanchett, estas com papéis secundários e pouco desenvolvidos, mas que são importantes para a construção do trio de protagonistas.
Interessante é o fato do enredo em grande parte do filme sair do triângulo entre os protagonistas e focar em outras relações dos mesmos.
Impecável

Tecnicamente é uma obra muito acertada, tem uma cinematografia linda do Emmanuel Lubezki, muito uso de luz natural, e cores fosforescentes/neon. A movimentação de câmera do Malick é bem característica de seus trabalhos, muito ativa, viva, em alguns momentos chega a ser vertiginosa, o que cria uma atmosfera mais realista, como se estivéssemos inseridos dentro do cenário, é uma linguagem muito próxima do documentário. O silêncio é bem explorado, traz uma carga dramática mais verdadeira em vários momentos pontuais da trama. A narrativa é desconexa, a passagem de tempo aqui não é clara, são muitas cenas avulsas, quase que jogadas, mas que no macro fazem sentido.
Cabe aqui dizer que Malick se mostra muito seguro dentro de seu próprio método de contar histórias, quem já conhece sua obra vai achar muita coisa familiar. Mas não acho que seja mera repetição, mas sim a caracterização de estilo de um diretor, assinatura.
Por fim

Esse é um filme abstrato, toda interpretação sempre será muito particular. Mas me parece que existe uma afirmação do sentimento sobre a fisicalidade das coisas. Por mais que os protagonistas vivenciem situações distintas, em locais diferentes, com outras pessoas, em outros tempos, os sentimentos sempre convergem para um lugar comum. De certa forma estão conectados.
Para parte do público é possível que não funcione, pois é um filme vagaroso, desconexo e requer engajamento do espectador. Mas ainda assim é uma obra prima. Fracasso de crítica. A preciosidade mais odiada da última década.
Posfácio de apreciação da fotografia de Emmanuel Lubezki nessa obra







