Quando aqui denomino-me o “Amador Crítico Musical”, creio que o pensamento geral deva ser algo que foge de gostos populares e se afunda em artistas underground desconhecidos pelo grande público. Em parte é verdade, quero escrever sobre alguns artistas que tem apenas poucos milhares de acessos em números de streaming no Spotify. Porém, Djonga cantou: “Restaurante gourmet é até bom, mas arroz, feijão e carinho é o prato do povo”. E hoje vou falar justamente disso, a deliciosa farofa que é Chromatica, o novo álbum da Lady Gaga.

Stefani Germanotta —Lady Gaga para os íntimos— dispensa apresentações. Sua arte começou a nos ser apresentada em 2008, com o lançamento de seu primeiro álbum: The Fame. Esse disco foi uma metralhadora de hits. Love Game, Just Dance, Paparazzi e mais amada Poker Face mostraram para nós quem era Gaga. Em 2009, ela nos lança um EP que seria a continuação deste álbum: The Fame Monster, esse com uma pegada mais gótica do que a primeira parte e com músicas ainda mais hitantes: Bad Romance, Alejandro e Telephone. E foi um EP muito importante pois nos crava na memória quem é Lady Gaga com toda sua excentricidade, videoclipes com estéticas únicas, histórias muito bem contadas e todo o conceito que Lady Gaga ia levar a risca em sua carreira.

Em 2011, ela lança Born this Way. Mais uma vez aplicando o seu conceito único. O álbum também é um sucesso. Musicalmente falando, ele tem mais energia que o antecessor e a estética de Lady Gaga quase não muda, com os mesmos tons negros que o Fame Monster e videoclipes ainda muito marcantes. Estou falando de Judas, com a gangue de motoqueiros 12 apóstolos, seu Líder Jesus e uma Maria “Gaga” Madalena na garupa do chefão do bando. O mesmo álbum tem a faixa homônima: Born this Way.
Born this Way é simplesmente a faixa mais forte do seu álbum. Um ritmo dançante, um instrumental eletrônico pesado completamente contagiante e uma Lady Gaga linda vêm para ornar um dos maiores hinos LGBT da história. Essa música poderia ser apenas uma esquisitice de Lady Gaga com um ritmo de balada, mas ela vai além. Gaga nos diz que somos bonitos da forma que somos porque Deus não comete erros, nós nascemos assim. Isso é um balde de motivação e auto-estima na nossa vida LGBTQ. Tais palavras poderiam vir de pessoas que amamos, mas para quem não tem isso ainda, é uma música que empodera, revitaliza e nos dá maior energia e orgulho de sermos quem nós somos.

Poderia dizer muito mais sobre esse álbum, dizer que “Yoü and I” é a minha músicas favorita da Lady Gaga e que é um dos primeiros flertes dela com o country de Joanne, que “Marry the Night” é uma ótima introdução para esse show próprio que Gaga dá a nós e que The Edge of Glory é uma ótima música para encerrar e deixar com vontade de ouvir novamente, mas não vai valer de nada. A faixa Born this Way compra o álbum inteiro e fixa eternamente na memória quem é Lady Gaga.
Chega o ano de 2013 e Gaga lança mais um trabalho, Artpop, que é de longe a obra mais controversa da artista. Tenho lembranças da época que esse álbum foi lançado e foi completamente rechaçado pelos fãs. E não é de se contrariar, pois esse foi o álbum com o pop mais genérico que Lady Gaga havia lançado até aquele momento. Enquanto as faixas do álbum anterior tinham força, potência, energia, identidade; Artpop se entregou no pop dançante mais genérico possível. Por mais que você visse aquela mesma Lady Gaga, e toda a sua maravilhosa excentricidade acompanhada de uma mudança estética mais colorida e ainda original, no final do dia ainda era um álbum completamente genérico e fraco. Mas não vou negar: os hits G.U.Y. e Applause são muito bons, de qualquer forma.

Bem que as músicas também poderiam ser…
Passou-se os anos e sinto que Artpop impactou um pouco a carreira de Lady Gaga, para mal ou para o bem. Em 2014, acompanhado de Tony Bennett, figurão do Jazz Americano, ela lança um álbum completamente voltado para esse gênero: Cheek to Cheek. Sinceramente, não sei muito o que dizer sobre essa obra, já que Jazz não é o meu forte, mas ainda assim soa bem como Jazz. Porém, o melhor dessa fase pós-traumática de Artpop foi Joanne.

