
Em 06/07 do presente ano (semana passada) recebemos a triste notícia do falecimento de Ennio Morricone, um dos maiores compositores e arranjadores da história do cinema. Não podendo deixar de celebrar a vida e obra desse grande artista, gravei um podcast, que deve ser publicado ainda essa semana no feed do Elementar, onde falo dos temas mais marcantes de sua carreira, e como revolucionou as trilhas de western.
Nesse contexto, fui atrás das principais obras de Ennio, dentre elas a célebre Trilogia dos Dólares (ou Trilogia do Homem sem Nome), composta pelos filmes Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966). Todos filmes italianos, dirigidos por Sergio Leone e estrelados por Clint Eastwood. Até então nunca havia assistido esses filmes, embora soubesse que eles existiam e eram muito importantes para o gênero. Me diverti muito assistindo esses filmes. São obras muito simples em termos de interpretações, narrativa e cinematografia, mas são brilhantes em composição de cena e criação de emoções.
Essa trilogia é repleta de momentos memoráveis e icônicos, mas hoje quero falar de uma cena específica, o duelo final de Por uns Dólares a Mais. O segundo filme da trilogia é meu favorito, e também o que contém, em meu entendimento, a melhor cena.
Essa cena me deixou na ponta da cadeira, extremamente tenso e temeroso para com os personagens. É carregada de emoção e cheia de sutilezas encantadoras. Após assistir a trilogia voltei várias vezes para rever essa cena. Ela tem um peso dramático que me fascina.
Minha intenção aqui é fazer uma leitura da cena e tentar pensar em como ela é construída e como manipula nossas expectativas e emoções. Assim, deixo claro que essa leitura é carregada de spoilers, pois estou comentando o desfecho do filme. Caso ainda não tenha assistido, recomendo que o faça antes de ler essa análise. Lembrando que essa trilogia é uma antologia, então você pode assistir somente o segundo filme para entender o que será tratado aqui.


Por uns Dólares a Mais conta a história de dois caçadores de recompensa (Clint Eastwood e Lee Van Cleef), que se conhecem por acaso e juntam forças para capturar um grupo de bandidos terríveis que aterrorizavam a região. O grupo de foras da lei é liderado pelo maléfico e dramático El Indio (Gian Maria Volonté), que carrega consigo um relógio de bolso que toca música de ninar, e apresenta a foto de uma jovem mulher. Ficamos sabendo ao longo do filme, sem um contexto claro, que no passado Indio adentrou o quarto de um casal, matou o homem e tentou estuprar a mulher, que na iminência do abuso se suicidou. Esse momento marcou o personagem, que levou consigo o relógio da moça.

Na cena que motiva essa análise já sabemos que um dos caçadores de recompensa (Lee Van Cleef) é na verdade um Coronel, chamado Douglas Mortimer, e que esse não está em busca de uma recompensa pelos bandidos, mas sim de vingança contra El Indio. Nesse momento já ligamos a moça do relógio ao personagem, mas sem saber ao certo o grau de ligação entre eles. No contexto da cena, os criminosos já foram emboscados pela dupla de caçadores, quase todos foram mortos, porém em um momento de desatenção Mortimer é desarmado por um tiro certeiro de El Indio em sua arma. Vejamos:
O que sabemos no início da cena, logo que Mortimer é desarmado, é que Indio é cruel e atira muito bem. E que seria impossível juntar a arma do chão e disparar antes do adversário. Assim Mortimer já estava condenado a morte. Além disso, já havíamos visto lá no início do filme uma outra cena de duelo, onde Indio mata um homem ao fim da música do relógio, exatamente como proposto aqui. O que reforça ainda mais a sensação de que esse duelo já estava definido.

Repare que Indio está extremamente confiante, note a postura e gestos, a forma como olha e fala com Mortimer. Chega a ser arrogante.

Nos quadros seguintes temos o plano fechando em Mortimer olhando para a arma, seguido de um plano da perspectiva do personagem, evidenciando o quão distante estava a arma.
Mortiamer continua imóvel, trocando o olhar entre Indio e a arma no chão. Enquanto isso Indio avança alguns metros a frente, mostrando uma postura ativa e agressiva.