Se o Jazz já havia sido um movimento fora da curva para Gaga, Joanne foi uma aposta alta que deu muito certo. Um álbum completamente acústico e orgânico, vêm para trilhar caminhos que Gaga já tinha ousado em Yoü and I. Um álbum de country, simples e direto. Não há outra palavra pra dizer sobre Joanne. É o álbum de country da Lady Gaga. E puxa vida, quem diria que isso ia ser incrível?! Já começa com dois pés no peito com Diamond Heart, como um balde de água fria nos mostrando como vai ser. Na segunda faixa, A-YO, é ainda mais ousada, se aproximando ainda mais do clássico country texano. Na faixa homônima do álbum, nos faz respirar e nos explica quem é Joanne: ainda é a Gaga, mas voltando um pouco atrás para entendermos melhor quem é essa artista e como ela não teme se arriscar. E sem temer lançou músicas maravilhosas como A Million Reasons e Perfect Illusion. Joanne marcou para sempre a carreira de Gaga, com o seu violão cor-de-rosa e aquele maravilhoso chapéu também rosa.

E os anos foram passando. Em 2018, atuou como co-protagonista em “Nasce Uma Estrela” e Lady Gaga levou todos os prêmios que dava pra carregar debaixo do braço numa temporada inteira de premiações. 2 Grammy’s, 1 Globo de Ouro, 1 BAFTA e 2 indicações ao Oscar, como Melhor Atriz e Melhor Canção Original, levando a estatueta de Melhor Canção Original. Com isso quebrando o recorde de artista mais premiada durante uma temporada de premiações.
Mas vamos ao que interessa: Chromatica.
Chromatica é o sexto álbum de Lady Gaga. E é a sua obra mais perfeita até agora. Da primeira até a última faixa, o álbum se sustenta e não te deixa pular uma faixa sequer. Começa com Alice, com Gaga nos dizendo que não é a clássica personagem, mas ainda continua procurando pelo País das Maravilhas. E é com uma house music, ela nos leva em sua caçada por Chromatica. Logo após isso, nos leva para Stupid Love. A música é ótima, mas o clip é um deleite total, com claras influências de Tokusatsus (Jaspion, Ultraman, Jiraya), Barbarella e Mad Max. O videoclipe nos mostra uma Gaga mais colorida do que nunca, e mais feliz ainda. O instrumental e a melodia da canção nos lembram um pouco de Born this Way, mas como numa revisita a obra. E em Rain on Me, Gaga fez Ariana Grande sair de sua zona de conforto e finalmente soltar seu rabo de cavalo. Icônico.

O melhor do álbum é que Gaga vai dosando a seriedade da obra como se fosse realmente uma obra no qual estamos acompanhando a história. Antes do interlúdio “Chromatica II”, ela canta que não está se divertindo em Fun Tonight, nos mostrando que algo está errado. Vem o interlúdio, com um instrumental sério de revelação de filme de suspense e então nos chega a emergência: 911, uma das melhores do álbum. E esse sentimento de falha passa por músicas como Sour Candy, faixa com uma inesperada colaboração do BLACKPINK, um dos girl group de k-pop mais proeminente da atualidade; e passa por Replay, a música mais intensa do álbum. A solução dessa falha chega em Chromatica III, o último interlúdio que nos leva para o ato final, com faixas como Sine from Above, com participação de Elton John, e termina com Babylon, terminando como ninguém essa ópera rock que é o melhor álbum da carreira de Gaga.
Chromatica é inigualável, nada parecido já havia sido produzido no cenário musical pop. Todas as faixas são dance pop, mas com uma identidade nostálgica do eletrônico dos anos 2000. A volta de Gaga para seu pop original não podia ser mais brilhante do que isso. Todas as faixas são shows únicos dentro de um álbum que é uma maravilha. E foi voltando para sua zona de origem que Gaga brilhou. Ela pode fazer álbuns de jazz, country, interpretar vários filmes dignos de Oscar, porém ela brilha aqui, nessa zona de conforto do dance pop. Por isso que digo que esse álbum é uma farofa. Farofa é muito bom gente, eu consigo imaginar esse álbum inteiro sendo tocado numa balada qualquer da cidade e nem por isso ele vai deixar de ser essa obra de arte única da atualidade.
Lady Gaga vai mais uma vez levar o máximo de prêmios que couber debaixo de seus braços. Indico ouvir Chromatica no Spotify. Junto com as canções, vem breves apontamentos da própria Gaga sobre cada faixa