Logo o relógio tocador de música se torna parte emocional da cena, o som dele sobe e fica mais evidente. Aqui, ele é colocado de como um símbolo de poder: aquele que detém o objeto, aparentemente detém o controle da situação. Além disso, começa nesse ponto uma das coisas mais significativas em trilhas sonoras de filmes, Ennio Morricone inova ao misturar a trilha do filme com som diegético. A música parte do relógio dentro do filme, e logo entra uma orquestra, a trilha de fora do filme. Os personagens não ouvem a trilha, nós ouvimos. Essa mistura do som de dentro do filme com a trilha sonora foi algo novo na época.

Indio está prestes a sacar sua arma ao fim da música, quando de repente a continuação inesperada do som tira atenção dos personagens. É muito importante pontuar aqui que a surpresa é primeiro auditiva, a quebra da expectativa vem primeiro do som.

O personagem de Clint Eastwood surge segurando um outro relógio tocador de música. Logo nos é mostrado que é o relógio de Mortimer, deixando explícito de uma vez por todas a relação do personagem com a mulher vítima de El Indio. A presença de Clint cria uma nova dinâmica na cena. Agora ele detém o poder e controla a situação. Indio é rendido. Repare na expressão dos personagens, Indio agora já não tem mais a segurança e empáfia que ostentava no início da cena. E Mortimer expressa um sorriso muito, muito sútil.

Clint arma Mortimer para que possa ocorrer um duelo justo.

O plano se abre em uma composição belíssima mostrando os dois duelistas frente a frente, e o Homem sem Nome postado como um mediador, ou juiz do duelo.
Nesse momento a trilha de Morricone já dominou espiritualmente toda a cena. E cabe registrar que grande parte da emoção gerada nos filmes dessa triologia vem da música. Todos os conflitos em cena são potencializado pela dramaticidade da música.

Em seguida temos uma série de quadros simétricos, que vão colocando os dois duelistas de forma antagônica. O equilíbrio e simetria na composição desses quadros evidencia que agora ambos estão em condições iguais.

A câmera fecha um plano detalhe no relógio na mão de Clint, e a trilha que estava épica e apoteótica baixa, e voltamos a ouvir a música do relógio, que é o marcador do duelo. Quando a música acabar, vence quem for mais rápido.

Um último close nos duelistas mostra como Mortimer está concentrado e altivo, enquanto Indio está suando, possivelmente por medo e insegurança.

Ao fim da música Mortimer se faz vencedor. Logo em seguida descobrimos que a moça vitimada por Indio era sua irmã. Mortimer parte vingado, e o Homem sem Nome, possivelmente, vai enriquecer com recompensas por ter pego todo o bando de procurados.
Espero que tenham assistido ao filme, e gostado dessa leitura. É sempre um exercício muito interessante olhar para as imagens e tentar entender como elas são construídas. No caso de cinema, pensar as cenas e como nossas emoções são conduzidas.
Quanto a essa cena, entendo que alguns elementos são fulcrais nesta construção. Primeiro a vingança. Quando entendemos que o moça vitimada de forma tão vil por Indio era alguém muito próximo de Mortimer, tendemos a torcer para que ele consiga vencer o vilão.
Segundo, a eminente derrota injusta no começo da cena nos leva a sentir medo pelo personagem, pois foi desarmado e inserido em um duelo que não tem condições de vencer. Nesse sentido nos reconforta e dá esperança a aparição do Homem sem Nome, que coloca os duelistas em igualdade.
Por último, elemento mais importante de toda a construção dramática da cena, a trilha sonora. Claro que a cena é bem filmada e montada, mas o que a torna épica é a trilha de Morricone, é todo o sentimento que ela gera, é uma música redentora. A música nessa cena é o coração e o espírito, é simplesmente brilhante.
Bônus
Trilha tocada ao vivo por orquestra